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Menstruação não é tabu

Tóquio 2020

Menstruação no esporte: não é (e não deveria ser) tabu

Tabu, dúvidas, alto rendimento, novos recursos e inferiorização: as nuances da menstruação no esporte do ponto de vista de quem vive isso

Menstruação no esporte: não é (e não deveria ser) tabu

Todo mês ela aparece. Às vezes chega antes, às vezes atrasa. Pode causar algum incômodo, alguma dor e às vezes até alívio. Mas fato é que ela é normal. E mesmo sendo normal e não sendo lá uma novidade, ela ainda gera algum tipo de desconforto em muitas pessoas. Sim, estamos falando da menstruação

Historicamente, o tema foi uma espécie de tabu e demorou para ser tratado com sua devida importância – se é que já atingiu tal estágio. E no esporte de alto rendimento não foi diferente. Talvez você nunca tenha parado para pensar como é a relação da atleta profissional com o seu ciclo menstrual. Como elas lidam com cólica, TPM, fluxo durante as competições, viagens e treinamentos. Ou já tenha pensado, mas não encontrou respostas. 

Pois bem. a questão da menstruação passa por muitas etapas e questões, desde o próprio tabu, a sua descoberta na adolescência, a performance em alto rendimento, os novos e modernos recursos e tratamentos até o doping e a inferiorização da mulher. E para entender melhor esse universo, nada melhor do que ouvir as protagonistas dele.

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Tabu e seus problemas

Quando eu lutava judô, eu já menstruava, e o kimono era branco. E eu ficava com muita vergonha de ir menstruada para o treino ou ficava muito preocupada em manchar a roupa. E eu treinava em um lugar cheio de homens, então ninguém falava disso comigo. Eu só sabia que era feio manchar o kimono e para mim menstruação era isso”, relatou a paratleta Verônica Hipólito.

Do judô na infância e adolescência, ela migrou para outros esportes até que chegou ao atletismo, onde se estabeleceu com umas das melhores paratletas do mundo. Mas a realidade não foi muito diferente.

 Foto: Washington Alves/MPIX/CPB

“Já no atletismo, eu nunca tive uma treinadora mulher. Todos os técnicos em todas as modalidades que eu pratiquei eram homens. Então não tinha como eu conversar sobre isso. Eu não sabia com quem falar, como falar. E até quando eu via algumas garotas mais velhas conversando, parecia que elas estavam cochichando, como se aquilo não fosse algo legal de se dizer”, contou.

“A primeira vez que eu falei sobre menstruação foi com um treinador meu, porque eu estava muito cansada e tinha manchado meu shorts. E ele disse que era importante eu falar para ele, porque interferia na performance, positivamente para algumas, negativamente para outras. Então eu fui descobrir que a menstruação interferia na performance por acaso, quando, na verdade, isso é uma coisa que deveria ser conversada com todo mundo”, completou.

A descoberta  

E falando em conversa, a relação entre mãe e filha pode e deve ser muito importante no processo de descoberta das mudanças no corpo feminino. Foi o caso de Fernanda Joazeiro e Amanda Morena Mello. 

Mãe e filha, respectivamente, sempre conversaram abertamente sobre o assunto e as dúvidas começaram a surgir quando Amanda deu os primeiros passos na carreira de atleta de maratona aquática. Fernanda explica que, como mãe, ela sempre conversou com a filha, explicou sobre o corpo da mulher e que não teria problema algum menstruar e ser atleta. No entanto, como lidar com a menstruação e com a falta de estrutura, especialmente na maratona aquática? 

“Quando você compete em piscina, não tem problema. É só sair e ir para o banheiro. Mas no mar não. Às vezes, a gente já tem que sair do hotel com o traje, porque não tem estrutura na praia, além de que não dá para colocar absorvente no traje. A gente já tentou e é bem complicado”, continuou.

E em meio às dúvidas, quem aconselhou a família foi ninguém menos que a multicampeã Ana Marcela Cunha. “Foi uma pergunta que fiz e ela foi muito sincera. Ela disse que a Amanda ainda está começando… Então, se sentou na areia e sujou, passa o pé e cobre. E se o traje sujar? F***, porque é algo normal. Todo mundo sabe que mulher menstrua”. 

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Dai 03 de novembro de 2018: O dia em que se encontraram pela 1ª vez – Foto: Acervo Pessoal

Neste sentido, não é apenas a relação mãe e filha (e aqui atleta e ídolo também) que se faz necessária. Uma orientação profissional cedo pode e deve fazer diferença não só presente, mas principalmente no futuro.

“Quando a gente atende uma atleta mais jovem, muitas vezes temos sim que explicar muito para a mãe, porque aí entram os mitos sobre os contraceptivos, o uso do hormônio em si, ou indiretamente elas podem achar que há um estímulo para uma relação sexual precoce… Então é preciso explicar os benefícios, os critérios que existem de elegibilidade para a prescrição desses medicamentos. E o importante é levar informação e estar disponível para as dúvidas que surgem”, explica a Dra. Tathiana Parmigiano, ginecologista do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

“Cada vez mais atletas nos procuram e, muitas vezes, nas seleções, além de trabalhar com a atleta principal, a gente trabalha com a base. Porque, como tudo, se você constrói uma base boa, você chega com atletas muito melhor orientadas”, completou.

A inferiorização 

Apesar de “todo mundo saber que mulher menstrua”, o tema não é tratado exatamente desta forma e ainda é rodeado de visões equivocadas. Por isso, clichês como associar uma irritação à TPM, continuam se fazendo presentes.

“Às vezes, tinha gente, já no alto rendimento, que via que eu estava correndo mais devagar e vinha perguntar se era porque eu estava menstruada. E eu não estava. E ficavam surpresos por eu não estar”, disse Verônica Hipólito. “Até com as treinadoras, que já são poucas. Quando elas chegam irritadas no treino depois de uma derrota, por exemplo, já começam a falar que ela deve estar de TPM. E assim, qualquer treinador homem poderia chegar irritado num treino depois de perder e ninguém fala nada. Vão falar: ‘ah, hoje ele está quieto’, e vão respeitar”, completou.

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Por outro lado, hoje Verônica já não menstrua mais por uma série de motivos, entre eles os tumores que teve, o nível do hormônio prolactina, entre outros. E aí, o tom muda radicalmente, quando ela relata que começam a vê-la como “menos mulher” por não menstruar mais, mostrando as contradições e confusões que ainda rodeiam o assunto. “É muito complicado ter que explicar todas as vezes que eu não menstruo, mas que ainda sou mulher sabe?! Falar sobre menstruação deveria ser algo muito mais natural”, ressaltou.

A palavra de quem entende

E o que dizem os profissionais da área?

Em pleno século XXI, o mundo já testemunhou revoluções de todos os tipos, inclusive na área da saúde. O que pouco se sabe é que avanços significativos na ginecologia do esporte vêm acontecendo nos últimos anos e, hoje, já é uma realidade no alto rendimento. 

“O tabu da menstruação é algo que está caindo. Cada vez mais, a gente tem disseminado a importância de se tratar homens e mulheres atletas de uma maneira diferente e o número de trabalhos em relação à parte menstrual aumentou muito nos últimos anos”, relatou a Dra. Tathiana Parmigiano, ginecologista do COB e irmã da ex-judoca da seleção brasileira, Cristhiane Parmigiano.

A Dra. conta que desde as Olimpíadas de Londres 2012, o COB tem proporcionando às atletas brasileiras a possibilidade de planejar o seu ciclo menstrual em relação às competições. “O planejamento do ciclo é uma realidade mundial e que a gente faz, com pouca divulgação, há quase 10 anos aqui no Brasil”. 

No judô, a Dra. Tathiana começou a atuar antes mesmo de Londres 2012 Foto: Divulgaçã/CBJ

O outro lado

Ao mesmo tempo em que o campo se expande, é necessário ter outros tipo de cuidado, como, por exemplo, o doping. “Hoje, no alto rendimento, eu vejo que tem uma preocupação maior com o que você toma, o quanto você toma, até pela questão do doping. Então, hoje, para eu poder tomar hormônios femininos para voltar a menstruar, eu preciso pedir uma autorização”, explicou Verônica Hipólito.

“A gente tenta colocar a menstruação e os hormônios em si como aliados e não como vilões, e mostrar que tem recursos para lidar com todos os efeitos que eles podem causar. A única coisa é que isso tem que ser muito bem explicado e precisa estar aliado com o staff da atleta, reforçando que o trabalho, além de multidisciplinar, tem que ser interdisciplinar. E que a presença de uma ou de um ginecologista cuidando de uma atleta mulher e assessorando a medicina esportiva só tem a fazer com que a atleta mulher ganhe em relação a saúde e rendimento”, completa a Dra. Parmigiano. 

A conduta

“Não existe nenhum dado ou pesquisa que comprove que mulher perca performance durante o período menstrual. Pelo contrário, tem mulher que até pela questão hormonal se sente mais forte, com mais resistência muscular. E têm outras que relatam que pela perda de sangue, ficam mais fracas. Mas não tem nenhuma evidência científica que faça essa correlação, e até por isso, pode ser algo psicológico, o que é necessário acompanhar. Por isso, depende de cada caso”, analisou a psicóloga do esporte e presidente da ASSOPERJ (Associação de Psicólogos do Esporte do Rio de Janeiro), Adriana Lacerda.

Exemplo disso: a judoca Sarah Menezes escolheu lutar menstruada nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, enquanto a nadadora chinesa Fu Yuanhui lamentou não ter sido capaz de dar o seu melhor nas piscinas pelo mesmo motivo.

Sarah foi eliminada na repescagem na Rio 2016 Foto: Divulgação

Por isso, perguntas como: “Sua menstruação te atrapalha?”, “Quantos dias você sangra?”, “Ela causa anemia?”, “Isso repercute em queda de rendimento?”, fazem parte do procedimento que a ginecologista entende ser essencial no acompanhamento das atletas: o de ouvi-las. Primeiro para saber se vale ou não intervir, e depois, como.

A Dra. Parmigiano conta que em seu mestrado perguntava às atletas se elas pudessem escolher uma fase do seu ciclo em que preferem competir, qual seria? E apesar de elas poderem responder que o ciclo menstrual não interfere, cerca de 90% optavam por escolher uma fase do ciclo para competir.

“Então por que não proporcionar isso? Por que não apresentar como isso pode ser feito, os prós e contras, e deixá-la escolher. E claro, orientá-la e dividir a responsabilidade com ela”, questionou a Dra. Parmigiano.

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O recado final

“O mais importante para as meninas é saber o que é a menstruação, entender que ela não é algo necessariamente ruim ou prejudicial, e que é possível planejar, manipular e adequar a um calendário competitivo. Tem que ter a informação de que isso existe e que é acessível. E as pessoas que trabalham ao redor precisam ter a noção de que isso deve ser valorizado, que não dá para tratar a atleta mulher como homem. E que isso não é mimimi feminino. Pelo contrário. É só a seriedade que o esporte feminino, com tudo que já cresceu, precisa”, concluiu a ginecologista.

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