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Tóquio 2020

O aumento e a importância de mulheres nos estafes das equipes

Quem são as profissionais por trás do sucesso dos e das atletas e os benefícios da presença feminina nos staffs de clubes e confederações

O aumento e a importância de mulheres nos estafes das equipes

Você já ouviu falar que por trás de uma grande mulher… há uma outra grande mulher? Pois é. No ano em que os Jogos Olímpicos terão quase a mesma quantidade de atletas masculinas e femininos e que a delegação brasileira deverá ser a mais igualitária da história do país, você já parou para pensar em quem são os profissionais por trás de tudo isso, ajudando os atletas a fazer acontecer? 

Ainda se fala pouco sobre os estafes das equipes e confederações. Médicos, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas que auxiliam e acompanham os atletas, configurando parte fundamental nos cotidianos. E se em cargos de gestão esportiva, de maneira geral, as mulheres ainda são minoria, nos estafes elas ganham cada vez mais espaço. 

A questão tem a ver com representatividade feminina. Mas à medida em que a ciência e a medicina do esporte avançam consideravelmente e passam a ser entendidas como peças essenciais no desempenho esportivo, ela tem a ver também com outro ponto importante: a relação benéfica de mulheres com atletas mulheres. 

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“O meio do esporte é mais masculino, sim. Mas cada função no estafe tem um predomínio de gênero, muito pela opção na formação, e fico muito feliz de ver cada vez mais mulheres entrando em áreas que antes eram predominantemente masculinas. E isso é muito bom, porque já há um número maior de atletas mulheres também e o staff mulher tem ajudado muito elas”, opina a Doutora Ana Carolina Corte, médica do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e da Seleção Brasileira de Ginástica Artística desde 2013.

Essa ajuda apontada pela Dra. Ana pode ter relação com vários aspectos, entre eles, a facilidade e a confiança de se abrir em relação a certos assuntos, que nem sempre são fáceis de falar. 

“Em algumas questões nutricionais, por exemplo, as atletas do sexo feminino acabam tendo mais abertura para relatar dificuldades específicas com outras mulheres, seja por terem tido experiências similares ou por ter menos julgamento, como em um caso que trabalhei sobre transtorno alimentar e distorção da imagem no esporte. Sempre vejo que o fato de ser mulher ajuda o processo por talvez compreender com facilidade o outro lado. Mas é preciso dizer que deve haver sensibilidade e imparcialidade independente do gênero”, pontua a nutricionista esportiva Carol Yoshioka, que trata, entre outros atletas, os ginastas Arthur Nory, Arthur Zanetti, Chico Barreto, além de Milena Titoneli, do taekwondo.

E quem atesta os pontos positivos de se ter mulheres nos staffs é a goleira da equipe de futebol feminino do Clube Atlético Juventus, Danielle Lameu. “Aqui não tinha nenhuma mulher no staff, até que uma atleta decidiu sair e entrar para a comissão. E muita coisa mudou. Ela sabia o que a gente precisava e, pelo fato de ela ser mulher, a gente fica mais confortável em comentar alguns assuntos como medicamentos, anticoncepcionais, menstruação… Então acho muito importante e também pela representatividade das mulheres, para provar que também podemos estar nessas posições e muitas vezes fazemos até melhor por saber o que as atletas precisam”. 

Casos de assédio 

Nos últimos tempos, vários casos de assédio sexual no esporte têm vindo à tona, como na ginástica artística dos Estados Unidos e também no Brasil. Por isso, o tema mulheres nos estafes vai além de abertura para se falar sobre assuntos delicados. Há de se ter um cuidado maior com o tratamento e a relação direta entre profissionais e atletas.

“A questão de um homem cuidar de uma mulher e de uma mulher cuidar de homem merece atenção. Hoje em dia, têm vindo a tona esses casos de assédio e por isso há mais orientações sobre isso também. A gente tem tomado muito cuidado, por exemplo, em manter a porta do departamento aberta, dependendo da idade do atleta, ter um acompanhante junto. Então é preciso ser muito profissional e deixar os limites muito claros, porque isso é um assunto muito sério”, afirma Maria Eugenia Ortiz, fisioterapeuta desportiva da Confederação Brasileira de ginástica (CBG).

Ciência e consciência

Os benefícios de mulheres nos estafes, porém, vão além e passam ainda pelo destaque de assuntos femininos importantes e pelo entendimento de que o corpo feminino e o corpo masculino são diferentes entre si e por isso exigem condutas igualmente diferentes.

“Os homens não possuem tantas nuances hormonais quanto às mulheres. O metabolismo e adaptabilidade de dieta são raramente similares, o que resumindo, significa condutas quase sempre diferentes. Precisamos lidar com o ciclo menstrual e alterações hormonais que algumas vezes mudam a palatabilidade e o consumo de alimentos, que podem ter influência e relação à indisposição e a cólica… Existem prós e contras em ambos os gêneros e isso exige um planejamento nutricional mais adequado, que contribua para melhora do desempenho esportivo de cada atleta”, explica Carol Yoshioka.

No Instagram, Nory agradece: “Obrigado equipe multidisciplinar pelo trabalho com os atletas”

E falando em menstruação, esse assunto, junto com a psicologia do esporte, são talvez as questões que ainda geram algum tipo de resistência. Segundo a ginecologista do COB, a Dra.Tathiana Parmigiano, os clubes, de maneira geral, ainda não costumam ter ginecologistas próprias em seus staffs e elas acabam atendendo individualmente algumas atletas, em algumas situações. 

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“Isso limita muitas vezes o nosso trabalho. A gente só atua na época de Seleção, por exemplo. Mas é o que a gente tem hoje. Infelizmente ainda são degraus que o esporte feminino e principalmente o investimento financeiro têm que melhorar para que isso vire uma rotina, algo simplesmente obrigatório e essencial, como deveria ser se tratando de uma mulher atleta”, destaca a Dra.

“Ainda existe um preconceito com a psicologia como um todo, com a saúde mental, de as pessoas reconheceram uma fragilidade emocional e procurarem ajuda. Ainda é um tabu na nossa sociedade e isso reflete nos profissionais, que fatalmente têm resistências ao seu trabalho. Mas na medida em que a gente tem se inserido nesse mercado, seja em clube, equipe, atleta, e conseguido explicar e desmistificar a posição da psicologia, facilita bastante. E aí independe de se é mulher ou homem”, destaca Adriana Lacerda, psicóloga do esporte e presidente da ASSOPERJ (Associação de Psicólogos do Esporte do Rio de Janeiro).

“Eu costumo dizer que a minha competência não está relacionada ao meu gênero, e que o gênero não deveria ser preditor de competência”, completa a psicóloga.

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O futebol parou no tempo

Todas as profissionais entrevistadas acima destacaram o aumento no número de mulheres nos staffs de maneira geral e relataram que, via de regra, tiveram seus trabalhos respeitados, sem questionamentos ou resistências devido ao gênero. Exceto em uma situação.

Sem que fossem perguntadas diretamente pela reportagem, todas citaram o futebol como uma experiência negativa. Será apenas coincidência?

“Uma das nossas dificuldade como mulher é quanto à logística de alguns ambientes. Por exemplo, alguns estádios não tem vestiário feminino. É um único vestiário para a equipe e outro para a comissão técnica. E eu, como a única mulher na comissão… É ruim trocar de roupa no mesmo lugar que eles”, relata a Dra. Ana Corte, que foi a primeira mulher a assinar a súmula e acompanhar a equipe masculina principal do Corinthians em uma partida oficial, contra o CSA no ano passado.

A resistência, porém, não parece ser “apenas” em relação às mulheres nos staffs, mas também em relação a evolução da medicina no esporte como um todo. 

A psicóloga Adriana Lacerda e a nutricionista Carol Yoshioka acrescentam: “O futebol ainda é um universo muito machista nesse sentido. O preparador físico, de goleiros, treinadores, são majoritariamente homens. Trabalhei por 12 anos no meio do futebol e passei por situações de resistência sim. Mas nunca deixei que isso inviabilizasse a minha atuação. Dificultou em alguns momentos, mas vi que era muito por falta de conhecimento”, pontuou Lacerda. 

“Apenas uma vez senti talvez uma resistência em relação ao meu trabalho e foi no futebol. Na ocasião, o técnico principal não aceitou bem as intervenções nutricionais sugeridas, colocando em dúvida a efetividade, e inicialmente tentando impor aquilo que os jogadores tinham preferência de ingerir, o que é algo culturalmente e esportivamente obsoleto. Mas creio que consegui contornar algo cultural com conhecimento”, finalizou Yoshioka. 

Não é uma disputa entre homens e mulheres. É uma luta por espaço e reconhecimento. E por isso, a fisioterapeuta Maria Eugênia Ortiz encerra dando o tom: “Uma equipe multidisciplinar que tenha profissionais homens e mulheres é muito mais rica”.

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