A caminhada da medalha de ouro olímpica nos Jogos Rio-2016 tinha começado com dois empates sem gols e chegado a uma goleada por 6 a 0 na semifinal. Em 20 de agosto de 2016, porém, restava a partida que transformaria aquela campanha em história. Brasil e Alemanha entraram no Maracanã para decidir o ouro olímpico do futebol masculino. Depois de 120 minutos, Renato Augusto seria o primeiro brasileiro a caminhar do meio-campo em direção à marca do pênalti.
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Dez anos depois, o jogador ainda se lembra da responsabilidade daquela cobrança. Também guarda na memória o momento em que Neymar marcou o último pênalti, a família nas arquibancadas, o hino nacional, as lágrimas do público e a sensação de conquistar justamente no estádio vizinho ao local onde cresceu a primeira medalha de ouro olímpica do futebol masculino brasileiro. Em entrevista ao Olimpíada Todo Dia (OTD), Renato Augusto voltou a cada um desses momentos.
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Uma final cercada pelo 7 a 1
O Brasil chegou à decisão depois de eliminar Colômbia e Honduras. Na final, a Alemanha carregava um significado inevitável para o público brasileiro: dois anos antes, as seleções principais haviam se enfrentado na semifinal da Copa do Mundo de 2014, no Mineirão, com vitória alemã por 7 a 1. Segundo Renato Augusto, o assunto tinha peso, mas era diferente dentro daquele grupo porque nenhum dos jogadores da equipe olímpica havia participado daquela partida.
“Era especial, mas, para a gente, menos, porque dali nenhum jogador participou do jogo. Muita gente acha que eu estava no 7 a 1, mas eu não estava. Então, a gente sabia da responsabilidade, porém, não tinha sofrido na pele o que aconteceu. A gente tinha sofrido apenas como brasileiro, como torcedor”. Havia ainda outro componente para Renato Augusto. O meio-campista tinha defendido o Bayer Leverkusen e conhecia o futebol alemão e alguns dos jogadores do adversário.
“A gente sabia da responsabilidade, até porque a Alemanha era um time muito forte e a gente tinha estudado bastante a equipe alemã. A maioria desses jogadores estavam na Copa seguinte e estão até hoje na seleção. Eu conhecia muitos jogadores, pois tinha saído há pouco tempo da Alemanha também. Eu saí de lá em 2013 e o jogo foi em 2016. Alguns daquele time jogaram comigo”, contou Renato Augusto.
Conquista com o coração
Diante de 63.707 pessoas no Maracanã, Neymar abriu o placar em cobrança de falta. Meyer empatou para a Alemanha. O 1 a 1 permaneceu até o fim do tempo regulamentar e também durante a prorrogação. “Foi um jogo difícil, eles meteram bola na trave e a gente também teve momentos que poderíamos ter matado o jogo. Foi um jogo realmente desgastante, mentalmente e fisicamente”, disse. Na prorrogação, o desgaste passou a determinar as decisões.
“Quando começou a prorrogação, o corpo começa a dar sinais de cansaço. Já começa um a querer estudar o outro, não correr risco, um time ou outro. Em alguns momentos a gente teve a oportunidade do gol. E até a chegada do pênalti. Aí já era mais coração do que realmente perna, ninguém mais tinha a perna. Foi mais no coração mesmo para ganhar o título”, comentou o meio-campista.
Renato Augusto escolhido para abrir as cobranças
Encerrada a prorrogação, os jogadores se reuniram antes da disputa por pênaltis. Foi naquele círculo que se definiu quem abriria a série brasileira. Renato Augusto contou que Luan, zagueiro integrante do elenco e com passagens marcantes por Vasco e Palmeiras, sugeriu que o primeiro e o quinto batedores fossem ele e Neymar. “O Luan falou assim, olha, o primeiro e o quinto. tem que ser o Renato e o Neymar. Aí o Neymar já falou, eu sou o quinto. O Marquinhos, o zagueiro, atual capitão da seleção, falou, eu sou segundo. E aí todo mundo já olhou para mim, né? Eu falei, ah, eu sou o primeiro, né? Vou fazer o quê?”
Renato Augusto, na verdade, preferia não abrir a disputa. Queria observar o comportamento do goleiro alemão antes de escolher como executaria sua cobrança. “Eu não queria bater o primeiro porque queria olhar o goleiro, a situação do goleiro. Então, o primeiro pênalti, é um pouco diferente. Hoje em dia se estuda muito mais, né? Os goleiros, os batedores. Mas queria ver um pouco do goleiro antes de bater”, revelou o meio-campista. Porém, não houve essa possibilidade. Ele caminhou para a marca e bateu no alto, no canto direito do goleiro. Gol.
A cobrança tirou um peso que o acompanhava. Renato Augusto atuava no futebol chinês quando foi convocado e sabia que sua presença era alvo de questionamentos. “Foi uma responsabilidade muito grande. Realmente, quando você faz o gol, a bola entra, dá aquele alívio. Tinha que tirar aquele peso de cima de mim”, disse. E havia um pensamento particular antes da batida. “Lembro que na hora que fui bater o pênalti da final, ainda falei, pô, os deuses do Maracanã não vão fazer isso comigo”. Depois dele, Marquinhos, Rafinha e Luan também converteram. Neymar ficou responsável pela quinta cobrança brasileira.
“Quando ele foi para a bola, eu já sabia”
A responsabilidade de Neymar era enorme. Para Renato Augusto, entretanto, a confiança no companheiro era ainda maior. Durante o período da seleção brasileira, os dois haviam treinado cobranças de pênalti e de falta. O meio-campista sabia exatamente o que camisa 10 era capaz de fazer. “Na verdade, quando ele foi para a bola, eu já sabia que tinha acabado. Eu tinha treinado com ele pênalti e falta praticamente a convocação inteira. E não preciso falar nada, né? Era incrível ver ele batendo tanto a falta quanto o pênalti”, afirmou.
Para Renato Augusto, o peso sobre Neymar tinha mudado naquele instante, já que o Brasil estava em vantagem e seria campeão se ele acertasse. “Quando ele foi para a última bola, era uma pressão grande, mas naquela condições de que se você faz acabou, né? Então, ao mesmo tempo, você vai leve para a bola. Portanto, quando ele foi para a bola, eu já sabia”, ressaltou. Neymar marcou. Renato Augusto caiu no gramado. “Eu não tinha muita força para comemorar porque foi um jogo muito desgastante, com prorrogação e tudo. Então, ali eu já ajoelhei e realmente foi só agradecer. Me joguei no gramado para comemorar”. O Brasil conquistava, enfim, o título que ainda faltava ao futebol do país em Jogos Olímpicos.

Do menino ao lado do Maracanã ao topo do pódio
Se conquistar o ouro já seria especial em qualquer lugar, para Renato Augusto havia uma camada pessoal. Nascido e criado nas proximidades do Maracanã, ele cresceu passando pelo estádio e imaginando títulos naquele gramado. Sua família e seus amigos estavam nas arquibancadas na final. “Minha família inteira, meus amigos, todos estavam lá, até porque sou nascido e criado do lado do Maracanã. Eu ia para o Maracanã quando moleque, criança, ia andando”, declarou. O estádio havia acompanhado sua infância. “Quantas vezes passei de ônibus, indo pra escola, pensando, um dia eu vou ser campeão aqui. Sempre sonhei em ser campeão do mundo ali, no Maracanã. Campeão do mundo não deu, mas, cara, a Olimpíada valeu”.
Para Renato Augusto, o contexto tornou a conquista do título na Rio-2016 ainda mais simbólica: era o primeiro ouro olímpico do futebol brasileiro, no Rio de Janeiro e diante da Alemanha, adversária do trauma vivido pelo país na Copa do Mundo dois anos antes. “Foi praticamente igual, porque foi um marco muito histórico de, primeiro título, primeira vez a medalha de ouro, pós uma derrota doída para a Alemanha na Copa do Mundo. Foi o primeiro jogo contra a Alemanha após esse resultado, então foi realmente mágico”, garantiu o atleta.
Depois veio uma experiência incomum para jogadores de futebol acostumados a levantar troféus: subir ao pódio olímpico e receber uma medalha. “Subir no pódio é diferente de tudo, porque a gente no futebol não tem esse costume. Subir nesse pódio em uma Olimpíada e em um Maracanã realmente abarrotado de gente foi único. Na hora do hino, você olhava para as pessoas na arquibancada, todo mundo chorando. Foi um momento mágico, realmente”, complementou Renato Augusto.
A Olimpíada além do futebol
A experiência de Renato Augusto na Rio-2016 não se resumiu à própria competição. Mesmo concentrado com a seleção brasileira, ele acompanhava o desempenho de atletas brasileiros em outras modalidades. Uma lembrança é de uma partida de basquete. Dez anos depois, ele não tinha certeza de qual havia sido o adversário — citou Espanha e Argentina ao tentar reconstruir o momento —, mas recordava claramente a emoção que sentiu acompanhando o Brasil.
“Cara, eu estava assistindo pelo SporTV. E, se eu não me engano, era o Roby Porto que estava narrando e ele se emocionou também. Eu ali, me emocionei muito, porque a gente acompanha e sabe o quanto é difícil”, disse. Renato Augusto se recordou também que a Rio-2016 ficou marcada pela conquista de Thiago Braz, campeão olímpico do salto com vara. A convivência, mesmo à distância, com histórias de modalidades diferentes do futebol o ajudou a enxergar os Jogos por outra perspectiva.
“Por estar vivenciando a Olimpíada, porque ela é diferente de outros campeonatos, de uma Copa América, de uma Copa do Mundo, ela envolve muita coisa. Envolve, às vezes, alguns esportes onde eles não têm um incentivo muito grande, mas o cara lutou para estar ali. A Olimpíada tem esse lado mais humano e para mim foi mágico. Eu conto até hoje com muita alegria e felicidade de ter participado, mas ser campeão realmente foi magnífico”, enfatizou Renato Augusto.
Cabelo, tatuagem e a resenha depois do ouro
O título também rendeu histórias mais leves. Uma delas envolveu a ideia dos jogadores de pintar o cabelo depois da conquista. Entretanto, Renato Augusto não aderiu. “Teve a história de todo mundo querer pintar o cabelo, e eu falei, olha, eu não vou. Eu não tenho mais a idade de vocês, não. Eu estou ficando careca, não vou pintar, não. E eu falava pra o Rodrigo Caio, não pinta, teu cabelo é bom pra caramba. Aí, daqui a pouco, não vai conseguir mais”. Os companheiros ainda tentaram convencê-lo, usando o apelido.
“Os moleques me chamavam de tio e falaram que todo mundo ia fazer. Mas eu falei, eu não vou. Já estava com a minha medalha no peito, então saí correndo para o vestiário”. Se escapou da pintura, Renato eternizou a conquista de outra maneira: fez uma tatuagem da medalha olímpica.




