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Rúgbi

 

A trajetória da única mãe entre as 32 brasileiras na Copa do Mundo de rúgbi



Entre lesões e maternidade, Larissa Henwood disputa sua primeira Copa do Mundo com a missão de inspirar outras mulheres no rúgbi



Larissa Henwood, a única mãe entre as 32 jogadoras do Brasil que disputam a Copa do Mundo de rúgbi XV
Larissa Henwood com a filha Skye no colo no dia do jogo de estreia do Brasil na Copa do Mundo de rúgbi XV (Matias Santana / Brasil Rugby)

Na beira do campo, antes de vestir a camisa da seleção brasileira na Copa do Mundo de rúgbi XV, que começou no último domingo (24), Larissa Henwood tem uma rotina pouco comum para uma atleta de alto rendimento. Entre alongamentos e aquecimento, ela também prepara a filha Skye, de 1 ano e 8 meses, que acompanha a mãe para onde quer que o rúgbi a leve.

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“Hoje eu não jogo só por mim, jogo por ela também. Quero que a Skye cresça sabendo que a mãe dela acreditou nos sonhos, mesmo quando parecia impossível”, conta Larissa Henwood , de 31 anos, convocada para a sua primeira Copa do Mundo, depois de mais de uma década de desafios.

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Do Brasil a Portugal, até o sonho na Nova Zelândia

Nascida em Minas Gerais, Larissa saiu do Brasil ainda criança, quando se mudou com a mãe para Portugal. Foi lá, em Coimbra, que ela descobriu o rúgbi aos 11 anos. “Os meninos diziam que não era esporte de menina, mas eu insisti. Minha mãe me levou para o clube e foi lá que tudo começou”, lembra. Por anos, Larissa Henwood treinou com a seleção Portuguesa, mas por não ser nativa, não podia jogar os principais torneios. No entanto, ela sabia que tinha potencial para jogar grandes torneios internacionais em alta performance.

Foi quando, aos 18 anos, tentou uma vaga na seleção brasileira que se preparava para os Jogos do Rio-2016. Jogando pelo Goianos, no Super Sevens, rompeu o ligamento cruzado anterior (LCA) em apenas poucos minutos de partida. “Era a minha chance de jogar uma Olimpíada. Mas o rúgbi é assim: a gente cai, levanta e segue. Na época doeu, mas entendi depois que tinha que ir pra fora antes de voltar ao Brasil.”

A volta a Portugal abriu um novo capítulo. Em Lisboa, conheceu o marido, jogador profissional, com quem se mudou para a Nova Zelândia em 2016. Lá, mergulhou no universo do rúgbi de elite. “Eu achava que entendia o jogo, mas chegando lá percebi o quanto estava em outro nível. Isso me deu raiva boa, vontade de provar que eu podia estar entre as melhores”, conta.

Lesões, fundo do poço e a virada com a maternidade

O segundo rompimento de LCA, em 2021, quase a afastou de vez do rúgbi. “Coloquei todos os ovos na mesma cesta. Quando perdi a chance de jogar a Copa do Mundo de Rugby League, entrei num fundo do poço. Nada parecia fazer sentido.”

Foi nesse processo que decidiu ser mãe. “Parei o anticoncepcional achando que ia demorar, mas engravidei de primeira. Não tive tempo de voltar a jogar antes. Emendei a lesão na gravidez. E aí percebi que precisava ter algo além do rúgbi na minha vida”, revela.

Skye nasceu em 2023, e logo nos primeiros meses a mãe voltou aos treinos na Nova Zelândia. “Na minha cabeça nunca passou a ideia de não voltar. Eu já sabia que ia jogar de novo.” A rede de apoio da comunidade local fez toda a diferença. “Às vezes uma colega aparecia na minha porta com jantar pronto, só para eu não precisar cozinhar. Isso me mostrou que ser mãe e atleta é possível.”

Desde então, a vida de Larissa Henwood virou uma ponte entre dois hemisférios. Enquanto ela joga na Nova Zelândia, seu marido atua no Japão, o que faz com que a família passe metade do ano em cada país. Entre treinos solitários no Japão e temporadas intensas na Nova Zelândia, a rotina exigiu ainda mais disciplina e resiliência.

Uma jogadora mais madura

Para Larissa Henwood, a maternidade mudou sua forma de jogar. “Antes o rúgbi era minha única prioridade. Hoje não é. E, paradoxalmente, isso me tornou uma jogadora melhor. Se a gente perde um jogo, não é o fim do mundo. Lido com a pressão de outra forma e tento passar isso para o time.”

Na Nova Zelândia, Larissa Henwood também encontrou inspiração dentro de casa. Sua cunhada, que atualmente disputa a Copa do Mundo pelas Black Ferns, como é chamada a seleção Neozelandesa, também é mãe e seguiu jogando em alto nível após a gravidez. “Foi muito confortante viver a maternidade em um país onde tantas jogadoras são mães e voltam a jogar. Ver minha cunhada, que é referência mundial, conseguir conciliar as duas coisas, me deu ainda mais certeza de que era possível”, conta.

Ela também faz questão de quebrar um tabu ainda forte no Brasil. “Eu me arrependo de não ter sido mãe antes. Existe essa cultura de que mulher só pode engravidar depois da carreira, mas não precisa ser assim. Voltar de uma lesão é muito mais difícil do que voltar da maternidade. O filho é um extra, uma força a mais.”

O Mundial e o futuro

Convocada para a Copa do Mundo de rúgbi XV na Inglaterra, Larissa Henwood celebra o momento como um alívio. “Foram muitos anos acreditando que eu tinha nível, mas sem conseguir chegar lá. Ver meu nome na lista foi um ‘finalmente’. Só de estar aqui já sinto que venci.”

O Brasil estreou contra a África do Sul, no domingo (24). O próximo jogo encara a França (31), seguido pelo jogo contra a Itália (7/9). “Sabemos da força desses times, mas entramos sem pressão, como azarões. E eu adoro ser underdog. Quando não esperam nada da gente é que a gente surpreende.”

Para o futuro, Lari já planeja aumentar a família e, ao mesmo tempo, seguir como inspiração dentro do rúgbi. “Quero que outras jogadoras não esperem encerrar a carreira para serem mães. Quero que saibam que é possível. E se a Skye me vê jogar e decide jogar também, já estarei adicionando mais uma atleta ao rúgbi feminino.”

Comunicadora esportiva, viaja seguindo esportes, apaixonada por rugby e futebol e tem como missão dar voz ao esporte feminino no Brasil e no Mundo.

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