Há 10 anos, Mayra Aguiar colocava seu nome na história olímpica brasileira. Com o bronze na categoria até 78kg, a atleta gaúcha de 25 anos recém-completados se tornava a primeira mulher brasileira de um evento indiavidual a repetir sua medalha olímpica. Uma das favoritas ao título, o bronze também evidenciou uma das maiores marcas de Mayra Aguiar em seus 20 anos de carreira: a resiliência e a capacidade de saber se levantar depois de quedas.
A atleta passou por oito cirurgias em sua carreira, que terminou com três medalhas olímpicas, oito medalhas em campeonatos mundiais, incluindo três títulos, quatro medalhas em Jogos Pan-Americanos, com um ouro em Lima-2019.
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Tanto na Rio-2016 quanto em Londres-2012 ou Tóquio-2020, Mayra Aguiar precisou se recuperar de uma dura derrota rumo ao ouro para se recuperar na repescagem. “Eu saí daquela luta com muita vontade de chorar, e ainda tinha estalado meu braço inteiro no final da luta. Quando eu saí dali, veio o Aurélio Miguel e disse: ‘Mayra, não acabou ainda, ainda tem mais uma competição’. E realmente acabou o choro ali. Ainda deixei uma lágrima escapar, mas eu disse a mim mesma: ‘essa eu não vou deixar escapar, eu vou levar uma medalha para casa’”, disse ela em Londres-2012 para a Confederação Brasileira de Judô.
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Em 2016, algo parecido. Ela chegou como uma das principais favoritas, mas perdeu na semifinal para a francesa Audrey Tcheuméo. “Foi uma nova competição e eu saí campeã. Medalha olímpica não tem cor e eu não poderia sair daqui sem ela, quando eu perdi a luta eu saí abalada, mas no judô a gente aprende a cair e levantar”, comemorou Mayra Aguiar aos jornalistas na saída. “Conquistei uma medalha olímpica em Londres, mas com essa vibração no Brasil foi bem diferente. A energia da torcida me deu força para voltar ao tatame e ganhar a luta”, completou aos jornalistas.

Uma carreira de sucesso no juvenil
Nascida em 1991, Mayra Aguiar foi uma das judocas mais precoces da história do país. Aos 15 anos, ela já foi medalhista de bronze no Mundial Júnior de Judô 2006, para atletas com até 20 anos, encerrando a carreira juvenil com quatro medalhas mundiais. No adulto, depois da estreia olímpica em Pequim-2008, competindo pelos 70kg, ela migrou para os 78kg, categoria na qual Edinanci Silva foi o principal nome da seleção por quatro ciclos olímpicos.

Ela foi vice-campeã mundial em 2010 e medalhista de bronze no Mundial de 2011. Ao vencer o Grand Slam de Paris, em fevereiro, se tornou a primeira judoca brasileira a liderar o ranking mundial da Federação Internacional de Judô (FIJ). “Eu sempre sonhei em chegar à primeira posição no ranking. Era um objetivo e acho que todas as meninas vão se motivar. É bom para todo mundo, pois prova que é possível. O judô feminino do Brasil cresceu bastante nos últimos anos. Esta posição não é por acaso. Fico orgulhosa e satisfeita, mas a primeira posição no ranking não vai abalar a nossa forma de trabalhar, sempre com empenho, dedicação e seriedade”, disse Mayra Aguiar, segundo reportagem da época da ESPN.
Aos 20 anos, a primeira medalha olímpica
Em julho, ainda com 20 anos, conquistaria sua primeira medalha olímpica, o bronze em Londres-2012. Como tudo na carreira de Mayra, o bronze foi na base da superação. Ela se machucou depois da semifinal e lutou com o braço dormente, de acordo com relato publicado pelo UOL na época. Mesmo assim, venceu e subiu ao pódio olímpico.

Na Rio-2016, Mayra Aguiar era uma das principais candidatas ao ouro, vinda de um ciclo olímpico espetacular. Medalhista de bronze no Mundial de 2013, ela sagrou-se campeã mundial em 2014, vencendo a francesa Audrey Tcheuméo na final. Em 2015, ela caiu ainda nas oitavas do Mundial, ficando longe do pódio. Foi um ponto fora da curva. Ainda em fevereiro de 2016, ela venceu o Grand Slam de Paris e foi vice-campeã do Campeonato Pan-Americano de Havana. As três finais foram contra a norte-americana Kayla Harrison. A gaúcha chegou ao Rio como a terceira cabeça de chave.
Uma reportagem especial do UOL revelou detalhes do isolamento de Mayra nos meses anteriores aos Jogos Olímpicos Rio 2016, em busca do foco necessário para sua segunda medalha. “A gente nem manda mensagem mais porque Mayra prefere se concentrar antes. Faz dois dias que eu não falo com ela, por exemplo. Das redes sociais então ela larga mesmo. Não quer se distrair lendo o que as pessoas falam dela”, explicou a irmã, a ex-judoca Hellen Aguiar para os jornalistas.
11 de agosto de 2016: um dia aguardado por muitos anos
Estreando direto nas oitavas de final, Mayra Aguiar venceu a australiana Miranda Giambelli, 18ª melhor da época, após 39 segundos de luta. No começo, ela conseguiu um golpe de perna para aplicar um waza-ari e sair na frente. Logo depois, no solo, conseguiu a imobilização. O público presente na Arena Carioca “contou junto os 15 segundos” até a vitória da brasileira, conforme relatou O Globo na época.
Nas quartas, uma luta muito acirrada contra a alemã Laura Malzahn, então sétima do ranking. Com o placar zerado, a vitória da brasileira veio por uma punição da europeia, por falta de combatividade. Na época, os shidos serviam de desempate ao final do tempo regulamentar.
Se as punições foram recebidas com alegria na Arena Carioca, também causaram frustração em sequência. Uma semifinal muito estudada contra Audrey Tcheuméo foi decidida ao fim de três punições em prol da francesa para tristeza do público. Ainda na primeira metade, Mayra recebeu a primeira punição, mas ela conseguiu empatar. Porém, por um movimento irregular, Mayra levou uma nova punição, que seria determinante para a definição da finalista.
“Raiva a gente não pode ter em uma luta, porque senão a gente acaba errando muito. Na semifinal, eu pequei em pensar demais. Pensei muito na pegada e ela acabou me complicando. Foi muito difícil ter que virar a cabeça, esquecer aquela luta e sair vitoriosa”, disse naquele dia 11 de agosto.

A volta por cima necessária para terminar o dia feliz
O momento de recuperação de Mayra teve que ser muito rápido, cerca de 20 minutos, antes da luta pela medalha de bronze. Muito superior contra a cubana Yalennis Castillo, a gaúcha aplicou um yuko, buscou uma imobilização, forçou uma punição e ao final de quatro minutos pôde enfim comemorar sua segunda conquista olímpica.
“Saio feliz. Não consegui meu maior objetivo, mas dei a volta por cima. É uma satisfação para o atleta conquistar uma medalha olímpica. Pensei que não fosse sentir esse gosto de novo. É um momento muito difícil virar a cabeça, esquecer a derrota e entrar em uma nova competição. Ainda vou lutar muito. É mais uma para a conta de medalhas olímpicas”, comentou Mayra em relato do jornal O Globo.

A torcida que contava com o esperado duelo entre Mayra Aguiar e Kayla Harrison e acompanhava as lutas da norte-americana com atenção durante o dia, viu a estadunidense ser bicampeã olímpica no fim da tarde naquela quinta-feira.
Mais dois títulos mundiais e um terceiro bronze olímpico em Tóquio
Depois da Rio-2016, ela conquistou o bicampeonato mundial em 2017, se vingando da francesa Audrey Tcheuméo nas quartas de final, e vencendo duas japonesas. Em Tóquio-2020 ela conseguiu a terceira medalha olímpica de bronze, tornando-se a primeira e, até hoje, única brasileira a conquistar medalhas em uma prova individual em três edições dos Jogos Olímpicos.

“Eu me emocionei muito, estou chorando igual criança. Estava muito entalado por tudo o que eu vivi. Foi muito tempo de superação, foi uma atrás da outra. Hoje poder concretizar com uma medalha é muito importante. Acho que é a maior conquista de toda a minha carreira. Estar com isso concretizado é muito gostoso”, disse na ocasião aos jornalistas.
Uma conquista histórica que seria a última vitória da carreira
Depois do bronze em Tóquio-2020, Mayra Aguiar fez um ciclo olímpico quase perfeito. Disputou dez competições e foi medalhista em nove delas. Em 2022, conquistou o terceiro título mundial e terminou o ano na liderança do ranking mundial da 78kg feminina. Fora do Mundial de 2023 e dos Jogos Pan-Americanos de Lima-2023, Mayra Aguiar terminou 2023 com uma conquista histórica: se tornou a primeira judoca brasileira a vencer o tradicional Grand Slam de Tóquio.

Para Paris-2024, fez uma “programação diferenciada”, uma estratégia ousada, e preferiu focar nos treinos nos meses anteriores à competição. Blindada até dos jornalistas nas atividades preparatórias, foi aos Jogos Olímpicos como a nona colocada do ranking olímpico e fora das cabeças de chave, enfrentando já na estreia a italiana Alice Bellandi, líder do ranking mundial, com vitória para a europeia por um waza-ari. Após a sua última competição profissional, seu abraço no jornalista Marcelo Courrege emocionou os torcedores brasileiros.
Em 26 de dezembro de 2024, Mayra Aguiar anunciou sua aposentadoria através de um post de Instagram. “Vivi muito intensamente o judô desde os meus 14 anos, quando entrei pela primeira vez na Seleção Brasileira principal. Com apenas 16, disputei meus primeiros Jogos Pan-Americanos e, aos 17, minha primeira Olimpíada. Foi pesado. São quase 20 anos no esporte de alto rendimento, suportando viagens, lesões e uma rotina de treinos muito intensa. Agora, vou descansar um pouco e pensar no futuro”, afirmou a judoca.
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