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Acessibilidade Welder Knaf Tênis de Mesa

Paralimpíada Todo Dia

Acessibilidade e o papel do esporte na conquista de melhorias

O Olimpíada Todo Dia escutou oito personagens do esporte paralímpico brasileiro sobre o tema. Saiba o que pensam Beth Gomes, Daniel Dias, Welder Knaf, Edênia Garcia, Susana Schnarndorf, Lúcia Teixeira, Daniel Rodrigues e Vinícius Rodrigues

Welder Knaf é atleta paralímpicos do tênis de mesa e atua em uma classe para cadeirantes (Ricardo Knaf/Divulgação)

Acessibilidade e o papel do esporte na conquista de melhorias

O que é acessibilidade? Essa foi uma das questões que o Olimpíada Todo Dia fez para oito atletas paralímpicos brasileiros sobre o tema. Nesta segunda-feira (21) é o Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência, data que tem o intuito de reivindicar igualdade de condições. Estamos também na véspera do Dia do Atleta Paralímpico, celebrado no dia 22 deste mês. Além das duas datas, foi instituída a campanha Setembro Verde, ação que visa estimular que a sociedade reflita sobre a inclusão social.  

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Após abordarmos o assunto pelo prisma da visibilidade e mostrarmos o legado paralímpico, apresentando o CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), chegou a vez de destacarmos a acessibilidade, tópico de extrema relevância para as pessoas com deficiência. A palavra acessibilidade pode ser definida como a qualidade do que é acessível, portanto, aquilo que é alcançável e viabiliza ao indivíduo o acesso a um conjunto de ações de inclusão social.

A acessibilidade é um dos pontos mais importantes e fundamentais quando o assunto diz respeito às pessoas com deficiência. Por outro lado, talvez seja um dos aspectos mais negligenciados no Brasil. A acessibilidade assegura a segurança e integridade física dos indivíduos com deficiência física ou de mobilidade reduzida, possibilitando, desta forma, o direito de ir e vir e aproveitar dos mesmos ambientes que os cidadãos sem necessidade especial.

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Salvaguardar a acessibilidade aos indivíduos com deficiência é uma obrigação da sociedade, porém, mesmo sendo garantida por lei, ainda existem obstáculos para que seja efetuada em sua integralidade. E É esse respeito que está em falta em espaços públicos, edificações, transportes, sistemas de comunicação e locais privados.

Acessibilidade na visão dos atletas

Acessibilidade Daniel Rodrigues Tênis em cadeira de rodas
Daniel Rodrigues é atleta paralímpico do tênis em cadeira de rodas (Instagram/daniel.rodrigues.alves/)

O que pensam os atletas brasileiros? Os personagens que ganharão espaço neste tema relevante são Beth Gomes, de 55 anos, do atletismo em cadeira de rodas; Daniel Dias, 32, atleta da natação; Welder Knaf, 39, do tênis de mesa em cadeira de rodas; Edênia Garcia, 33, cadeirante da natação; Susana Schnarndorf, 52, da natação; Lúcia Teixeira, 39, do judô; Daniel Rodrigues, 33, do tênis em cadeira de rodas; e Vinícius Rodrigues, 25, do atletismo em categoria para amputados de perna acima do joelho.

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“Acessibilidade é a integridade física de pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida, assegurando assim o direito de ir e vir e ainda de usufruir dos mesmos ambientes que uma pessoa sem deficiência, seja em locais públicos ou privados, englobando restaurantes, estádios, igrejas e clubes”, disse Beth Gomes, recordista mundial do lançamento do disco na classe F52, para atletas que competem em cadeira de rodas.

“Acessibilidade é estar ao alcance de todos. É liberdade de ir e vir. É igualdade”, resumiu Daniel Dias, dono de 24 medalhas em Jogos Paralímpicos na natação, sendo 14 de ouro, sete de prata e três de bronze. “São as condições que você tem que facilita a tua locomoção de modo geral”, sintetizou Welder Knaf, mesatenista prata por equipes em Pequim-2008 e da classe M3, categoria destinada a competidores em cadeira de rodas.

Igualdade de condições

Acessibilidade Edênia Garcia Natação
Edênia Garcia é tetracampeã mundial de natação (Daniel Zappe/Exemplus/CPB)

“É a possibilidade de todas as pessoas terem o alcance de utilizar qualquer tipo de ambiente, meio de comunicação e estrutura física. Acessibilidade é tudo aquilo que engloba o acolhimento de todos os tipos de pessoas. É o que dá o direito a pessoa de usufruir de tudo, quando ela é apta e tem a liberdade de transitar, de ser e de ser ouvida também”, afirmou Edênia Garcia, tetracampeã mundial e dona de três medalhas paralímpicas na natação

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“Acessibilidade é quando todo mundo consegue entrar e sair dos lugares e aqui no Brasil é bem difícil. Eu não sou cadeirante, mas tenho dificuldade de locomoção. Aqui no CT Paralímpico temos um paraíso, pois é totalmente adaptado, mas na cidade em si está faltando muita coisa. É algo absurdo ainda ter poste no meio da calçada”, comentou Susana Schnarndorf, prata na Paralimpíada Rio-2016 e dona de quatro medalhas em mundiais.

“Acessibilidade é poder ir e vir sem dificuldade e ter acesso a todos os recursos. É quando tenho iguais condições que os demais de forma gratuita ou a um baixo custo”, apontou Lúcia Teixeira, judoca da categoria até 57 kg e prata nas Paralimpíadas de Londres-2012 e Rio-2016. “Acessibilidade é a possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação”, acrescentou Daniel Rodrigues, atleta do tênis em cadeira de rodas.

Acessibilidade financeira

“A acessibilidade começa na oportunidade da pessoa ter um guia, uma cadeira ou uma prótese para ela mostrar se tem talento ou não. Hoje, no Brasil, ainda é inacessível as próteses e as cadeiras por causa do valor. Imagino que a estratégia melhor seria a iniciativa pública e privada, por meio de empresas, investirem em pessoas jovens na base, principalmente no paradesporto, para que isso reflita não só na parte esportiva, mas na social também”, disse.

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“A pessoa, querendo para sua própria qualidade de vida ou para o esporte de alto rendimento, voltará a trabalhar e será um individuo produtivo para a sociedade”, concluiu Vinícius Rodrigues, atleta do atletismo que, em 2019, fez o tempo de 11s95 e quebrou o recorde mundial da prova dos 100 m rasos da classe T63.

Esporte: acessibilidade no Brasil

Beth Gomes Acessibilidade
Beth Gomes é recordista mundial do lançamento do disco (Daniel Zappe/Exemplus/CPB)

Os atletas paralímpicos brasileiros também foram indagados a respeito da estrutura que encontram nas competições no país. Na avaliação dos mesmos, a acessibilidade tem melhorado no esporte e, no CT Paralímpico, em São Paulo, o espaço é de alto nível. Entretanto, os competidores se queixaram de complicações quando precisam disputar eventos menores em outros estados.  

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“No passado, já cheguei a disputar campeonatos nos quais ginásios, pistas e clubes não tinham acessibilidade e a estrutura era muito precária para as pessoas com deficiências. Ainda temos alguns espaços sem acessibilidades, mas hoje podemos falar da excelência do CT Paralímpico que temos em São Paulo. Uma estrutura e acessibilidade que oferece plenas condições a todos os atletas com deficiência desde competição, hospedagem e alimentação”, disse Beth Gomes.

A excelência do CT Paralímpico

Daniel Dias tem 24 medalhas em Jogos Paralímpicos (Daniel Zappe/Exemplus/CPB)

“Acredito que tenha melhorado. As minhas últimas competições nacionais foram no CT Paralímpico, que é ímpar em acessibilidade. Uma verdadeira referência para a realização de eventos”, afirmou Daniel Dias. “Da parte que posso falar, que é a natação, as competições são todas no CT Paralímpico, que tem uma piscina maravilhosa, a mesma usada na Paralimpíada do Rio. Temos uma estrutura super boa”, completou Susana Schnarndorf.

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“A estrutura no Brasil, pelo menos nas grandes competições, atende as normas de acessibilidade como qualquer outro evento de nível mundial. O CT Paralímpico, em São Paulo, recebe todos os grandes campeonatos brasileiros e também algumas competições internacionais. Então, é tudo 100% acessível para todo tipo de pessoa com deficiência e mobilidade reduzida. Nesse sentido é tudo perfeito”, contou.

Falta de estrutura em outros locais

Vinícius Rodrigues é recordista mundial na prova dos 100 m rasos da classe T63 (Daniel Zappe/CPB/MPIX)

“Porém, não temos a mesma estrutura em outros estados. Já participei de competições e nem sempre tinha banheiro acessível e adaptado para pessoas que usam cadeira de rodas. A gente tinha que se trocar do lado de fora e não tinha como entrar ou sair sozinha do banheiro porque tinha degrau. Na maioria dos estados ainda não existe essa acessibilidade que a gente encontra no CT Paralímpico”, complementou Edênia Garcia.  

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“Isso vem melhorando. Antes os banheiros não eram acessíveis. Os acessos eram dificultados. Já estive em alguns campeonatos em que a cidade não oferecia estrutura hoteleira com o mínimo de adaptações voltadas para a acessibilidade de cadeirantes, o que gera enormes dificuldades. Isso já melhorou bastante, mas acredito que pode melhorar ainda mais”, destacou Welder Knaf.

“No esporte a estrutura de competições é boa. O CPB tem feito um trabalho muito bom nessa questão. Acho que essa acessibilidade precisa chegar a campeonatos no interior e em lugares que ninguém chega. Nosso país tem muito talento para ser garimpado e essa acessibilidade tem que alcançar essas pessoas e só o esporte tem esse poder. Se conseguirmos chegar nelas, com certeza teremos bons frutos no futuro”, ressaltou Vinícius Rodrigues.  

O exterior em comparação com o Brasil

Alguns países do exterior ainda estão em vantagem em relação aos Brasil. De acordo com os atletas, essa superioridade se dá porque nesses lugares a acessibilidade é pensada muito além do esporte. “Acredito que seja melhor por ser mais completa. No sentido de englobar o transporte e a hospedagem também como acessibilidade e não apenas na área do evento. O conceito é mais amplo e está em todas as áreas funcionais. No Brasil parece ser mais restrito. Tem em um lugar, mas não tem no outro”, declarou Daniel Dias.

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“Acredito que no exterior é melhor. Já foi bem melhor, mas agora a gente está evoluindo nisso também. Talvez lá fora o pessoal começou com essa preocupação um pouco antes. Então, as condições são melhores. Não me lembro de um campeonato que teve um problema muito grande com relação a acessibilidade, pois é algo bem pensado há um bom tempo. Mas a gente chega lá também”, opinou Welder Knaf.

Nem sempre é melhor

Susana Schnarndorf.
Susana Schnarndorf e medalhista paralímpica na natação (Daniel Zappe/CPB/MPIX)

“Vejo que no exterior tem estruturas prontas já com a acessibilidade, pois os organizadores precisam fazer poucas adaptações quando necessário”, disse Daniel Rodrigues. “Depende do lugar. A gente viaja muito para competir e, geralmente, os lugares das competições e os hotéis que a gente fica tem acessibilidade. Geralmente as cidades do exterior são mais estruturadas que o Brasil”, comentou Susana Schnarndorf.

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Por outro lado, tem locais no exterior que também deixam a desejar. “Posso falar que também encontrei, fora do nosso país, locais sem acessibilidade e que, às vezes, nos impedem de usufruir do direito de ir e vir. Digo que hoje já temos em ambos condições de igualdade”, relatou Beth Gomes. “As condições variam em cada país, porém aqui no Brasil estamos sendo bem atendidas com o que há de melhor no CT Paralímpico”, completou Lúcia Teixeira.

O esporte pode ajudar a melhorar a acessibilidade?

Atletismo paralímpico em cadeira de rodas e a força do esporte (Daniel Zappe/MPIX/CPB)

O esporte pode ser uma ferramenta importante para melhorar a acessibilidade para as pessoas com deficiência no âmbito social. No Brasil, ainda é preciso eliminar barreiras nas residências, nos edifícios e nos espaços e equipamentos urbanos. Em diversos locais ainda não são encontradas soluções arquitetônicas como a presença de rampas, banheiros e elevadores adaptados, piso tátil, entre outras.

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“O esporte, como sempre digo, transforma vidas e, com isso, contribui para a formação da pessoa e para que tenham êxito no âmbito social, esportivo e profissional. E, para isso, a acessibilidade é primordial nestas condições de ir e vir”, afirmou Beth Gomes. “Creio que o esporte pode ajudar a dar mais visibilidade ao tema e aprimorar mais áreas”, destacou Daniel Dias.

“O esporte é uma das melhores ferramentas de inclusão da pessoa com deficiência. Estive em uma competição no Espírito Santo e não tinha banheiro adaptado. Essa semana eu recebi fotos e eles estão melhorando a estrutura da piscina e agora terá banheiro acessível para cadeira de rodas. O esporte pode ajudar porque é como se fosse uma janela para o mundo para as pessoas entenderem como é a pessoa com deficiência dentro do esporte”, disse Edênia Garcia.

O poder do esporte

Tênis de mesa paralímpico
O esporte pode ajudar na acessibilidade em âmbito social (Rodolfo Vilela/rededoesporte.gov.br)

“O esporte sempre contribuiu de várias formas no âmbito social. E na acessibilidade não seria diferente. Quando, por exemplo, um ginásio tem uma competição paralímpica fica clara a necessidade da acessibilidade. Seja para a pessoa com deficiência ou com dificuldade de locomoção de modo geral, neste caso, até uma pessoa mais idosa. Isso está totalmente ligado com inclusão social e a melhora da convivência na sociedade”, afirmou Welder Knaf.

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“O esporte muda vidas e perspectivas. Além disso, ele contribui com a nossa saúde e creio que o paradesporto está crescendo bastante e isso traz uma nova forma de conviver, melhorando a interação das pessoas”, declarou Lúcia Teixeira. “O esporte paralímpico tem ganhado espaço e com isso deveria trazer junto uma melhora de estrutura, acessibilidade, hospedagem e transporte”, falou Daniel Rodrigues.

“O esporte contribuiu muito para mim. Se não fosse o esporte não saberia o que seria da minha vida. O esporte me deu autoestima e pude me reencontrar. Se todas as pessoas com deficiência tivessem essa oportunidade que tive, de mostrar o meu talento e tendo apoio, o nosso país seria melhor. Tem pessoas que ainda estão presas em casa e o esporte tem o poder de resolver isso”, disse Vinícius Rodrigues.

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“As Paralímpiadas têm causado isso e as pessoas com deficiência estão tomando coragem. Quando esse indivíduo souber que o atleta paralímpico tem um trabalho e consegue se sustentar, com certeza, ele vai querer se empenhar e desenvolver esse lado do esporte”, concluiu o atleta do atletismo.  

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