Siga o OTD

Bem-Estar Todo Dia

 

Por que tantas meninas deixam o esporte na adolescência — e como mudar isso

Meninas adolescentes participam juntas de uma atividade esportiva

Meninas que corriam, jogavam bola ou participavam de competições durante a infância podem reduzir ou abandonar essas atividades ao chegar à adolescência. A mudança nem sempre acontece por falta de interesse pelo movimento. Medo de julgamentos, insegurança com o próprio corpo, pressão escolar e ambientes esportivos pouco acolhedores também podem afastá-las.

Um relatório da Unesco publicado em 2024 apontou que 49% das meninas deixam a prática esportiva durante a adolescência, proporção seis vezes maior que a registrada entre meninos. Entre as razões destacadas estão a falta de referências femininas, preocupações com segurança, perda de confiança e imagem corporal negativa.

Os dados de atividade física mostram uma diferença semelhante. No levantamento internacional mais recente do estudo HBSC, realizado com mais de 280 mil adolescentes de 44 países e regiões, somente 15% das meninas atingiram a recomendação de 60 minutos diários de atividade física. Entre os meninos, o índice chegou a 25%.

Mais sobre autocuidado

O problema não é apenas “falta de vontade”

Tratar o abandono como preguiça ou desinteresse ignora o conjunto de barreiras que aparece nessa fase da vida.

Uma revisão sistemática sobre a participação esportiva de meninas identificou fatores pessoais, familiares, sociais, econômicos e ambientais. A percepção que elas possuem sobre a própria capacidade e os resultados que esperam obter com a prática estão entre os elementos mais associados à permanência.

Em uma pesquisa realizada no Reino Unido pela organização Women in Sport, 43% das adolescentes que haviam se considerado esportivas na infância disseram ter se afastado da atividade. Entre as razões relatadas estavam medo de julgamento, falta de confiança, pressão dos estudos e sensação de insegurança em espaços externos. Os números representam o contexto britânico, mas ajudam a mostrar que o abandono não depende de uma única causa.

Mudanças no corpo podem aumentar a insegurança

A adolescência envolve transformações físicas, emocionais e sociais. Nessa fase, comparações com colegas e padrões vistos nas redes sociais podem alterar a maneira como a menina percebe o próprio corpo.

Dados do estudo HBSC (Health Behaviour in School-aged Children) mostram que 34% das adolescentes avaliadas consideravam-se “gordas demais”, ante 24% dos meninos. O mesmo levantamento identificou uma piora mais acentuada entre as meninas em indicadores de imagem corporal, saúde mental e apoio social conforme a idade avança.

Uniformes apertados, comentários sobre peso e aparência, exposição diante dos colegas e aulas organizadas apenas para quem já domina determinada habilidade podem reforçar esse desconforto.

Uma menina não precisa ter rendimento competitivo para permanecer ativa. O ambiente deve permitir que iniciantes aprendam, errem e experimentem modalidades sem serem ridicularizadas.

A menstruação também pode virar uma barreira

Cólicas, fluxo menstrual, receio de vazamentos e falta de locais adequados para trocar absorventes podem interferir na participação esportiva. Uma revisão publicada em 2025 mostrou que as experiências das adolescentes com menstruação e atividade física são influenciadas por sintomas, fatores culturais, apoio social e acesso a recursos.

O assunto não deve ser tratado como motivo automático para afastamento. Muitas meninas podem continuar treinando durante a menstruação, com ajustes quando necessários. O problema aparece quando faltam informação, privacidade, produtos menstruais ou abertura para conversar com treinadores.

Banheiros adequados, pausas sem constrangimento e uniformes que ofereçam conforto podem fazer diferença. Treinadores também devem evitar expor publicamente uma atleta que relata cólica, desconforto ou necessidade de adaptação.

Cobrança excessiva pode tirar a diversão

A passagem para equipes mais competitivas costuma aumentar a cobrança por resultados, presença e desempenho. Para algumas adolescentes, o esporte deixa de ser um espaço de convivência e passa a parecer mais uma fonte de avaliação.

Especialização precoce, treinos repetitivos, pouco tempo de recuperação e medo de perder a posição também podem contribuir para esgotamento e abandono. Uma orientação clínica da Academia Americana de Pediatria destaca que excesso de carga, recuperação insuficiente e pressão podem favorecer lesões por sobrecarga e burnout entre jovens atletas.

Isso não significa retirar objetivos ou competições. O desafio é equilibrar desempenho, desenvolvimento e prazer, principalmente nas categorias de formação.

Perguntar o que as meninas esperam do esporte ajuda a identificar necessidades diferentes. Algumas desejam competir. Outras procuram diversão, amizades, saúde, aprendizagem ou um espaço seguro para se movimentar.

Como famílias podem ajudar

O apoio familiar não precisa assumir a forma de cobrança por resultados. Pais e responsáveis podem demonstrar interesse pela experiência da adolescente e não apenas pelo placar.

Algumas atitudes úteis incluem:

  • perguntar se ela se sente segura e respeitada;
  • ouvir antes de tentar convencê-la a continuar;
  • evitar comentários sobre peso ou formato corporal;
  • permitir a troca de modalidade;
  • valorizar esforço, aprendizagem e convivência;
  • ajudar na organização de horários e transporte;
  • conversar com a escola ou equipe quando houver humilhação ou exclusão.

A queda do apoio familiar, escolar e entre colegas aparece como uma preocupação importante entre adolescentes, especialmente meninas. No estudo HBSC, aquelas que se sentiam apoiadas por família e amigos também apresentavam melhores indicadores de bem-estar.

O que escolas, clubes e treinadores podem mudar

A responsabilidade por manter meninas no esporte não deve ficar apenas com elas. Instituições precisam analisar se os ambientes oferecidos são realmente acolhedores.

Uma orientação da Organização Mundial da Saúde publicada em 2025 defende que clubes integrem inclusão, saúde mental, prevenção de lesões e participação de atletas e familiares em suas decisões. A OMS ressalta que o esporte não gera benefícios automaticamente quando o ambiente apresenta discriminação, exclusão ou práticas inseguras.

Na prática, escolas e clubes podem:

  • oferecer modalidades variadas, não apenas as mais tradicionais;
  • criar turmas para diferentes níveis de experiência;
  • garantir materiais, horários e espaços também para equipes femininas;
  • combater piadas e comentários sobre aparência;
  • oferecer uniformes confortáveis e opções de tamanho;
  • incluir mulheres entre treinadoras, gestoras e referências;
  • conversar abertamente sobre puberdade e menstruação;
  • permitir que as meninas participem das decisões;
  • separar formação esportiva de seleção precoce por desempenho.

No Brasil, meninas participantes de uma iniciativa da ONU Mulheres e do Comitê Olímpico Internacional apontaram a necessidade de igualdade de oportunidades, segurança e apoio para participar plenamente do esporte.

Trocar de esporte não significa abandonar o movimento

Uma adolescente pode deixar o futebol e se interessar por dança, atletismo, escalada, lutas, skate, natação ou treinamento em academia. A mudança não deve ser tratada como fracasso.

O Ministério da Saúde recomenda que crianças e adolescentes tenham contato com atividades variadas, porque a diversidade contribui para o desenvolvimento motor e aumenta as possibilidades de encontrar uma prática que permaneça interessante ao longo da vida.

Também é possível abandonar temporariamente uma equipe competitiva e continuar ativa de maneira recreativa. Nem toda prática precisa envolver campeonato, seleção ou resultado.

Manter meninas no esporte exige mais do que repetir que a atividade física faz bem. É preciso oferecer espaços nos quais elas possam aprender, participar e construir confiança sem sentir que estão sendo julgadas a cada movimento.

Consultora de wellness do Olimpíada Todo Dia. Profissinal de educação física, fundadora do Yoga Para Atletas, co-fundadora do Rachão Basquete Feminino, criadora de conteúdo do A Quadra É Delas e personal training

Mais em Bem-Estar Todo Dia