Em 15 de agosto de 2016, Poliana Okimoto deixou o mar de Copacabana acreditando ter terminado a maratona aquática dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro na quarta colocação. Depois de nadar 10 quilômetros em quase duas horas, a brasileira havia ficado a dois segundos do pódio. A frustração, porém, durou pouco. A francesa Aurélie Muller foi desclassificada pela arbitragem após a chegada, e Poliana passou ao terceiro lugar. Dez anos depois, aquele bronze continua sendo um dos principais capítulos da história da natação feminina brasileira.
A medalha também encerrou um ciclo iniciado quatro anos antes, em Londres 2012. Na Inglaterra, Poliana abandonou a mesma prova após sofrer com hipotermia e deixou o Lago Serpentine de cadeira de rodas. No Rio, diante da torcida brasileira, conseguiu completar a prova e subir ao pódio.
A conquista, no entanto, não ficou restrita àquele 15 de agosto. Ao longo da década seguinte, Poliana continuou ligada à natação, às águas abertas e ao movimento olímpico. Em 2026, no ano em que a medalha completa dez anos, recebeu uma nova homenagem ao entrar para o Hall da Fama da Natação Brasileira e assumiu também um papel de liderança junto a uma nova geração de atletas.
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O bronze que apareceu depois da chegada
Poliana passou boa parte da prova entre as primeiras colocadas. A disputa dos 10 quilômetros em Copacabana reuniu algumas das principais especialistas do mundo, e a brasileira chegou aos metros finais ainda na briga por uma posição no pódio. A holandesa Sharon van Rouwendaal abriu vantagem e conquistou o ouro. Na disputa pelas posições seguintes, Poliana chegou a ocupar a terceira colocação, mas perdeu espaço no sprint final e terminou oficialmente em quarto, com o tempo de 1h56min51s. A diferença para o bronze foi de apenas dois segundos.
Quando saiu da água, a brasileira não tinha mais como reagir. O resultado representava uma melhora em relação às participações anteriores nos Jogos, mas não era o pódio que ela havia buscado durante os quatro anos de preparação. A situação mudou após a chegada. A francesa Aurélie Muller, que havia terminado à frente de Poliana, foi desclassificada por uma ação sobre a italiana Rachele Bruni durante a disputa pelo segundo lugar. A Federação Francesa recorreu da decisão, mas o resultado foi mantido. Poliana passou, então, da quarta para a terceira posição e conquistou a medalha de bronze olímpica.
A forma como o pódio aconteceu, depois de uma espera e de uma mudança no resultado oficial, deu à conquista uma característica particular. A medalha veio após o fim da prova, mas foi consequência de uma competição em que a brasileira havia permanecido na disputa pelas primeiras posições durante praticamente todo o percurso.
Londres ficou dentro daquela medalha
Para entender o significado daquele bronze, é preciso voltar a Londres. Em 2012, Poliana chegou aos Jogos como uma das representantes brasileiras nas águas abertas, mas não conseguiu terminar os 10 quilômetros. Durante a prova, sofreu com a baixa temperatura da água e precisou abandonar. A imagem da atleta deixando o Lago Serpentine de cadeira de rodas ficou associada à sua participação olímpica. O episódio teve consequências que ultrapassaram o resultado esportivo. Poliana contou, na época, que enfrentou um período de depressão após a experiência e precisou lidar com a frustração de não ter conseguido completar a prova.
Quatro anos depois, a experiência de Londres também passou a fazer parte da preparação para o Rio. A nadadora buscou entender o que havia acontecido e passou a se preparar para condições diferentes de água e temperatura. A Olimpíada no Brasil representava, portanto, uma nova oportunidade. Não apenas de conquistar uma medalha, mas de encerrar uma história que havia começado com uma das experiências mais difíceis de sua carreira.
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Uma preparação que ocupou a rotina inteira
O caminho até o pódio exigiu mudanças significativas na preparação de Poliana. Para a Rio 2016, a nadadora aumentou o volume de treinamento de aproximadamente 50 para 100 quilômetros por semana. A preparação física também passou de cerca de 50 minutos para duas horas por dia. A alimentação foi modificada e os treinamentos passaram a considerar diferentes condições que poderiam ser encontradas no mar.
A rotina era dividida com Ricardo Cintra, marido e treinador de Poliana. A preparação para os Jogos ocupava boa parte da vida do casal e exigia uma combinação de treinamento, recuperação, alimentação e descanso. O objetivo era chegar à prova com condições de responder às variáveis próprias de uma maratona aquática. Ao contrário de uma piscina, em que temperatura, distância e ambiente são controlados, uma prova no mar envolve correnteza, temperatura, contato físico entre as atletas e mudanças de estratégia durante o percurso. Em Copacabana, a preparação permitiu que Poliana permanecesse competitiva até o fim.
Uma carreira construída entre piscina e mar
O bronze olímpico foi o resultado mais conhecido de uma carreira que começou muito antes dos Jogos do Rio. Poliana começou a nadar aos três anos e chegou à seleção brasileira aos 13. Sua formação foi inicialmente na piscina, mas a carreira tomou outro rumo quando passou a competir em águas abertas. A adaptação não foi imediata. Na primeira prova em mar aberto, em 2005, Poliana chegou a sentir medo e pensou em voltar para a piscina. A mudança, porém, acabou se transformando no caminho que a levaria aos principais resultados de sua carreira.
Em 2008, disputou sua primeira Olimpíada, em Pequim, e terminou na sétima colocação. No ano seguinte, conquistou o bronze nos 5 quilômetros do Mundial de Esportes Aquáticos e venceu a Copa do Mundo de maratona aquática. Em 2013, veio outro resultado expressivo: Poliana conquistou o título mundial dos 10 quilômetros em Barcelona e a medalha de prata nos 5 quilômetros.
Uma medalha que fez história na natação feminina
O bronze conquistado em Copacabana teve importância que ultrapassou a carreira de Poliana. A medalha foi a primeira da natação feminina brasileira em uma Olimpíada e representou um marco para as águas abertas do país. A modalidade ainda buscava espaço entre o público brasileiro, especialmente quando comparada às provas tradicionais de piscina. A conquista ajudou a ampliar a atenção sobre as maratonas aquáticas e colocou uma atleta da modalidade no centro da cobertura esportiva dos Jogos disputados em casa.
Na época, Poliana também defendia que as águas abertas tinham potencial para crescer no Brasil justamente por serem uma modalidade acessível a diferentes públicos. A possibilidade de disputar provas ao lado de atletas de alto rendimento também poderia aproximar novos praticantes do esporte. Dez anos depois, essa ideia ganhou uma dimensão concreta na própria trajetória da nadadora.
Dez anos depois, um novo reconhecimento
Uma década após a medalha, Poliana voltou a ser homenageada pela natação brasileira. Em maio de 2026, durante o Troféu Maria Lenk, no Complexo Aquático Julio de Lamare, no Rio de Janeiro, ela entrou para o Hall da Fama da Natação Brasileira da CBDA. O local tornou a homenagem ainda mais significativa. Foi no Julio de Lamare que Poliana disputou seu primeiro campeonato absoluto de natação, criando uma relação afetiva com o espaço.
Em entrevista ao Olimpíada Todo Dia, realizada durante a cerimônia, Poliana destacou justamente a coincidência entre o local de uma das primeiras etapas de sua carreira e o reconhecimento recebido dez anos depois da medalha olímpica.
“Dez anos da medalha olímpica e estar recebendo esse reconhecimento … depois de 10 anos é um reconhecimento muito gostoso de receber”, afirmou.
Para a ex-atleta, a homenagem representou um momento “muito forte” e “muito emblemático”. A entrada no Hall da Fama acrescentou uma nova dimensão ao aniversário da medalha. Em 2016, Poliana era reconhecida pelo resultado que havia acabado de conquistar. Em 2026, o reconhecimento passou a considerar o conjunto de sua trajetória.
Da atleta às águas abertas para o triatlo
A relação de Poliana com o esporte também mudou ao longo da última década. Depois de deixar as longas distâncias competitivas das águas abertas, ela passou a explorar o triatlo. A natação continuou presente na rotina, mas em uma perspectiva diferente daquela vivida durante os ciclos olímpicos. A mudança também alterou a forma como a atleta encara a modalidade. Os treinamentos deixaram de estar necessariamente associados à preparação para uma única prova e passaram a fazer parte de uma rotina esportiva mais ampla.
A água, entretanto, permaneceu como um elemento constante. Em 2026, Poliana segue nadando, mas com uma relação diferente daquela dos anos em que precisava completar dezenas de quilômetros semanais para se preparar para uma maratona aquática olímpica.
A medalha também virou uma travessia

A ligação com as águas abertas ganhou ainda outro capítulo em 2018, quando Poliana criou a Travessia Poliana Okimoto. A competição foi criada com o objetivo de aproximar diferentes públicos da modalidade e oferece provas para diferentes níveis de experiência e faixas etárias. O evento cresceu ao longo dos anos e, em 2026, registrou recorde de participantes em Bertioga, com cerca de 3 mil nadadores. A programação reúne provas de diferentes distâncias, além de aquathlon e categorias infantis.
A dimensão da competição ajuda a mostrar como a relação de Poliana com as águas abertas mudou. Durante a carreira, ela estava na água para disputar contra o relógio e contra as principais atletas do mundo. Agora, seu nome também está associado a uma prova que coloca milhares de pessoas dentro do mar. A medalha olímpica deixou de ser apenas um resultado esportivo e passou a fazer parte de uma trajetória de divulgação da modalidade.
Uma nova função para uma nova geração
Em 2026, Poliana também assumiu uma função diferente dentro do movimento olímpico. Ela foi escolhida como chefe de missão do Brasil nos Jogos Sul-Americanos da Juventude Panamá 2026, passando a acompanhar uma delegação de jovens atletas brasileiros. A função representa uma mudança importante em relação à época em que disputava os Jogos Olímpicos. Como atleta, sua responsabilidade estava concentrada no próprio desempenho. Como chefe de missão, passou a acompanhar e orientar uma equipe. É outro papel dentro do esporte, mas que mantém a ligação com o movimento olímpico que marcou sua carreira.
A mudança também reforça uma característica da trajetória de Poliana após a aposentadoria das grandes competições: ela passou gradualmente da posição de atleta para a de referência e representante de uma modalidade e de uma geração.
“Que a gente possa surgir aqui no Brasil também”
Dez anos depois do bronze, Poliana não olha apenas para o passado. Ao falar sobre a natação brasileira em 2026, ela também demonstra preocupação com os nomes que podem representar o país nos próximos Jogos Olímpicos. Durante a entrevista realizada no Troféu Maria Lenk, a ex-atleta citou a evolução de Mafê Costa e afirmou acreditar que a nadadora tem condições de disputar uma medalha olímpica. Também mencionou o retorno de Etiene Medeiros como motivo de otimismo, especialmente pensando nos 50 metros costas em Los Angeles 2028. Mas a avaliação de Poliana vai além dos nomes já conhecidos.
“Tem muitos atletas crescendo muito e esses próximos dois anos são dois anos muito importantes porque são dois anos pros Jogos Olímpicos e é aí que muita gente surge”, afirmou.
A expectativa é que esse crescimento também aconteça dentro do país.
“Que a gente possa surgir aqui no Brasil também”, completou.
A declaração sintetiza a posição que Poliana ocupa hoje no esporte brasileiro. Ela não está mais se preparando para disputar uma medalha olímpica, mas acompanha o desenvolvimento de quem pode conquistá-la no futuro.
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