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ana marcela cunha e andré calvelo

Tóquio 2020

Ana Marcela no auge da forma e André Calvelo brilham no Maria Lenk

A análise de Felipe Domingues sobre o quarto dia da seletiva olímpica de natação destacou as atuações de Ana Marcela Cunha e André Calvelo

Ana Marcela no auge da forma e André Calvelo brilham no Maria Lenk

Por Felipe Domingues, que analisa a convite do OTD a Seletiva Olímpica Brasileira de natação*

Ontem tivemos o quarto dia de seletivas, com mais quatro provas e a tentativa para o revezamento feminino dos 4x200m livre. As provas que foram para a água foram 1500m livre feminino, 100m livre masculino, 200m borboleta feminino, 200m peito masculino.

Os 1.500m foi uma prova espetacular para abrir as atividades do dia, o recorde brasileiro foi batido. Beatriz Dizotti nadou para a melhor marca da vida e melhor tempo brasileiro na prova. Três meninas nadaram abaixo da marca do índice olímpico. Além de Beatriz, com boa média de tempos em todas as piscinas nadadas e conseguiu ser consistente para chegar no recorde, Ana Marcela da Cunha, que já estava classificada para a maratona aquática também conseguiu o índice. Betina Lorscheitter foi a outra nadadora a conseguir quebrar a marca.

Apenas as duas primeiras vão para Tóquio e ainda há uma outra tomada de tempo em junho para atletas que testaram positivo para covid agora. Vale aqui lembrar que, como esta prova é muito nova, o índice ainda não era tão forte. Tanto que considerando as marcas que as meninas fizeram, internacionalmente estamos por volta da quinquagésima marca, ou seja lá atrás mesmo. Só que elas não têm culpa nenhuma disso, pelo contrário: fizeram um boa prova as três e conquistaram a marca. É uma prova muito ritmada, nadando em parciais de 32s e 33s, 32s, 33s, fruto de um trabalho muito bem feito pelos treinadores.

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Em relação à Ana Marcela especificamente, é impressionante! Ela está classificada nos 10km da maratona aquática, nada também provas de 5km ou 25km e mostrou muita competência. Fez um resultado espetacular na piscina, onde é necessário ter mais técnica, tem as viradas e tudo. E ela fez um resultado magnífico. É muito boa atleta e uma das melhores do mundo.

ana marcela cunha na piscina

Acho que a Ana Marcela é forte candidata para medalha nos Jogos de Tóquio e está muito em forma. Eu nunca vi a Ana Marcela tão em forma como estou vendo agora, então ela está confiante, sabe o que quer e isso é muito importante para todo atleta de elite.

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Depois tivemos os 100m livre masculino, uma prova clássica da natação mundial. O detentor do recorde brasileiro, sul-americano e mundial é uma das lendas das piscinas brasileiras: Cesar Cielo. Este é outro recorde que perdura desde a época dos trajes tecnológicos, conquistado por Cielo em 2009.

Cinco atletas já haviam nadado abaixo da marca do índice olímpico na carreira, três deles abaixo de 00:47. André Luiz Calvelo nadou para 00:48.09 de manhã, já mostrando que seria um forte concorrente na prova.

Na decisão da noite, Pedro Spajari fez uma primeira metade muito boa, nadando os primeiros 50m em 22 segundos, meio segundo na frente de André, qu fez a melhor segunda metade com 25,2s, terminando a prova abaixo do índice e carimbando sua vaga para os Jogos Olímpicos. Spajari também garantiu seu passaporte para Tóquio. Os dois integrarão o revezamento junto com Breno Correia e Marcelo Chierghini. O time brasileiro é forte para essa prova nos Jogos e pode sonhar com uma final e depois até mesmo com medalha.

A prova do Calvelo foi espetacular. Nós treinamos muito dentro do projeto da Oxygen nas últimas nove semanas, pois sabíamos que seria muito difícil conseguir esse índice olímpico, uma vez que os outros nadadores que caíram na piscina também eram bem cotados para a vaga.

Nossa estratégia era já entrar muito forte na parte da manhã, porque eram três séries e oito se classificavam. Não poderia vacilar e tinha um atleta muito bem preparado do lado, que era o Pedro Spajari. Sabíamos que ele ia passar rápido, então o André passou rápido também e fez uma volta muito boa realmente: 25.0 é muito bom na segunda metade da prova.

Não é que foi uma surpresa, pelo que vinha fazendo nos treinos. Esperava que o André nadasse bem, mas ele realmente nadou muito bem e isso foi muito legal para dar confiança para o que tinha pela frente.

A final foi muito disputada, era uma prova difícil de chegar e bater na frente. Tinha grandes nomes como o Marcelo Chierghini, com 47.6 de melhor marca. Depois da bateria da manhã sabíamos que o André poderia terminar bem e não foi surpresa para nós bater em primeiro com o resultado que conseguiu. Na verdade, a surpresa foi mais do lado dos concorrentes, que não tiveram performance tão boa.

Nas últimas nove semanas tivemos um trabalho de intensidade muito importante com o André. Criamos uma tabela de metas e trabalhamos em cima delas com bastante rigor, voltou a dobrar os treinos, fez um trabalho de força com para-quedas junto com a preparação física. Conseguimos alinhar todos os aspectos da preparação dentro e fora da água, com todos os profissionais. Foi um trabalho bem integrado, com nutricionista, fisioterapeuta… E o resultado saiu.

Agora temos que acertar uns pontos, realizar toda a análise biomecânica para aprimorar ainda mais o trabalho e nadar nos Jogos melhor que na seletiva. Pode comemorar a vaga nos 100m e logo focar para sábado, quando tem a prova dos 50m livre.

A terceira prova do dia foi o 200m borboleta feminino. Foi uma prova difícil para todas, nenhuma atleta chegou perto do índice. O próprio recorde brasileiro não chegava perto da marca. Faltou regularidade e ritmo para as nadadoras. A vencedora Giovanna Diamante nadou para 29s; 33s; 35s e 37s. A segunda colocada manteve a mesma tendência de ritmo da vencedora, terminando 1s atrás na última piscina. Foi uma prova aquém que precisamos treinar mais para o futuro.

200m peito masculino foi uma prova que prometia classificar mais um brasileiro para Tóquio. Caio Pumputis, que já havia nadado abaixo do índice caiu na água decidido para garantir sua vaga. Nadou forte na primeira metade da prova terminando os primeiros 100m com 01:00.99. Porém ele sentiu o ritmo forte e não conseguiu garantir a marca necessária por pouco mais de 1s. Praticamente todos os nadadores foram fortes nos primeiros 100m e cansaram no final.

O ritmo apresentado na seletiva brasileira foi ao contrário do que vem sendo feito no mundial, onde os nadadores controlam mais a primeira parte da prova para forçar no final. É importante para nós nadarmos e treinarmos nesse jeito para conseguir o índice nos próximos anos.

Fechando o dia de competição, aconteceu a tomada de tempo para a repescagem olímpica no revezamento 4x200m livre. O time brasileiro conseguiu nadar bem e melhorar a marca do país em cerca de 7s. A definição da repescagem espera até junho quando os resultados serão confirmados e saber se chegaremos nos 4×200 livre feminino ao final das seletivas mundiais. São quatro países que vão para a repescagem e atualmente estamos em segundo, ao final das seletivas saberemos se disputaremos essa vaga.

*Felipe Domingues é o head coach da Oxygen, plataforma de treinamento individualizado e especializado em nadadores de alto rendimento. Em décadas dedicadas à preparação de atletas de primeira linha, participou da conquista de mais de uma dezena de medalhas Paralímpicas, Pan-Americanas e Mundiais

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