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Setembro Amarelo: como o esporte pode abrir espaço para a escuta

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O esporte costuma ser associado a movimento, competição e desempenho. Mas, para muita gente, ele também representa convivência.

É na quadra, na pista, na piscina, na academia ou durante uma caminhada que amizades são construídas e conversas acontecem.

Essa dimensão ganha um significado especial durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre prevenção do suicídio e valorização da vida.

Em 2026, o Centro de Valorização da Vida (CVV) escolheu o tema “Escutar é estar presente” para sua campanha. A proposta chama atenção para a importância de ouvir alguém com atenção, respeito e sem julgamentos.

No esporte, essa escuta também pode aparecer.

Um colega que deixa de participar dos treinos, um atleta que muda seu comportamento ou uma pessoa que se isola do grupo podem chamar a atenção de quem convive com ela.

Isso não significa que professores, treinadores ou companheiros devam diagnosticar problemas de saúde mental.

Significa apenas que o esporte pode ser um dos espaços em que relações são construídas e mudanças podem ser percebidas.


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O esporte também é convivência

Quando uma pessoa participa de uma equipe, grupo de corrida, aula de dança ou treino coletivo, ela não está apenas realizando uma atividade física.

Existe também uma dimensão social.

As pessoas conversam antes e depois da atividade, compartilham dificuldades, comemoram conquistas e criam vínculos.

Para algumas pessoas, aquele encontro pode ser um dos momentos de maior convivência da semana.

Por isso, perder repentinamente o interesse por uma atividade que fazia parte da rotina pode chamar a atenção.

Isso, sozinho, não significa que exista um problema de saúde mental.

Mas pode ser uma oportunidade para perguntar como a pessoa está.

É possível perceber quando alguém não está bem?

Não existe um sinal único capaz de indicar que uma pessoa está enfrentando uma crise emocional.

Mudanças de comportamento podem ter muitas causas.

Uma pessoa pode faltar a um treino porque está cansada, trabalhando mais, estudando ou simplesmente porque mudou sua rotina.

Por isso, não é adequado transformar qualquer mudança em um diagnóstico.

O que pode fazer diferença é a disposição para conversar quando algo chama atenção.

Uma pergunta simples pode abrir espaço para isso.

“Você está bem?”

Ou:

“Percebi que você não tem aparecido. Está tudo certo?”

A resposta pode ser curta.

Pode ser longa.

Pode ser que a pessoa não queira falar naquele momento.

O importante é não transformar a conversa em interrogatório.

Escutar é diferente de dar conselhos

Essa é uma das mensagens centrais da campanha do CVV em 2026.

Segundo o órgão, muitas vezes uma pessoa em sofrimento não precisa de respostas prontas ou soluções imediatas, mas de alguém disposto a ouvir com atenção e sem julgamentos.

No esporte, isso pode ser especialmente importante.

Imagine um atleta que chega ao treino e diz que está passando por uma fase difícil.

A reação imediata pode ser tentar encontrar uma solução.

“Você precisa descansar.”

“Vai passar.”

“É só pensar positivo.”

“Você precisa voltar a treinar.”

Frases assim podem não ajudar.

Em vez disso, ouvir o que a pessoa quer dizer pode ser um primeiro passo.

Treinadores e professores de Educação Física têm um papel importante dentro do ambiente esportivo, mas isso não significa que devam assumir funções de profissionais de saúde mental.

O mesmo vale para colegas de equipe.

Perceber uma mudança, perguntar como alguém está e incentivar a busca por ajuda são atitudes diferentes de fazer diagnóstico ou tentar conduzir um tratamento.

Essa diferença precisa ficar clara.

O esporte pode ser um espaço de acolhimento.

Não precisa ser transformado em consultório.

E se a pessoa disser que não está bem?

O primeiro passo pode ser continuar ouvindo.

Não é necessário ter uma resposta perfeita.

Também não é preciso resolver o problema naquele momento.

Pode ser importante demonstrar que a pessoa não está sendo julgada e que existe disposição para ajudá-la a procurar apoio.

Se houver sofrimento emocional importante, a orientação é buscar ajuda profissional e utilizar os serviços disponíveis na rede de saúde.

O Ministério da Saúde mantém uma Rede de Atenção Psicossocial no SUS para atender pessoas em sofrimento psíquico, com diferentes pontos de cuidado conforme a necessidade.

Não é preciso esperar uma crise

A escuta não precisa começar quando alguém chega ao limite.

Ela pode fazer parte da convivência cotidiana.

Perguntar como um colega está depois de uma competição.

Conversar com um amigo que faltou aos treinos.

Perceber quando alguém parece diferente.

Convidar uma pessoa para caminhar.

Sentar depois do treino para conversar.

São atitudes simples.

Nenhuma delas substitui acompanhamento profissional.

Mas podem fortalecer vínculos.

E vínculos fazem parte de uma rede de apoio.

O esporte pode ajudar a criar vínculos

A atividade física pode aproximar pessoas que provavelmente não se encontrariam em outras situações.

Um grupo de corrida reúne pessoas de diferentes idades.

Uma equipe de futebol cria uma rotina compartilhada.

Uma aula de dança coloca pessoas em contato.

Uma turma de natação pode criar relações que vão além da piscina.

O mesmo pode acontecer em atividades para idosos, projetos comunitários e esporte adaptado.

O ponto em comum é a convivência.

Crianças e adolescentes também precisam ser ouvidos

O cuidado não deve ficar restrito aos adultos.

Crianças e adolescentes também podem encontrar no esporte um espaço de convivência.

Pais, responsáveis, professores e treinadores podem observar mudanças de comportamento, mas precisam evitar interpretações precipitadas.

Uma criança que deixa de querer praticar determinado esporte pode simplesmente ter perdido o interesse.

Um adolescente que se afasta de um grupo pode estar passando por diferentes situações.

O caminho não é tentar descobrir sozinho o que está acontecendo.

É abrir espaço para conversar e, quando necessário, envolver os responsáveis e buscar orientação profissional.

E no esporte de alto rendimento?

A pressão por resultados pode tornar a conversa sobre saúde mental ainda mais importante.

Atletas de alto rendimento convivem com competições, cobrança por desempenho, lesões, viagens, mudanças de equipe e períodos de incerteza profissional.

Isso não significa que todo atleta submetido a pressão desenvolverá um problema de saúde mental.

Significa que o ambiente esportivo também precisa reconhecer que atletas são pessoas.

Uma derrota não define ninguém.

Uma lesão não define uma carreira.

Um período de desempenho abaixo do esperado também não precisa ser tratado como fracasso pessoal.

O resultado não pode ser a única medida

No esporte, existe uma tendência natural de medir desempenho.

Tempo.

Distância.

Pontuação.

Medalhas.

Vitórias.

Recordes.

Esses números fazem parte da competição.

Mas não precisam definir o valor de uma pessoa.

Para quem pratica esporte por lazer, a atividade pode ser principalmente uma oportunidade de movimentar o corpo e encontrar outras pessoas.

Para atletas, resultados fazem parte da profissão.

Ainda assim, a identidade de alguém não precisa se resumir ao desempenho esportivo.

Quando o esporte deixa de ser prazeroso

Outra situação que merece atenção é quando a prática que antes fazia bem passa a ser fonte permanente de sofrimento.

Uma pessoa pode começar a treinar por prazer e, com o tempo, transformar tudo em cobrança.

Treinar mesmo lesionado.

Sentir culpa ao descansar.

Comparar constantemente seu corpo ou desempenho.

Ter medo de perder rendimento.

A atividade física pode deixar de cumprir seu papel de bem-estar.

Nesse caso, conversar com profissionais e rever a relação com o treinamento pode ser importante.

Escuta também significa respeitar limites

Ouvir alguém não significa obrigá-lo a falar.

Uma pessoa pode não querer conversar naquele momento.

É possível demonstrar disponibilidade sem pressionar.

“Se quiser conversar, estou aqui.”

Essa frase pode ser mais adequada do que insistir para que alguém conte tudo imediatamente.

O acolhimento também passa pelo respeito.

Não tente resolver tudo sozinho

Uma das principais mensagens que precisam aparecer quando falamos de saúde mental é que ninguém precisa assumir sozinho a responsabilidade pelo sofrimento de outra pessoa.

Amigos, familiares, colegas, professores e treinadores podem oferecer apoio.

Profissionais de saúde podem oferecer atendimento especializado.

São papéis diferentes.

Se a situação ultrapassa aquilo que uma conversa entre amigos consegue acolher, é importante incentivar a busca por ajuda.

O que não fazer?

Algumas atitudes podem dificultar a conversa.

Não ridicularize o sofrimento.

Não diga que a pessoa está exagerando.

Não compare a situação dela com a de outras pessoas.

Não transforme o problema em uma competição.

Não faça promessas de que tudo vai passar rapidamente.

E não tente diagnosticar alguém.

A escuta começa quando existe espaço para a pessoa falar sobre aquilo que está vivendo.

E o que fazer?

Algumas atitudes simples podem ajudar:

  • escolha um momento tranquilo para conversar;
  • pergunte como a pessoa está;
  • escute sem interromper;
  • evite julgamentos;
  • demonstre que você está disponível;
  • respeite o tempo da pessoa;
  • incentive a busca por ajuda profissional quando necessário;
  • se houver uma situação de risco, procure ajuda imediatamente.

O objetivo não é encontrar a frase perfeita.

É não ignorar alguém que pode estar precisando de apoio.

Caminhar pode ser uma oportunidade para conversar

A relação entre esporte e escuta não precisa acontecer em uma sala.

Uma caminhada pode criar um momento tranquilo para conversar.

Não é necessário transformar o passeio em uma sessão de terapia.

Pode ser simplesmente uma oportunidade de estar junto.

No Brasil, algumas ações do Setembro Amarelo de 2026 estão justamente utilizando atividades físicas como parte da programação de conscientização. Em Piracicaba, por exemplo, a programação municipal inclui corrida, práticas de atividade física e atividades nos Centros de Atenção Psicossocial.

Isso mostra como movimento, convivência e saúde mental podem ocupar o mesmo espaço sem que o esporte seja apresentado como tratamento.

O grupo também pode perceber ausências

Em atividades coletivas, a rotina cria referências.

As pessoas sabem quem costuma chegar cedo.

Quem sempre fica depois do treino.

Quem participa de todos os jogos.

Por isso, uma ausência repentina pode ser percebida.

Mais uma vez, isso não significa que exista necessariamente um problema.

Mas pode ser uma oportunidade para mandar uma mensagem.

“Sentimos sua falta. Está tudo bem?”

É uma atitude simples e pode mostrar que aquela pessoa é importante para o grupo.

Esporte adaptado também é espaço de convivência

A discussão sobre saúde mental e esporte precisa incluir pessoas com deficiência.

Projetos esportivos adaptados e o esporte paralímpico podem criar oportunidades de convivência, participação e pertencimento.

Mas também aqui é importante evitar generalizações.

Pessoas com deficiência não devem ser apresentadas automaticamente como vulneráveis ou como exemplos de superação.

São praticantes de esporte com diferentes histórias, objetivos e experiências.

O foco deve estar na participação e no acesso a ambientes esportivos acolhedores.

E se alguém pedir ajuda?

Leve o pedido a sério.

Não é necessário saber exatamente o que dizer.

Pode ser mais importante permanecer disponível e ajudar a pessoa a encontrar apoio adequado.

Familiares, amigos e profissionais de saúde podem fazer parte dessa rede.

O CVV também oferece apoio emocional pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia. O serviço realiza atendimento com escuta acolhedora e sigilosa.

Em situações de emergência ou risco imediato, deve-se procurar um serviço de emergência ou atendimento de saúde.

Setembro Amarelo não termina em setembro

A campanha acontece durante o mês, mas a necessidade de conversar sobre saúde mental permanece durante todo o ano.

O próprio CVV apresenta a escuta como uma prática cotidiana, que pode acontecer entre familiares, amigos, colegas de trabalho e outras pessoas da comunidade.

No esporte, isso pode significar prestar atenção às pessoas com quem convivemos.

Não para procurar sinais de doença.

Não para tentar diagnosticar.

Mas para fortalecer relações.

O esporte pode ser uma porta para a conversa

O esporte não resolve sozinho questões de saúde mental.

Também não substitui psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde.

Mas pode oferecer algo importante: um lugar onde pessoas se encontram regularmente.

É nesse encontro que uma conversa pode começar.

Um treino pode terminar com alguns minutos de conversa.

Uma caminhada pode aproximar duas pessoas.

Uma equipe pode perceber a ausência de um colega.

Um professor pode perguntar se está tudo bem.

Nenhuma dessas atitudes substitui cuidado especializado.

Mas todas podem fazer parte de uma rede de apoio.

Escutar também é cuidar

O tema do Setembro Amarelo de 2026 resume uma ideia simples: “Escutar é estar presente”.

No esporte, estar presente pode significar muito mais do que aparecer para competir ou treinar.

Pode significar perceber quem está ao lado.

Perguntar como alguém está.

Ouvir sem julgamento.

Respeitar os limites.

E, quando necessário, ajudar a pessoa a encontrar o suporte de que precisa.

O esporte pode aproximar pessoas. E, em uma época em que saúde mental também precisa ser discutida nos espaços de convivência, essa proximidade pode abrir uma porta importante: a porta para conversar.

Consultora de wellness do Olimpíada Todo Dia. Profissinal de educação física, fundadora do Yoga Para Atletas, co-fundadora do Rachão Basquete Feminino, criadora de conteúdo do A Quadra É Delas e personal training

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