Neste sábado, dia 8 de agosto, se completa 10 anos desde que Rafaela Silva subiu ao lugar mais alto do pódio olímpico no Rio de Janeiro. Ao vencer a categoria 57kg do judô na Rio-2016, o hino nacional do Brasil tocou pela primeira vez em uma cerimônia de pódio de Jogos Olímpicos no Brasil. Da Cidade de Deus ao topo do mundo, a trajetória da carioca reúne façanhas inéditas, uma dura passagem por racismo e doping, e a reconstrução de uma carreira que a consagrou como a maior judoca da história do país.
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Rafaela Silva começou a lutar judô aos 5 anos, ainda pequena, numa academia perto de casa, na Cidade de Deus. Chegou ao Instituto Reação aos 8 anos, onde o treinador Geraldo Bernardes identificou um talento fora do comum e passou os anos seguintes lapidando essa habilidade.
Ainda juvenil, Rafaela venceu o Mundial de juniores na Tailândia, numa categoria para atletas de 17 a 19 anos, com apenas 16.
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Os títulos foram chegando e, quando os Jogos de Londres apareceram no horizonte, Rafa era vice-campeã mundial e uma das favoritas ao pódio. A Olimpíada acabou antes do esperado: ela foi desclassificada por uma catada de perna ilegal contra a húngara Hedvig Karakas. Nas redes sociais, vieram ataques racistas, palavras que machucaram mais do que qualquer derrota esportiva.
A atleta pensou em parar de lutar e encerrar a carreira. Com apoio psicológico, no entanto, deixou a ideia de lado. Rafaela voltou ao tatame e, em 2013, se tornou campeã mundial sênior no Rio de Janeiro, na própria cidade.
8 de agosto de 2016
Na manhã da categoria até 57 kg, ela eliminou a alemã Miryam Roper em 46 segundos, com dois waza-aris, passou pela sul-coreana Jandi Kim e chegou às quartas para reencontrar a húngara Hedvig Karakas, exatamente a adversária do episódio de Londres. Mas a repetição do resultado de Londres não aconteceu: Rafaela venceu a adversária e seguiu viva na disputa pelo ouro.
“Fiquei pensando no que aconteceu em 2012 e que eu não poderia deixar que acontecesse de novo aqui, na minha casa”, contou, segundo a CBJ.
A semifinal contra a romena Corina Caprioriu, prata em Londres e vice-campeã mundial em 2015, foi a luta mais difícil do dia. Os quatro minutos regulamentares terminaram sem pontuação no placar, com apenas uma punição para cada lutadora. A decisão foi para o golden score. Foi ali que a brasileira encaixou um waza-ari, aos 3 minutos e 6 segundos do tempo extra, e carimbou vaga na final.
Na decisão, diante da mongol Dorjsürengiin Sumiya, número um do ranking mundial, Rafa entrou agressiva, forçou uma punição à adversária logo de início e, com um minuto de luta, encaixou o golpe. O árbitro central sinalizou o waza-ari, mas a mesa pediu revisão da técnica. Por um instante, o fantasma de Londres ameaçou voltar. O golpe, porém, foi validado, e a vantagem permaneceu. Quando o cronômetro zerou, Rafaela desabou no tatame, com os braços abertos e as lágrimas que não precisavam de explicação.

Aos 24 anos, a carioca da Cidade de Deus dava ao Brasil o primeiro ouro dos Jogos do Rio. Ela se tornava, assim, a única judoca brasileira a reunir no currículo títulos mundiais júnior e sênior e também o ouro olímpico.
Depois de Rio 2016
Nos anos seguintes, a trajetória de Rafaela continuou com conquistas e obstáculos na mesma medida. Em 2019, um exame antidoping apontou a presença de fenoterol, um broncodilatador proibido, no organismo da judoca. Ela recorreu à Corte Arbitral do Esporte, mas perdeu o processo e foi afastada por dois anos, período que a tirou dos Jogos de Tóquio.
Em seu retorno, já em 2022, conquistou o bicampeonato mundial em Tashkent, no Uzbequistão. No ano seguinte, subiu ao topo do pódio dos Jogos Pan-Americanos de Santiago, no Chile, recuperando o título que havia perdido em 2019. Já em Paris, em 2024, não subiu ao pódio na chave individual, mas foi decisiva na conquista inédita do bronze por equipes do Brasil, ao vencer a luta que fechou a vitória sobre a Itália.
Hoje com 34 anos, Rafaela Silva segue como a maior judoca da história do Brasil, a única a reunir no currículo o ouro olímpico e títulos mundiais nas categorias júnior e sênior.
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