Duas largadas, duas medalhas. Foi assim que Isaquias Queiroz entrou para disputar a ultima prova dele na canoagem velocidade na Rio 2016. Faltava uma não só para cumprir o objetivo que tinha traçado, mas também para se tornar o único brasileiro até então com três medalhas em uma edição de Jogos Olímpicos.
Deu certo. No dia 20 de agosto daquele ano, ele e Erlon de Souza conquistaram a prata na canoa dupla mil metros, a C2 1000 m. E foi nos braços da torcida. “Essa é a melhor coisa que tem. Ver a torcida brasileira apoiando a canoagem sempre foi o meu sonho”, falou o brasileiro com exclusividade para o Olimpíada Todo Dia.

“Olhava para a Lagoa Rodrigo de Freitas e estava cercado de gente tentando acompanhar. A arquibancada lotada. Sensação de ver que o Brasil tinha abraçado a canoagem. Queriam acompanhar, saber quem era o Isaquias, o moleque que estava ganhando uma, duas medalhas. Que estava indo para a terceira.”
Brasil x Alemanha
Isaquias Queiroz e Erlon Souza entraram enormes na C2 1000, vinham do título mundial no ano anterior, em Milão. Apesar disso, a missão era duríssima. A dupla alemã tinha Sebastian Brendel, já bicampeão olímpico no C1 1000 m sendo o segundo título conquistado dias antes, na mesma Lagoa Rodrigo de Freitas, batendo exatamente Isaquias na final. Jan Vandrey era o parceiro de Brendel.
A fase de classificação foi um dia antes da final, em 19 de agosto. Tanto brasileiros quanto alemães venceram sobrando as respectivas baterias.

Isaquias Queiroz e Erlon de Souza passaram mais de dois segundos à frente dos ucranianos Dmytro Ianchuk e Taras Mishchuk. Sebastian Brendel e Jan Vandrey ficaram 1s5 à frente dos cubanos Serguey Torres e Fernando Jorge. Com isso, ambas as duplas foram direto para a final, sem precisar gastar energia na semifinal.
Nos braços da torcida
Na final, Isaquias e Erlon saltaram na frente e chegaram a colocar quase uma canoa de distância para os demais competidores. Na segunda metade da prova, Brendel e Vandrey começaram a descontar e superaram os brasileiros nos metros finais.
Era o terceiro ouro olímpico de Sebastian Brendel em duas edições dos Jogos. Dmytro Ianchuk e Taras Mishchuk levaram o bronze para a Ucrânia.

Festa completa
Após a prova e a cerimônia de premiação, mais uma vez a torcida volta às lembranças de Isaquias. “A gente comemorou bastante. Fomos até o final da arquibancada, agradecendo todo mundo que foi. A sensação de ver os fotógrafos brigando para tirar uma foto. Foi incrível. Todos chegando ali perto da gente, querendo fazer uma entrevista, perguntar como foi. Foi incrível”, relembra.
“(Nas outras duas medalhas) vinha aquela sensação magnífica, mas foi tipo assim: ‘pô, ganhamos? Ganhamos. Pronto, acabou. Bora virar a chave, que agora tem os 200 (C1 200 m)’. Depois dos 200? Beleza, subimos no pódio, comemoramos, fomos para o hotel, foi legal, incrível, mas acabou. Vamos esquecer isso e vamos partir agora para o barco de equipe C2″, acrescenta.
Jesús e Maracanã
Memórias de Jesús Morlán, mentor de Isaquias Queiroz e técnico dele e de Erlon naquela ocasião, também vieram à tona. “O momento que a gente chegou na tenda com as medalhas, que estava lá o Jesus”, diz.
O espanhol Jesús Morlán Fariña foi tido por muitos como o maior do mundo. Venceu o Prêmio Brasil Olímpico três vezes, em 2014, 2016 e 2017, e faleceu no fim de 2018 aos 52 anos.
O pódio na C2 1000 m completou o desempenho histórico e fez de Isaquias porta-bandeira do Brasil no desfile da cerimônia de encerramento da Rio 2016, realizada no dia seguinte à final do C2 1000 m da canoagem velocidade. “Foi muito incrível. Poder estar no Maracanã com a bandeira do Brasil, isso para mim foi incrível”.
Medalhas e mais medalhas
A Rio 2016 chegou ao fim, mas a Era Isaquias estava apenas começando. Não que ele tenha surgido do nada nos Jogos do Brasil. Já havia sido bicampeão mundial na C1 500 m em 2013 e 2014, além de campeão mundial na C2 1000 m com Erlon, em 2015. Tinha outros três bronzes em mundiais e dois ouros nos Jogos Pan-Americanos em Toronto 2015.
Mas, sem dúvida, foi na Olimpíada do Rio de Janeiro que ele decolou de vez. Ganharia mais quatro ouros mundiais, uma prata e três bronzes e seria bicampeão pan-americano em Lima 2019.
Mais do que isso, o sonhado ouro Olímpico veio em Tóquio 2020 e ele chegou a sonhar em se tornar o maior medalhista da história do Brasil em Jogos. Com a prata em Paris 2024, chegou perto, se igualando aos antigos donos da marca, Robert Scheidt e Torben Grael, todos com cinco.
“Continue remando, Isaquias”
O feito ficou mais difícil após a ginasta Rebeca Andrade chegar a seis medalhas olímpicas. Nada que tire Isaquias do seletíssimo grupo de maiores atletas da história do Brasil e, porque não, da canoagem velocidade mundial.
Los Angeles 2028 vem aí e, aos 34 anos, Isaquias Queiroz poderá aumentar o feito e se tornar o único brasileiro a medalhar em quatro edições dos Jogos. Para isso, mantém na mente talvez o maior ensinamento que recebeu de seu grande mentor, Jesús Morlán: “continue remando, Isaquias, continue remando”.

