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Rio 2016

 

Thiago Braz: do ouro no Rio à busca do último salto em Los Angeles 2028



Quando a histórica conquista do ouro no Rio completa uma década, revisitamos a montanha-russa na carreira de Thiago Braz: do salto recordista sob os gritos da torcida à dura reconstrução para o ciclo olímpico de 2028.



Thiago Braz na conquista do Ouro nas Olimpíadas do Rio 2016. Foto: COB

Quem duvida da força de uma torcida certamente não acompanhou a noite de 15 de agosto de 2016, no Engenhão, quando Thiago Braz conquistou o ouro olímpico inédito do Brasil no salto com vara. Há exatos 10 anos, a disputa pela medalha já estava decidida entre dois nomes quando o sarrafo chegou aos 5,98m: Renaud Lavillenie, então campeão olímpico e recordista mundial, passou com tranquilidade e cravou um novo recorde olímpico. Era a marca a ser batida pelo brasileiro.

Só que Thiago decidiu arriscar. Pulou a etapa seguinte e foi direto para 6,03m. Errou na primeira tentativa. Na segunda, embalado pela torcida de um estádio inteiro, ultrapassou a barreira dos 6 metros pela primeira vez na vida e quebrou o recorde olímpico que o francês tinha acabado de estabelecer. Lavillenie ainda tentou responder, subindo a régua para 6,08m. Sob as vaias da torcida brasileira, ele não passou e teve que se contentar com a prata.

Thiago Braz com a medalha de ouro nas Olimpíadas do RIO 2016. Foto: COB


O salto de Thiago foi tão especial e inédito em sua carreira que subiu 10 centímetros do seu recorde pessoal até aquele momento. Mas, para entender o tamanho do que aconteceu naquela noite, é preciso voltar um pouco no tempo.

Um menino de Marília apaixonado por esportes

Thiago Braz da Silva nasceu em 16 de dezembro de 1993, em Marília, no interior de São Paulo. Foi criado pelos avós e, antes de encontrar o salto com vara, passou por outros esportes, como basquete e decatlo. Um dos programas favoritos com os avós, aliás, não tinha nada a ver com atletismo: era pescaria.

Thiago Braz com os avós – Acervo pessoal – reprodução Facebook

O salto com vara só entrou na vida dele aos 13 anos, quando começou a treinar no em um clube de Marília, orientado pelo tio Fabiano Braz, ex-atleta. Ainda adolescente, tomou uma atitude que diz muito sobre sua ambição: procurou o técnico Elson Miranda e pediu para entrar em sua equipe. O grupo já tinha a campeã mundial, Fabiana Murer, entre seus atletas. Foi aceito.

Dali em diante, a trajetória foi de subida constante. Em 2010, veio a prata nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Cingapura. Aos 18 anos, em 2012, ele se tornou campeão mundial júnior em Barcelona, justamente na época em que colegas de geração disputavam a Olimpíada de Londres, um degrau que ele ainda não tinha alcançado. Em 2014, motivado por uma fratura no punho, tomou uma decisão radical: mudou-se para Formia, na Itália, a convite do técnico ucraniano Vitaly Petrov, o mesmo que havia treinado lendas como Sergei Bubka e Yelena Isinbayeva.

Thiago Braz em 2010, medalha de prata Jogos Olímpicos da Juventude, em Cingapura. Foto: reprodução/Instagram

A temporada em que quase nada deu certo

Se hoje parece uma trajetória linear rumo ao ouro, vale lembrar que 2015 foi um ano de sufoco. Thiago não acertou nenhum salto nos Jogos Pan-Americanos de Toronto. No Mundial de Pequim, terminou em 19º. E, cinco meses antes da Olimpíada do Rio, no Mundial Indoor de 2016, conseguiu validar apenas um salto.

Mas foi também naquele período conturbado que aconteceram coisas boas: ele se casou com Ana Paula Oliveira no final de 2014 e bateu seu recorde pessoal ao ar livre, com 5,92m, em 2015. Era, em resumo, um atleta talentoso, mas irregular sob pressão. O tipo de currículo que não fazia dele o favorito para a disputa em casa, no Rio.

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O que mudou depois dos 6,03m

O ouro olímpico não ficou restrito ao pódio. Thiago foi eleito Atleta do Ano no atletismo pelo Comitê Olímpico Brasileiro e recebeu a Medalha de Mérito do Esporte Militar, do Ministério da Defesa. Mas a mudança mais importante talvez tenha sido outra: o atleta que “travava em público” virou, a partir dali, alguém que cresce nos grandes momentos. A prova viria em Tóquio, em 2021, quando conquistou o bronze nos Jogos Olímpicos de 2020 e se consolidou com duas medalhas olímpicas.

Thiago Braz com suas duas medalhas olímpicas. Foto reprodução/Instagram

O tombo mais duro

Nem toda a história pós-2016 foi ascensão. Em julho de 2023, Thiago foi suspenso preventivamente depois de ser flagrado em exame antidoping por ostarina, substância que aumenta massa muscular e que, segundo ele, estava presente em um suplemento nutricional contaminado. Em maio de 2024, a Unidade de Integridade do Atletismo (AIU) confirmou a suspensão por 16 meses — o suficiente para tirá-lo dos Jogos de Paris 2024.

Ele recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) e conseguiu uma liminar para tentar o índice olímpico no Troféu Brasil. Não conseguiu: precisava de 5,82m e parou em 5,65m. Paris ficou para trás.

Reconstrução, com Los Angeles no horizonte

Em 2025, a volta foi gradual. Muito religioso, chegou a passar um período em retiro espiritual percorrendo o caminho de Jesus entre Egito e Israel. Fechou a temporada vencendo o Troféu Brasil, mas com 5,26m, uma marca ainda bem distante do seu auge. É um número que soa modesto para quem já passou dos 6 metros, mas que, no contexto da reconstrução, funciona como um sinal de que o caminho está sendo retomado.

Os próximos planos incluem o Mundial Indoor, o Mundial Outdoor e os Jogos Pan-Americanos de 2027, almejando sua despedida em Los Angeles 2028.

Uma trajetória de altos e baixos

O salto com vara é, por natureza, um esporte de erros e acertos, de sarrafos que sobem e caem. A carreira de Thiago Braz seguiu essa mesma lógica. Um atleta que, numa única noite em casa, se tornou o primeiro a ultrapassar os 6 metros em uma final olímpica. Um ídolo nacional que, anos depois, viu uma suspensão por doping tirar dele a chance de repetir a festa em Paris. E que agora, aos poucos, tenta reconstruir a régua mirando um último salto em Los Angeles, em 2028.

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