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Medo de errar no treino: por que ele muda a execução?

Pessoa aprende exercício de musculação com carga leve e orientação de profissional na academia.

Aprender um exercício novo pode deixar o corpo mais duro do que o peso usado. A pessoa prende a respiração, aperta as mãos, eleva os ombros e tenta controlar várias partes do movimento ao mesmo tempo. Em vez de a repetição ficar mais segura, ela se torna travada.

Isso pode acontecer no primeiro agachamento com barra, ao subir em uma aula de dança, ao tentar uma braçada diferente na piscina ou ao aprender um fundamento esportivo. O receio de errar, cair, parecer descoordenado ou ser observado aumenta a atenção sobre cada detalhe.

Ter cuidado é importante. No entanto, tentar produzir uma execução perfeita logo na primeira tentativa pode dificultar justamente o processo de aprender. Movimentos novos precisam de repetição, ajuste e espaço para pequenas falhas.

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Por que o corpo fica rígido?

Quando uma situação parece ameaçadora ou imprevisível, o corpo pode aumentar a tensão para buscar estabilidade. Isso não ocorre apenas em exercícios. Em um experimento com adultos expostos virtualmente a grandes alturas, a percepção de medo e ameaça alterou a frequência cardíaca e o controle postural dos participantes. Embora o contexto seja diferente de uma academia, o estudo ajuda a mostrar que a sensação de insegurança pode modificar a maneira como o corpo se organiza.

No treino, essa resposta pode aparecer de forma mais discreta. A pessoa segura o halter com força demais, trava os joelhos, contrai o pescoço ou reduz tanto a amplitude que quase não executa o movimento.

A rigidez não significa falta de capacidade. Muitas vezes, é apenas uma tentativa de controlar uma tarefa que ainda parece desconhecida.

Muitas instruções também atrapalham

“Empurre o chão, contraia o abdômen, alinhe o joelho, encaixe o quadril, olhe para frente, respire e não deixe o pé girar.” Todas essas orientações podem ser úteis, mas receber tudo ao mesmo tempo sobrecarrega quem ainda está tentando entender o movimento básico.

Uma pessoa experiente executa várias partes de um exercício de maneira mais automática. Já o iniciante precisa pensar em cada etapa. Quanto mais comandos entram de uma vez, mais difícil fica distinguir o que é realmente importante naquela repetição.

Por isso, pode funcionar melhor escolher uma ou duas referências. No agachamento, por exemplo: manter os pés apoiados e sentar o quadril com controle. Depois que essa parte melhora, outra orientação pode entrar.

Errar faz parte da aprendizagem

O corpo aprende comparando intenção e resultado. A pessoa tenta, percebe o que aconteceu e ajusta a tentativa seguinte. Estudos de aprendizagem motora mostram que a prática torna movimentos progressivamente mais rápidos, precisos e suaves, inclusive em tarefas que não foram treinadas exatamente da mesma forma.

Isso não significa que qualquer erro seja aceitável. Dor, perda completa de equilíbrio ou uso de uma carga que não pode ser controlada pedem interrupção e ajuste. Mas uma repetição levemente diferente da anterior não representa fracasso.

Oscilar, esquecer uma orientação ou precisar reduzir a amplitude são partes comuns do aprendizado. O problema é interpretar toda variação como prova de incapacidade.

Reduza a dificuldade antes de repetir

Quando o medo trava a execução, insistir na mesma tarefa pode reforçar a tensão. Uma alternativa é diminuir temporariamente a dificuldade.

Isso pode significar retirar peso da barra, praticar apenas com o corpo, reduzir a amplitude, usar um apoio ou escolher uma versão mais estável do exercício. Quem teme perder o equilíbrio em um avanço pode começar segurando em uma parede. Quem não controla o agachamento com barra pode praticar sentando em um banco.

A regressão não é um exercício inferior. Ela permite repetir o padrão com mais segurança e atenção.

Depois, a dificuldade volta gradualmente. Primeiro vem o controle; depois, carga, velocidade ou complexidade.

Feedback ajuda quando é específico

Ouvir apenas “está errado” não ensina o que mudar. Um retorno mais útil aponta uma ação concreta: “reduza a velocidade”, “mantenha o pé inteiro no chão” ou “use menos carga nesta série”.

O feedback visual também pode ajudar em alguns exercícios. Em um estudo sobre aprendizagem do agachamento, participantes que receberam retorno visual melhoraram determinadas medidas de execução, embora os resultados não tenham sido iguais em todos os indicadores.

Espelho e vídeo, porém, não precisam virar vigilância constante. Observar cada centímetro do corpo durante todas as repetições pode aumentar a autocobrança. Faz mais sentido executar um pequeno bloco, conferir um ponto e tentar novamente.

Ser observado pode aumentar a pressão

Algumas pessoas treinam com tranquilidade sozinhas, mas travam quando o professor se aproxima ou quando a academia está cheia. A atenção deixa de ficar na tarefa e passa para perguntas como: “Estão olhando?”, “Vou passar vergonha?” ou “Por que ainda não consigo?”.

Nesses casos, vale começar em um canto mais tranquilo, usar uma carga leve e pedir que o profissional explique o exercício antes da série. Treinar ao lado de alguém conhecido também pode tornar o ambiente menos ameaçador.

O professor não precisa corrigir todas as repetições. Pode demonstrar, deixar a pessoa tentar e fazer um ajuste de cada vez.

Cuidado não é a mesma coisa que medo

Respeitar uma carga, usar trava de segurança e pedir ajuda em um exercício novo são atitudes responsáveis. A meta não é eliminar todo receio e fazer movimentos para os quais a pessoa ainda não está preparada.

A diferença aparece quando a preocupação impede qualquer tentativa ou torna até uma versão simples muito tensa. Nesse caso, diminuir a tarefa pode ajudar a reconstruir confiança.

Se o medo está relacionado a dor, lesão anterior, quedas frequentes, tontura ou sensação persistente de insegurança, a prática deve ser orientada por um profissional.

Aprender a se movimentar não é passar em uma prova. O exercício melhora quando existe repetição suficiente para o corpo experimentar, corrigir e tentar novamente. Errar uma parte da série não encerra o aprendizado. Muitas vezes, é justamente o que mostra qual será o próximo ajuste.

Consultora de wellness do Olimpíada Todo Dia. Profissinal de educação física, fundadora do Yoga Para Atletas, co-fundadora do Rachão Basquete Feminino, criadora de conteúdo do A Quadra É Delas e personal training

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