Toda Olimpíada conta histórias. Mas poucas reuniram tantas histórias de começo e de fim quanto os Jogos Rio 2016, especialmente para nós brasileiros. Nos próximos 18 dias você vai acompanhar aqui no Olimpíada Todo Dia as principais histórias da “Nossa Olimpíada”.
Em 5 de agosto de 2016, enquanto o Maracanã recebia a primeira cerimônia de abertura olímpica da América do Sul, milhares de atletas carregavam sentimentos completamente diferentes. Para alguns, era a realização do sonho construído ao longo de toda a vida. Para outros, era a última oportunidade de vestir o uniforme de seu país em uma edição dos Jogos.
Mais sobre a Rio-2016
Dez anos depois, é impossível olhar para o Rio 2016 apenas pelos recordes ou pelas medalhas. A Olimpíada brasileira foi um marco porque apresentou novos esportes ao programa olímpico, revelou atletas que mudariam a história do esporte brasileiro e mundial e se despediu de nomes que ajudaram a construir o legado olímpico das últimas décadas.
Quando novos esportes escreveram sua primeira página
O Rio 2016 ampliou o programa olímpico com duas modalidades que carregavam histórias muito diferentes. Esportes um tanto quanto inusitados e pouco conhecidos ainda em solo brasileiro. Esse era o grande palco que por anos muitos atletas lutaram para conquistar.
O golfe voltou aos Jogos após 112 anos de ausência, reencontrando o palco olímpico pela primeira vez desde 1904.

Já o rúgbi de 7 fazia sua estreia olímpica. Mais rápido, intenso e dinâmico que a versão tradicional do esporte, ele encontrou nos Jogos do Rio um cenário perfeito para conquistar novos fãs.
E bastou uma edição para produzir uma das histórias mais emocionantes daquela Olimpíada.
Ao vencer a Grã-Bretanha na decisão do torneio masculino, Fiji conquistou o primeiro ouro e também a primeira medalha olímpica de toda a sua história. Um pequeno país do Pacífico parou para celebrar uma conquista que ultrapassava o esporte e se transformava em símbolo de identidade nacional. A data virou até feriado nacional!

Para o Brasil, aqueles Jogos também marcaram o início da caminhada olímpica de atletas que ajudariam a consolidar o rúgbi no país. Entre elas estava Raquel Kochhann. Em 2016, ela estreava diante da torcida brasileira. Oito anos depois, voltaria aos Jogos pela terceira vez consecutiva e pisaria na capital francesa carregando a bandeira do Brasil na cerimônia de abertura de Paris 2024. Um ciclo que começou justamente no Rio.

A Olimpíada que abriu portas para uma geração inteira
Sediar uma Olimpíada também significa criar oportunidades.
Como país-anfitrião, o Brasil garantiu presença em modalidades nas quais normalmente teria poucas vagas ou, em alguns casos, sequer conseguiria classificar atletas. O resultado foi uma das maiores e mais diversas delegações da história do Time Brasil, permitindo que centenas de atletas realizassem o sonho de disputar uma edição dos Jogos justamente diante da torcida brasileira.

Na esgrima, esse legado foi especialmente marcante. Com vagas asseguradas ao país-sede, o Brasil levou sua maior delegação olímpica da história da modalidade até então, reunindo atletas nas três armas e ampliando significativamente a presença do esporte no cenário nacional. Para muitos deles, aquela foi a primeira experiência olímpica e o início de uma trajetória que ajudaria a consolidar o crescimento da esgrima brasileira nos anos seguintes.
O mesmo aconteceu em modalidades como o rúgbi, que fazia sua estreia no programa olímpico e contou com as seleções masculina e feminina brasileiras classificadas por serem anfitriãs dos Jogos, além do hóquei sobre a grama e do polo aquático, esportes que também aproveitaram a condição de país-sede para levar atletas ao maior palco esportivo do mundo.
Os primeiros passos de uma geração que faria história
Em agosto de 2016, ninguém sabia que estava assistindo ao início da trajetória da maior medalhista olímpica da história do Brasil.
Aos 17 anos, Rebeca Andrade fazia sua estreia olímpica na Arena Olímpica do Rio. Ainda distante da coleção de medalhas que conquistaria nos anos seguintes, a jovem ginasta já demonstrava o talento que a transformaria, uma década depois, na maior medalhista olímpica da história do Brasil. Ao seu lado estava outra adolescente que conquistava o carinho da torcida: Flávia Saraiva. Com apenas 16 anos, a carioca encantou o público com seu carisma e talento, classificando-se para as finais do individual geral e da trave e consolidando uma geração que mudaria o patamar da ginástica artística brasileira.

Na canoagem, Isaquias Queiroz também vivia sua primeira experiência olímpica. O baiano saiu dos Jogos com três medalhas — duas pratas e um bronze —, tornando-se o primeiro brasileiro a conquistar três pódios em uma mesma edição olímpica. Era apenas o começo de uma carreira que ainda renderia o ouro em Tóquio e colocaria seu nome entre os maiores canoístas da história do país.

Mas talvez nenhuma conquista tenha traduzido tão bem a emoção daqueles Jogos quanto a de Thiago Braz. Diante de um Estádio Olímpico lotado, o brasileiro desafiou o favoritismo do francês Renaud Lavillenie e superou, salto após salto, todas as marcas da própria carreira. Ao ultrapassar 6,03 metros, novo recorde olímpico, conquistou um ouro improvável e protagonizou uma das cenas mais emblemáticas do Rio 2016.

A estreia olímpica também foi inesquecível para Martine Grael e Kahena Kunze, campeãs olímpicas na vela logo em sua primeira participação; para Felipe Wu, que conquistou a primeira medalha do Brasil nos Jogos, com a prata na pistola de ar de 10 metros; e para Arthur Nory, que subiu ao pódio com o bronze no solo e ajudou a escrever uma página inédita da ginástica artística masculina brasileira.


Nem todas as estreias terminaram em medalhas, mas muitas delas representaram o início de trajetórias que mudariam o esporte brasileiro. Foi o caso de Hugo Calderano, que começava a consolidar o tênis de mesa nacional entre a elite mundial; de Marcus D’Almeida, então com apenas 18 anos, que fazia sua primeira Olimpíada na cidade onde nasceu e iniciava a caminhada que anos depois o levaria ao topo do ranking mundial do tiro com arco.


O que para milhões de brasileiros era apenas mais uma Olimpíada, para aqueles atletas representava o primeiro capítulo de histórias que ainda estavam sendo escritas. Dez anos depois, muitos deles continuam entre os principais nomes do esporte nacional, confirmando que o Rio 2016 foi muito mais do que uma edição dos Jogos: foi o nascimento de uma nova geração olímpica.
As despedidas de quem abriu caminho
Se para alguns atletas o Rio era o começo de um sonho, para outros representava a última volta olímpica.
Depois de décadas dedicadas ao esporte, alguns dos maiores nomes da história do Brasil encerravam ali suas trajetórias nos Jogos, diante da torcida que os acompanhou durante tantos anos.
Uma dessas despedidas foi a de Yane Marques. Primeira brasileira a conquistar uma medalha olímpica no pentatlo moderno, com o bronze em Londres 2012, Yane teve a honra de conduzir a delegação nacional como porta-bandeira na cerimônia de abertura do Rio 2016. Competir em casa marcou o encerramento de uma carreira que abriu caminho para toda uma geração de atletas da modalidade no país.
A ginástica artística também viveu um momento simbólico. Depois de cinco participações olímpicas consecutivas, Daniele Hypólito disputou sua última Olimpíada como uma das maiores pioneiras da modalidade no Brasil. Primeira brasileira a conquistar uma medalha em um Campeonato Mundial, Daniele ajudou a colocar a ginástica artística no mapa do esporte nacional e inspirou uma geração que, anos depois, levaria o Brasil ao topo do pódio olímpico.

Dias depois, foi a vez de seu irmão, Diego Hypólito, encerrar sua trajetória olímpica. Após as quedas que marcaram suas campanhas em Pequim 2008 e Londres 2012, o bicampeão mundial viveu um dos momentos mais emocionantes daqueles Jogos ao conquistar a medalha de prata no solo diante de uma Arena Olímpica completamente lotada. Mais do que uma medalha, era a recompensa por anos de perseverança e um desfecho à altura de um dos maiores nomes da história da ginástica brasileira.
Nos tatames, o judô brasileiro também se despediu de dois nomes históricos. Medalhista de prata em Sydney 2000 e bronze em Pequim 2008, Tiago Camilo fez sua quinta e última participação olímpica no Rio. Ao seu lado, Felipe Kitadai, responsável por conquistar o bronze em Londres 2012, a primeira medalha do Brasil naquela edição, também encerrou seu ciclo olímpico diante da torcida brasileira. Já no boxe, Adriana Araújo fez sua última participação nos Jogos. Medalhista de bronze em Londres 2012, ela entrou para a história ao conquistar a primeira medalha olímpica do boxe feminino brasileiro e ajudou a abrir caminho para o crescimento da modalidade no país.



Nas pistas e nas piscinas, outros grandes nomes também encerravam seus ciclos. Bicampeã mundial do salto com vara, Fabiana Murer disputou sua última Olimpíada depois de mais de uma década entre as principais atletas do mundo. Já Thiago Pereira, medalhista olímpico em Londres 2012 e um dos maiores nadadores da história do Brasil, despediu-se dos Jogos após quatro participações, enquanto Joanna Maranhão, recordista de participações olímpicas da natação feminina brasileira, também encerrou sua trajetória olímpica depois de cinco edições consecutivas dos Jogos.



O vôlei brasileiro também viu chegar ao fim uma de suas gerações mais vencedoras. No masculino, Serginho encerrou sua trajetória da maneira que todo atleta sonha: conquistando o ouro olímpico diante de um Maracanãzinho lotado. Eleito o melhor jogador do torneio, o líbero despediu-se da seleção como bicampeão olímpico e um dos maiores jogadores da história da modalidade.
No feminino, Jaqueline Carvalho, Sheilla Castro e Fabiana Claudino também vestiram a camisa da Seleção Brasileira em uma Olimpíada pela última vez. Bicampeãs olímpicas em Pequim 2008 e Londres 2012, elas encerraram um ciclo que transformou o Brasil em referência mundial no vôlei feminino e inspirou milhares de meninas a sonharem com uma medalha olímpica.


Mais do que despedidas individuais, o Rio 2016 marcou o fim de uma geração que ajudou a transformar o esporte brasileiro. Enquanto esses ídolos encerravam suas histórias olímpicas diante da torcida, novos nomes começavam a escrever as suas. A passagem de bastão nunca foi tão evidente e talvez por isso a Olimpíada do Rio permaneça tão viva na memória dos brasileiros.
Um desfile que mudou a história olímpica
Nem todas as histórias marcantes do Rio 2016 aconteceram dentro das arenas.
Na cerimônia de abertura, dez atletas entraram no Maracanã vestindo um uniforme diferente de todos os outros. Eles não carregavam a bandeira de um país, mas a bandeira olímpica.
Era a primeira equipe olímpica de refugiados da história.

Vindos de países marcados por guerras e perseguições, aqueles atletas transformaram o desfile em uma das imagens mais simbólicas da Olimpíada, mostrando que o esporte também pode representar esperança, pertencimento e recomeço.
A iniciativa se tornou permanente e segue presente nos Jogos Olímpicos até hoje.
O Rio onde gerações se encontraram
Talvez seja esse o maior legado de Rio 2016.
Foi a Olimpíada onde Rebeca Andrade, Arthur Nory, Isaquias Queiroz, Raquel Kochhann e tantos outros deram seus primeiros passos no maior palco do esporte mundial.

Foi também a edição em que nomes como Serginho, Diego e Daniele Hypólito, Yane Marques e Tiago Camilo se despediram dos Jogos, encerrando capítulos que ajudaram a construir a história olímpica.
Durante pouco mais de duas semanas, o Rio de Janeiro reuniu, ao mesmo tempo, o passado, o presente e o futuro do esporte. Dez anos depois, muitas das histórias que emocionaram o Brasil naquela Olimpíada continuam sendo escritas e outras permanecem eternizadas como parte de um legado que vai muito além das medalhas.



