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Tóquio 2020

De filho-problema da família de músicos à mente por trás das medalhas do boxe

Depois escapar da morte por causa de uma overdose de cocaína, Mateus Alves mudou de vida, se dedicou ao boxe e atingiu o auge com três pódios em Tóquio

Mateus Alves técnico da seleção brasileira de boxe
Arquivo pessoal

O boxe foi a modalidade mais vencedora do Brasil na Olimpíada de Tóquio-2020. O ouro de Hebert Conceição, a prata de Beatriz Ferreira e o bronze de Abner Teixeira tiveram por trás a mente do técnico Mateus Alves, responsável por organizar toda a rotina de treinos e campeonatos ao longo de todo o ciclo. A curiosidade é que ele vem de uma família de músicos, que nada tinha a ver com o esporte. Ele era, aliás, o filho-problema, que arrrumava briga na rua, se envolvia com drogas e chegou a ter uma overdose por cocaína, mas mudou de vida graças ao esporte para se tornar o orgulho dos pais ao levar três pugilistas brasileiros ao pódio olímpico.

“Minha família não tem ninguém ligado ao esporte. Eu, na verdade, fui um cara meio problemático. Fui um cara muito rebelde na adolescência, brigava muito na rua. Eu gostava de brigar e acabei indo fazer luta para descarregar a energia. Com 24 anos, eu tive uma overdose e não morri por um detalhe. Tive esse problema e após isso tudo tive uma mudança drástica quando comecei a trabalhar com criança carente num projeto de boxe. Atender essas crianças carentes me despertou muita coisa boa e mudei minha vida. É uma superação também! As coisas são assim…. Nada é por acaso”, conta Mateus Alves, que foi na juventude quase que um rebelde sem causa.

Mateus Alves ao lado do medalhista Hebert Conceição e do assistente Amonio Silva (Miriam Jeske/COB)

Nascido em Porto Alegre há quase 40 anos (faz aniversário em 1.º de outubro), Mateus Alves é filho de Flávia Domingues Alves, professora universitária de música clássica. “Foi a primeira mulher bacharel em violão clássico da história do Brasil”, conta orgulhoso. “Meu pai é engenheiro mecânico e músico nas horas vagas, enquanto meu irmão mais velho é violinista e o mais novo é regente de orquestra e coral”.

MÚSICA, NOITE E BRIGAS

Mas se engana quem pensa que Mateus Alves nada tem a ver com a música. “Eu toquei também durante a vida inteira. Eu sou saxofonista aposentado, mas da minha adolescência até meus 22 anos eu tocava em bares de jazz e de blues e fazia casamentos. Eu ganhava uma grana tocando na noite de Porto Alegre, enquanto fazia a faculdade de educação física”, relembra o hoje treinador de boxe.

mateus alves saxofone
Arquivo pessoal

A família não entendia o estilo de vida de Mateus Alves, que só queria saber de noite, festa e era fã de uma boa briga. Por conta disso, desde muito jovem procurou aprender a lutar. “Comecei a lutar taekwondo com 14 anos, não deu muito certo e fui para o muay thai com 15 anos e só fui conhecer o boxe com 18 anos, quando eu entrei na universidade”.

O boxe se transformou na grande paixão da vida de Mateus Alves, que chegou a ser atleta por um curto período. “Comecei a treinar boxe na cidade de Porto Alegre, fiz algumas lutas, uns campeonatos estaduais, fui campeão gaúcho, mas nunca cheguei a lutar em um Campeonato Brasileiro. Sempre tive o enfoque de ser treinador. A partir dos 21 anos eu comecei a dar aula de boxe em uma academia em Porto Alegre e desde essa idade eu estou envolvido em dar aula e eu vivo só do boxe”, conta.

A VIRADA NA VIDA E O CONVITE DA CBBoxe

Foto de 2011, quando Mateus Alves entrou na seleção, ao lado de Everton Lopes e Robson Conceição (Reprodução/Instagram)

A partir dos 24 anos, após sobreviver à overdose, Mateus Alves passou a levar a carreira ainda mais a sério e antes que ele completasse 30 veio o convite para fazer parte da seleção brasileira de boxe. “Em 2010, juntamente com a Federação Gaúcha, fiz um curso nacional de treinadores, onde o presidente da CBBoxe (Mauro Silva) e o Otilio (Toledo, diretor técnico) me conheceram pessoalmente e começaram a acompanhar meu trabalho mais de perto”.

O primeiro convite da CBBoxe, no entanto, não veio no momento mais apropriado, mas foi prontamente atendido por Mateus Alves. “Eu estava na minha lua de mel e me ligaram da CBBoxe dizendo que tinha uma competição que eles queriam que eu fosse junto com a equipe. Eu deixei a minha esposa faltando quatro dias para o fim da lua de mel e fui para esta viagem. Foi no início de fevereiro de 2011 e foi a primeira vez que eu viajei pela equipe olímpica. Chegando da viagem, eles me fizeram a proposta de ficar na equipe em definittivo e aí eu larguei tudo o que eu tinha em Porto Alegre e fui para São Paulo”, relembra.

Na época, Mateus Alves assumiu a função de assistente técnico e, com a ajuda da CBBoxe, conseguiu desenvolver o currículo. “Iniciei meus cursos internacionais, fiz o curso da Aiba 3 estrelas, fiz o curso de treinador da Aiba Pro Boxing e da World Series Boxe, que eram duas entidades que tinham junto da Aiba (Associação Internacional de Boxe Amador). Também estudei em Cuba em 2014. Então, meu desenvolvimento foi todo feito em cima da CBBoxe. Sou muito grato à toda equipe da CBBoxe por ter acreditado em mim. Fui para a Olimpíada de Londres com 30 anos”, agradece.

ESTREIA OLÍMPICA EM LONDRES-2012

Mateus Alves comemora com Hebert Conceição após a conquista da medalha de ouro em Tóquio (Júlio César Guimarães/COB)

Como assistente, participou da quebra do jejum de 44 anos sem medalhas do boxe brasileiro. Do bronze de Servílio de Oliveira na Cidade do México-1968, o país voltou a subir no pódio na modalidade em Londres-2012 com a prata de Esquiva Falcão e os bronzes de Yamaguchi Falcão e Adriana Araújo. Na mesma função, acompanhou o ouro de Robson Conceição na Rio-2016, ciclo do qual teve participação tão ativa que, assim que os Jogos Olímpicos terminaram, foi convidado a se tornar o técnico principal da equipe permanente de boxe com a proposta de renovar a seleção brasileira.

“Fomos atrás de jovens talentos e, além desse trabalho para 2020, eu fui responsável pelo projeto para os Jogos Olímpicos da Juventude de 2018. Fizemos a captação, lapidação e preparação dos atletas e descobrimos a Rebeca (Santos), medalhista de Mundial juvenil, o Bolinha (Luiz Oliveira), que é o neto do Servílio, que foi medalhista de bronze no Mundial juvenil e dos Jogos Olímpicos da Juventude e o Keno (Marley), que foi campeão olímpico da juventude em 2018, único esporte olímpico do Brasil que pegou ouro naquele evento”, recorda orgulhoso.

CARREIRA NO AUGE

Para os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, a delegação brasileira chegou para a competição com sete atletas, dos quais três subiram no pódio e fizeram com que o boxe fizesse a melhor campanha entre todas as modalidades no Japão. Conquistas que tiveram o trabalho de Mateus Alves por trás, planejando as temporadas de treinamento e competições, além das orientações a beira do ringue.

BOXE VENCEDOR Mateus Alves, Leonardo Macedo, Mateus Alves Jogos olímpicos tóquio 2020
Mateus Alves ao lado de Leonardo Macedo entra na área de luta junto com Beatriz Ferreira (Miriam Jeske/COB)

“Eu escrevo artigos científicos, eu tenho cinco artigos publicados em parceria com o NAR-SP (Núcleo de Alto Rendimento de São Paulo) e tenho dois E-books. Sou um professor teórico junto com prático e um cara que preza muito pela ciência, pela tecnologia junto com algumas coisas da velha guarda. Sou fã do método soviético de treinamento, mas gosto muito da utilização da tecnologia, análise de vídeos, softwares e a gente utiliza muita coisa disso”, explica Mateus Alves. Durante os Jogos Olímpicos, por exemplo, foram mais de 20 horas de análise de vídeos.

Fã de carteirinha de Bernardinho, Mateus Alves sonha em transformar o boxe no Brasil e trazer mais conquistas para o país. “A minha luta é cada vez mais nós trazermos medalha para o Brasil. Acho que o Brasil necessita muito dessas medalhas e eu sou um amante do boxe. O boxe faz parte da minha vida”, diz o filho-problema da família de músicos, que transformou completamente a vida e a forma com a qual os pais o enxergam.

“Minha família nunca foi a favor, meus pais nunca gostaram do boxe, mas com o tempo foram aceitando e começaram a apoiar depois que eu comecei a trabalhar com muito afinco. Meus pais vivem em Porto Alegre e eles são muito orgulhosos hoje. Depois do início em que ninguém entendia o que estava acontecendo, do estilo de vida que eu levava na época, toda a loucura que me envolvia. Eu tocava na noite e andava muito nessa questão de noite e tal. Eles foram se acostumando com as aulas de boxe e hoje em dia eles têm muito orgulho. Minha mãe adora, meu pai também. Têm muito orguilho”, comemora o treinador, vitorioso não só no esporte, mas, especialmente, na vida.

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