Há exatos dez anos a canoagem velocidade brasileira entrava para o Partenon do esporte mundial. Pela primeira vez em 80 anos a bandeira verde, amarela, azul e branca foi içada na modalidade numa edição de Jogos Olímpicos. Ainda não viria acompanhada do hino, é verdade, mas tremulou em três oportunidades. Em todas elas, com Isaquias Queiroz no pódio.
Foi em 16 de agosto de 2016 que o baiano de Ubaitaba conquistou a primeira medalha brasileira de todos os tempos na modalidade. Foi de prata, na luxuosa prova de canoa individual de mil metros, a C1 1000 m.
Naquela ocasião com apenas 22 anos, só não conseguiu superar um dos maiores nomes da canoagem velocidade, o alemão Sebastian Brendel, que, por sinal, é o maior ídolo de Isaquias no esporte. Tanto que o primeiro filho dele chama-se Sebastian.

O brasileiro subiria mais duas vezes no pódio da Rio 2016. Um bronze na C1 200 m e a outra prata na C2 1000 m, essa remando com Erlon Souza. Foi só o começo da história olímpica de um dos maiores vencedores brasileiros nos Jogos. Uma olimpíada depois, alcançou o topo com o ouro em Tóquio 2020, e em Paris 2024 colocaria uma medalha no peito pela quinta vez.
Alívio e sonho
“Na Olimpíada do Rio foram três sensações. Três medalhas, três linhas de chegada totalmente diferentes. A primeira, sem dúvida nenhuma, foi uma sensação de alívio. De poder ganhar a primeira medalha olímpica, tirar aquele peso de ganhar em casa. Ser o primeiro atleta do Brasil da canoagem velocidade e ter uma medalha olímpica”, lembra Isaquias Queiroz, com exclusividade pra o Olimpíada Todo Dia.
“Também um sonho realizado, por mais que não foi a de ouro. Poder chegar na Olimpíada do Rio de Janeiro, em casa, e ganhar a prata brigando com o Sebastian Brendel, que já era campeão olímpico, campeão mundial, pra mim foi uma sensação incrível”.
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Remada a remada
Isaquias e Brendel dominaram por completo a C1 1000 m da Rio 2016. Fizeram os dois melhores tempos da fase de classificação, ambos abaixo dos quatro minutos. Feito que somente eles e mais um atleta conseguiram. Como venceram as classificatórias, não precisaram passar pelas semifinais e, na final, fizeram praticamente uma disputa particular pelo ouro.
Brendel, na ocasião com 28 anos e então campeão olímpico da prova, fez valer sua maior superioridade à época. Mas nada que colocasse qualquer porém na prata de Isaquias.
“A sensação do pódio foi a melhor coisa que teve. Sambei, comemorei, a sensação de alívio, de felicidade, de dever cumprido. Ver toda aquela arquibancada verde e amarela comemorando, mesmo não sendo uma medalha de ouro”, relembra o brasileiro.

Quatro minutos para a história
A final foi num dia sem muito Sol na Lagoa Rodrigo de Freitas, Isaquias alinhou na raia quatro, ao lado de Brendel. O brasileiro largou forte e passou os primeiros 250 metros à frente do alemão, porém atrás do moldavo Serghei Tarnovschi. Os três líderes já escapavam na frente. Nos 250 metros subsequentes, Brendel saltou pra liderança trazendo Isaquias na cola, e ambos já desgarrando dos demais.
Nos últimos 500 metros, Brendel abriu uma canoa de vantagem e não foi mais ameaçado, cravando o ouro com 3min56s926. A prata de Isaquias também não foi mais ameaçada (3min58s526). Tarnovschi passou em terceiro por muito pouco, porém foi desclassificado e o bronze ficou com o russo Ilia Shtokalov (4min00s963).
80 anos depois
Minutos mais tarde, Isaquias levava toda a história da canoagem velocidade brasileira para o pódio olímpico. O primeiro nos 80 anos em que a modalidade integra o programa dos Jogos. A primeira aparição foi em 1936, em Berlim, época em que o esporte nem existia por aqui.
Os primeiros barcos oficiais surgiram no Brasil somente em 1984. Pra alcançar uma Olimpíada foram mais oito anos, em Barcelona 1992. A primeira final chegou em Atlanta 1996, onde veio um histórico oitavo lugar de Sebastian Cuattrin no caiaque individual, o melhor resultado até o início da Era Isaquias na Rio 2016.

Início de uma Era
“Ali (no Rio 2016), todo mundo começou a conhecer a canoagem de velocidade. Três medalhas em uma edição de Jogos Olímpico em uma modalidade que ninguém tinha conhecimento direito”, fala Isaquias Queiroz.
“Uma sensação incrível de poder saber que estava realizando um sonho não só meu, como de muita gente do Brasil que acreditava no meu trabalho, no meu potencial. Principalmente o Jesús Morlán, o Jorge Bichara (Gerente de Performance Esportiva do COB na ocasião), que estava comigo desde a época da base. Sempre me ajudando bastante dentro da seleção, de poder chegar no meu objetivo. Então, subir num pódio três vezes nos Jogos Olímpicos foi uma coisa incrível”..

“Pra falar a verdade, não sou muito apegado às medalhas. Tanto de Paris, Tóquio, como do Rio de Janeiro. Sou mais o cara que gosta de executar o serviço. O serviço é esse, vamos lá fazer o serviço, fez, pronto. Aí sim para mim é felicidade Para mim, as lembranças, os momentos são mais importantes, ficam guardados na memória”, acrescenta Isaquias Queiroz. “Somente poder ter feito um grande trabalho com o Jesús Morlán, que depois acabou deixando a gente, isso para mim é o momento mais incrível”.
Jesús Morlán Fariña era o técnico de Isaquias na ocasião, tido por muitos como o maior do mundo. Espanhol de Pontevedra, venceu o Prêmio Brasil Olímpico três vezes, em 2014, 2016 e 2017, e faleceu no fim de 2018 aos 52 anos.
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