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Errou ou perdeu? Como a autocompaixão ajuda a retomar o treino com clareza

Atleta conversa com treinador depois de uma derrota esportiva

Uma derrota pode terminar no placar, mas continuar na cabeça do atleta por horas ou dias. O lance perdido, a estratégia que não funcionou e a comparação com os adversários podem alimentar pensamentos como “eu não sirvo para isso” ou “estraguei tudo”.

Analisar o que deu errado faz parte do esporte. Transformar cada erro em um julgamento sobre o próprio valor, entretanto, não torna a análise mais precisa.

A autocompaixão propõe reconhecer a decepção sem negar o resultado e sem responder a ela com ataques pessoais. A ideia não é fingir que a derrota não importa, mas criar condições emocionais para compreender o desempenho e decidir o que fazer depois.

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O que é autocompaixão?

A autocompaixão costuma ser apresentada por meio de três componentes: tratar-se com compreensão em momentos difíceis, reconhecer que erros e frustrações fazem parte da experiência humana e observar pensamentos e emoções sem se deixar dominar completamente por eles.

No esporte, isso pode signific trocar a frase “sou um fracasso” por uma avaliação mais específica: “cometi dois erros importantes no fim da partida e preciso entender por que isso aconteceu”.

A segunda frase não diminui a responsabilidade. Pelo contrário: ela identifica um problema que pode ser analisado no treino.

Já o ataque pessoal reúne desempenho, identidade e futuro em uma única conclusão. Um resultado ruim passa a significar que o atleta é ruim e continuará fracassando, mesmo quando os fatos não permitem essa afirmação.

Autocompaixão não é passar a mão na cabeça

Alguns atletas temem que uma postura menos agressiva reduza a cobrança e a vontade de melhorar. Essa preocupação também aparece em pesquisas: praticantes podem associar a autocrítica à disciplina e imaginar que a autocompaixão provocará acomodação.

A diferença está entre aceitar o erro e desculpá-lo.

Uma resposta permissiva seria ignorar a preparação inadequada, culpar apenas fatores externos ou repetir os mesmos comportamentos. Uma resposta autocompassiva reconhece a falha, mas evita acrescentar humilhação ao processo.

É possível dizer: “não me preparei como deveria e isso prejudicou meu desempenho”. Essa conclusão assume responsabilidade sem recorrer a frases como “sou preguiçoso”, “não tenho caráter” ou “nunca vou conseguir”.

O que dizem as pesquisas com atletas?

Em um estudo observacional com 90 atletas universitários, aqueles com níveis mais altos de autocompaixão apresentaram recuperação mais rápida das emoções negativas depois de recordar um fracasso esportivo. A característica não previu necessariamente mais emoções positivas, mas esteve ligada a uma resposta emocional menos prolongada.

O trabalho não permite afirmar que a autocompaixão causou essa recuperação. Os participantes lembraram derrotas passadas em um laboratório, e os pesquisadores não acompanharam uma falha real durante a competição.

Uma revisão que reuniu 16 estudos encontrou relações promissoras entre autocompaixão, menor autocrítica e respostas mais adaptativas no esporte. Os autores, porém, destacaram a necessidade de mais pesquisas longitudinais e intervenções realizadas em diferentes ambientes esportivos.

Em outra experiência, atletas mulheres participaram de uma intervenção de autocompaixão durante sete dias. O grupo apresentou redução de autocrítica e ruminação, com resultados que permaneceram no acompanhamento realizado um mês depois. A amostra e a duração limitam generalizações, mas indicam que a habilidade pode ser praticada.

Primeiro, reconheça o impacto da derrota

O atleta não precisa analisar tudo imediatamente depois da competição. Raiva, vergonha, cansaço e frustração podem dificultar uma leitura equilibrada do desempenho.

Nas primeiras horas, pode ser mais útil identificar o que está sentindo e atender necessidades básicas: hidratação, alimentação, banho, sono e contato com pessoas de confiança.

Reconhecer a emoção não significa concordar com todas as conclusões produzidas naquele momento. A frase “estou decepcionado” descreve um estado. Já “nunca mais vou conseguir competir bem” tenta prever o futuro durante um período de forte frustração.

Quando possível, a revisão técnica pode ficar para depois que a intensidade emocional diminuir.

Separe o resultado da identidade

Uma derrota é um acontecimento. Ela não resume a trajetória, a capacidade ou o valor de uma pessoa.

Para evitar essa mistura, o atleta pode dividir suas observações em três partes:

  • Fato: o que ocorreu sem interpretação;
  • Impacto: como isso afetou o resultado;
  • Próximo passo: o que pode ser treinado ou alterado.

Um exemplo seria:

Fato: “Perdi quatro saques no terceiro set.”
Impacto: “A equipe teve dificuldade para manter pressão nesse momento.”
Próximo passo: “Vou revisar a tomada de decisão e treinar o saque em situação de fadiga.”

Essa organização transforma um julgamento amplo em uma informação utilizável.

Fale consigo como falaria com um companheiro

Uma pergunta prática é: “Eu usaria essas palavras com um companheiro que viveu a mesma situação?”.

A resposta não precisa ser excessivamente positiva. Um bom companheiro pode ser direto, reconhecer a falha e cobrar mudança. A diferença é que ele provavelmente não usaria insultos nem afirmaria que toda a carreira acabou por causa de uma partida.

O atleta também pode escrever uma frase curta que reúna os três elementos da autocompaixão:

“Essa derrota doeu. Errar faz parte do esporte, mesmo quando houve preparação. Agora posso entender o que aconteceu e escolher o próximo passo.”

A frase não precisa ser repetida como uma fórmula. Ela serve para interromper o ataque pessoal e abrir espaço para uma análise mais específica.

Revise o desempenho sem procurar um culpado único

A revisão deve considerar fatores técnicos, físicos, táticos e emocionais. Sono, preparação, decisões, comunicação, condições da competição e qualidade do adversário também podem ter influenciado o resultado.

O objetivo não é encontrar uma explicação confortável, mas evitar conclusões simplistas.

Em esportes coletivos, culpar uma única pessoa pode esconder erros na construção das jogadas, na estratégia ou na comunicação. Em modalidades individuais, assumir toda a culpa também pode ignorar fatores externos e a atuação do adversário.

Uma revisão útil procura perguntas que possam gerar ação:

  • Qual decisão funcionou?
  • Em que momento o rendimento mudou?
  • O problema apareceu antes?
  • O que estava sob meu controle?
  • O que precisa de treino?
  • O que exige descanso ou recuperação?
  • Qual será o próximo teste?

O atleta também deve registrar acertos. Isso não serve para equilibrar artificialmente uma lista, mas para identificar comportamentos que devem continuar.

Treinadores influenciam a reação ao erro

A autocompaixão não depende apenas da atitude individual. O ambiente esportivo pode aumentar ou diminuir o medo de falhar.

Pressão excessiva por desempenho e medo de cometer erros podem contribuir para estresse e sofrimento emocional, especialmente entre atletas jovens. O consenso do Comitê Olímpico Internacional destaca que ambientes esportivos saudáveis precisam considerar o desenvolvimento e o bem-estar, não apenas os resultados.

Treinadores podem cobrar responsabilidade sem expor, ridicularizar ou atacar características pessoais. A devolutiva mais útil descreve o comportamento, explica seu impacto e apresenta uma ação possível.

“Você abandonou a estratégia depois do primeiro erro” oferece um ponto de trabalho. “Você sempre desiste quando importa” transforma uma situação em um rótulo.

Quando a derrota exige mais atenção

Tristeza e frustração depois de uma competição não representam automaticamente um problema de saúde mental. A reação merece atenção quando permanece intensa, interfere no sono, na alimentação, nos estudos, no trabalho ou nos relacionamentos, ou leva ao isolamento e à perda de interesse pelas atividades.

Atletas também convivem com fatores específicos, como pressão por desempenho, lesões, exposição pública e mudanças inesperadas na carreira. Consensos do COI destacam que sintomas de saúde mental podem afetar o desempenho e que o cuidado precisa envolver tanto o atleta quanto o ambiente em que ele treina e compete.

Nesses casos, conversar com um psicólogo, médico ou outro profissional qualificado não representa falta de força mental. O Ministério da Saúde ressalta que a saúde mental resulta da interação de fatores pessoais, sociais e ambientais e que a rede pública oferece atendimento por meio da Rede de Atenção Psicossocial.

A derrota pode oferecer informações importantes, mas não precisa se transformar em punição. A autocompaixão ajuda a separar o erro da identidade, reduzir a ruminação e retomar o trabalho com uma avaliação mais clara do que deve mudar.

Consultora de wellness do Olimpíada Todo Dia. Profissinal de educação física, fundadora do Yoga Para Atletas, co-fundadora do Rachão Basquete Feminino, criadora de conteúdo do A Quadra É Delas e personal training

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