Os Jogos Olímpicos Rio 2016 entraram para a história do esporte mundial. Além de marcarem a primeira edição realizada na América do Sul, também revelaram novos integrantes do quadro de medalhas: Fiji, Jordânia e Kosovo. Mais do que estrear no pódio, os três países conquistaram suas primeiras medalhas olímpicas já com o ouro, um feito bastante simbólico.
Além disso, outros seis países que já possuíam medalhas olímpicas chegaram ao lugar mais alto do pódio pela primeira vez: Bahrein, Costa do Marfim, Porto Rico, Singapura, Tadjiquistão e Vietnã.
Agora você poderá relembrar um pouco mais sobre a história das medalhas olímpicas inéditas de Fiji, Jordânia e Kosovo.
Fiji: os favoritos em um esporte que voltava aos Jogos Olímpicos
Quando o rúgbi (no formato Sevens, em vez do Union) foi readmitido no programa olímpico, durante a 121ª Sessão do COI, realizada em outubro de 2009 (a mesma que definiu o Rio de Janeiro como sede dos Jogos de 2016), poucos imaginavam Fiji como uma possível nova nação medalhista olímpica.
No entanto, já naquela época, o arquipélago com mais de 300 ilhas, localizado no Pacífico Sul, acumulava bons resultados na modalidade. Fiji esteve entre os quatro primeiros colocados da World Rugby Sevens Series de forma consecutiva entre 1999 e 2020.
Diante desse retrospecto, era impossível não considerá-los um dos favoritos ao título olímpico. No recorte entre 2009 e 2016, foram dois títulos seguidos (2014-15 e 2015-16) na World Rugby Sevens Series, além de um vice-campeonato (2011-12) e dois terceiros lugares (2012-13 e 2013-14). A classificação olímpica, inclusive, veio na temporada 2014-15 da série mundial.
Fiji cai no grupo do Brasil, avança as fases com tranquilidade e conquista seu primeiro título olímpico

A seleção de rúgbi sevens de Fiji caiu no grupo A na Rio 2016, ao lado de Brasil, Argentina e Estados Unidos. Nenhum dos adversários foi capaz de parar os fijianos, que venceram por 40 a 12 (contra o Brasil), 21 a 14 (contra a Argentina) e 24 a 19 (contra os Estados Unidos).
Na fase eliminatória, os fijianos enfrentaram a Nova Zelândia nas quartas de final, em um clássico “continental” que se mostrou o jogo mais duro da campanha. Vitória por 12 a 7, que manteve a equipe na luta pela inédita medalha olímpica.
Na semifinal, o confronto foi contra o Japão, segundo colocado do grupo C na primeira fase. Com vitória por 20 a 5, Fiji garantiu seu primeiro pódio em Jogos Olímpicos, um feito extraordinário para uma nação com pouco mais de 900 mil habitantes.
Mas o sonho não parava ali. Restava a final, valendo o ouro olímpico. Diante da Grã-Bretanha, os fijianos fizeram sua melhor atuação na Rio 2016 e venceram por 43 a 7, a maior vantagem registrada naquela edição dos Jogos, assegurando o lugar mais alto do pódio.
Destaque para Josua Tuisova, que marcou cinco trys ao longo do torneio olímpico, incluindo um na decisão pela medalha de ouro.
Após a Rio 2016, Fiji voltou ao pódio olímpico, sempre no rúgbi sevens. Além de defender o título em Tóquio 2020, o país conquistou a medalha de bronze no torneio feminino naquela mesma edição. Em Paris 2024, a equipe masculina voltou ao pódio, desta vez com a medalha de prata.
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Antes do ouro da Jordânia, dois bronzes “não oficiais” que abriram portas
Já pensou se um atleta competisse em um evento apenas para demonstrar sua modalidade, ganhasse a disputa, mas não levasse a medalha oficial pra casa? Foi isso que aconteceu com a Jordânia, em Seul 1988.
Samer Kamal e Ihsan Abu-Sheikha conquistaram medalhas de bronze no taekwondo, nas disputas do peso-pena (58 kg a 64 kg) e do peso-mosca (50 kg a 54 kg), respectivamente.
Só que, naquela edição dos Jogos Olímpicos, o taekwondo fazia parte do programa como esporte de demonstração. Embora houvesse entrega de medalhas, elas eram menores do que as “originais” e não entravam na contagem oficial do quadro de medalhas. Ainda assim, aquele foi um primeiro passo importante para o que aconteceria quase 30 anos depois.
Veja abaixo o vídeo que mostra a decisão pela medalha de ouro na categoria peso-mosca, o GC com os nomes dos atletas que foram ao pódio (entre eles, Abu-Sheikha) e parte da cerimônia de premiação.
A medalha de ouro oficial da Jordânia abriu portas, janelas e tatames
Ahmad Abughaush começou a treinar taekwondo na infância, em Amã, capital do país. Em 2012, aos 16 anos, disputou o Campeonato Mundial júnior da modalidade e foi o único árabe a ganhar uma medalha de ouro. Naquele mesmo ano, foi eleito o melhor atleta da Jordânia, prêmio dado pelo Comitê Olímpico Jordaniano.

O caminho parecia sorrir para Abughaush. Só que uma ruptura no ligamento cruzado anterior (LCA), em 2013, o tirou de cena por alguns meses naquele ciclo olímpico que estava iniciando. Ainda assim, o atleta conseguiu se recuperar e ganhou algumas medalhas ao longo dos anos seguintes. Mas a que mais interessava ainda estava por vir.
Classificado para a Rio 2016, Abughaush era o cabeça de chave número 10 do torneio olímpico na categoria 68 kg. Precisava de quatro lutas para chegar ao pódio e teve uma estreia tranquila contra o egípcio Ghofran Zaki, 7º melhor classificado. Placar de 9 a 1.
Mas dali para frente, o jordaniano não encontrou molezas. Nas quartas de final venceu o então bicampeão mundial (63 kg) e medalhista de prata em Londres 2012 (58 kg), Lee Dae-hoon, da Coreia do Sul. Duelo apertado com triunfo de Abughaush por 11 a 8.
Em seguida, outra pedreira: o espanhol Joel González, campeão olímpico em Londres (58 kg) e bicampeão mundial (58 kg). Mais um grande duelo e vitória do jordaniano por 12 a 7. Naquela altura, a primeira medalha olímpica da Jordânia já estava garantida. Restava transformar a prata em ouro.
E foi isso que Abughaush foi buscar. Entrou no tatame contra o russo Aleksey Denisenko, medalhista de bronze em Londres 2012 (58 kg) e atual vice-campeão mundial na categoria 68 kg. Não se intimidou diante dos feitos do adversário. Dominou a luta do início ao fim e venceu por 10 a 6. A primeira medalha olímpica da história da Jordânia foi de ouro.
Eu não sei se você percebeu, mas, para dar a primeira medalha olímpica da Jordânia, Abughaush precisou bater praticamente o pódio completo da categoria 58 kg de Londres 2012. A exceção foi o colombiano Óscar Muñoz, que ganhou um dos bronzes naquela edição e permaneceu na mesma categoria. Todos os outros subiram de peso e foram derrotados pelo jordaniano.
Abughaush teve um pós-Rio 2016 com muitas lesões. Ainda assim, foi medalhista de bronze no mundial de 2017, na categoria 68 kg, e vice-campeão do mundo em 2019, na categoria 74 kg.
Já a Jordânia, voltou ao pódio olímpico mais três vezes, todas elas no tatame. Foram duas pratas no taekwondo, uma em Tóquio 2020 e outra em Paris 2024, e um bronze no caraté, em Tóquio 2020.
Prisão, aposentadoria e retorno ao taekwondo
Quatro anos depois da conquista da medalha olímpica, Abughaush viveu alguns dos piores momentos da vida. Foi detido em julho de 2020, pela Diretoria de Segurança Pública da Jordânia, por uma suporta fraude de documentos. Em novembro daquele mesmo ano, foi condenado a seis meses de prisão, mas, sete dias depois, foi liberado da pena.
Poucas semanas depois, Abughaush precisou lidar com o falecimento de seu pai, Imran Issa, que teve graves problemas de saúde.
Mesmo com tantos momentos adversos, Abughaush se reergueu e retornou ao esporte. Não obteve nenhuma conquista a nível mundial, mas foi medalhista de ouro nos Jogos Sauditas de 2023. Hoje, segue no taekwondo, compartilhando sua técnica e suas experiências pelo mundo.
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O ouro de um país que algumas nações insistem em não reconhecer
A luta de Majlinda Kelmendi nem sempre foi nos tatames. Em Londres 2012, a judoca tentou o que pode para disputar os Jogos Olímpicos por Kosovo, que na época não era reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
Contrariada, ainda tentou competir como atleta independente, mas teve seu pedido negado. Kelmendi foi à Inglaterra sob as cores da Albânia, uma vez que grande parte dos kosovares têm etnia albanesa. Até chegou a ganhar uma luta, mas perdeu na segunda rodada da categoria 52 kg, para Christianne Legentil.

Mas a história de Kelmendi estava longe de terminar. Quatro anos depois da frustração em Londres, ela teria a oportunidade de disputar os Jogos novamente. Só que, dessa vez, com a bandeira que tanto queria defender.
Em dezembro de 2014, o COI reconheceu oficialmente o Comitê Olímpico de Kosovo, abrindo caminho para a estreia do país nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016. Mas o Brasil, país-sede do megaevento, assim como outros países, não reconhecia e segue não reconhecendo a independência do país de Kelmendi, o que naquele momento era um mero detalhe.
A realização de um sonho e a busca pelo ouro
Kelmendi chegou ao Brasil como uma das favoritas ao título. Em 2013, havia conquistado o campeonato mundial justamente no Rio de Janeiro e, no ano seguinte, confirmou o domínio na categoria até 52 kg ao conquistar o bicampeonato mundial.
O simbolismo começou antes mesmo de ela pisar no tatame. Na cerimônia de abertura, Kelmendi foi escolhida como porta-bandeira da delegação kosovar, formada por oito atletas. Era a primeira vez que o país participava oficialmente dos Jogos Olímpicos.

Como cabeça de chave, Kelmendi entrou diretamente na segunda rodada e iniciou sua campanha com vitória contra a suíça Evelyne Tschopp, após belíssimo ippon.
Nas quartas de final, Kelmendi reencontrou a mauriciana Christianne Legentil, responsável por eliminá-la em Londres 2012. Em uma luta equilibrada, a kosovar levou a melhor, recebendo apenas uma punição, contra três da adversária.
O duelo da semifinal foi contra a japonesa Misato Nakamura, outra luta muito difícil que também foi definida na base da punição. Sem shidos, Kelmendi venceu e garantiu a primeira medalha olímpica de Kosovo, logo na primeira participação do país nos Jogos.
Na decisão, Kelmendi enfrentou a italiana Odette Giuffrida. Faltando cerca de 3 minutos e meio para o final da luta, a judoca kosovar encaixou um golpe, que, a princípio, tinha sido marcado como waza-ari, mas depois foi corrigido para yuko. Depois disso, foi só controlar a pressão para ganhar a medalha de ouro.
Lenda do esporte de Kosovo, Kelmendi ainda foi medalhista de bronze no mundial de 2019 e ganhou quatro títulos europeus. Além disso, disputou os Jogos Olímpicos de Tóquio, sendo novamente porta-bandeira do país na cerimônia de abertura. No entanto, não conseguiu repetir o resultado obtido na Rio 2016. Foi eliminada ainda na estreia, contra a húngara Réka Pupp.
A medalha conquistada por Kelmendi abriu uma sequência impressionante para o judô kosovar. O país ganhou outras quatro medalhas olímpicas na modalidade, duas de ouro (Tóquio 2020), uma de prata e uma de bronze (Paris 2024).
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