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Prata no Mundial, Keno superou assassinato, depressão e suicídio

Em entrevista exclusiva, Keno Marley revela como foi difícil superar o assassinato do irmão e o suicídio do primo para chegar à medalha de prata no Mundial

KENO MARLEY MEDALHA DA SUPERAÇÃO ASSASSINATO SUICÍDIO DEPRESSÃO
Caio Poltronieri

Há 11 dias, Keno Marley conquistou a medalha de prata do Mundial de boxe. Foi a conquista mais importante da carreira do pugilista de 21 anos. O que ninguém sabe é o que o atleta baiano passou para chegar até o pódio em Belgrado, na Sérvia. O lutador relevou em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia que passou em 2021 por momentos muito difíceis, que o fizeram entrar em depressão e até em pensar em tirar sua própria vida. Tudo começou com o assassinato do irmão Jeremias na saída de uma balada em Salvador e depois com o suicídio do primo Mário com quem foi criado junto.

“Essa medalha foi algo muito importante, difícil até de explicar. Foi um ano muito complicado, um ano muito atípico do começo até então para mim. Essa medalha trouxe uma alegria para mim e para a minha equipe e para todos que estavam comigo. O boxe é o que está me dando razão de vida”, afirma.

ASSASSINATO DO IRMÃO

O ano começou conturbado com alguns problemas pessoais que fizeram com que Keno Marley atrasasse sua apresentação à equipe permanente de boxe em São Paulo. A notícia que o atleta nunca gostaria de ter ouvido veio logo após a sua chegada. “Quando eu cheguei, treinei e no outro dia acordei com a notícia de que meu irmão tinha sido assassinado. Acordei com o celular tocando, pensei que fosse o despertador. Mas era um amigo meu chorando e dizendo: ‘Keno, aconteceu um negócio ruim aqui. Assassinaram o seu irmão aqui agora e eu estou com ele’. Eu perguntei onde ele estava, levantei da cama, tirei o carro da garagem, o deixei no meio da rua e fui para o aeroporto, peguei a primeira passagem e fui para a Bahia”, relembra.

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Na época ainda com 20 anos, Keno Marley teve que tomar todas as providências relacionadas à morte do irmão. “Foi um momento péssimo e minha mãe não tinha condições dee fazer o reconhecimento do corpo. Então, eu tive que ir fazer o reconhecimento. Eu tive amigos para estar comigo. Acho que se não fosse por eles eu nem sei se eu estaria aqui. Não sei o que teria acontecido”, admite.

DEPRESSÃO

Além do reconhecimento do corpo do irmão, Keno Marley resolveu tudo o que foi necessário para o velório e o enterro. Apesar da força mostrada neste momento inicial, o boxeador desabou em seguida. “Fiquei muito mal. Tive um transtorno pós-traumático, precisei fazer tratamento psiquiátrico e pensei até em tirar minha vida. Foi um momento péssimo”, revela.

Keno Marley se emocionou durante a entrevista
Keno Marley se emocionou durante a entrevista (Caio Poltronieri)

“Sem sombra de dúvida foi o pior ano de minha vida. Perdi meu familiar mais próximo, mais apegado, que era meu irmão. Eu sou o filho mais novo e ele que me acompanhava para o colégio. A gente sempre estudou no mesmo colégio justamente por isso. Ele me acompanhava em tudo. Eu só podia sair se fosse com ele. Meu irmão era tudo para mim”, conta.

Foi Jeremias, inclusive, que levou Keno Marley para o boxe.”A gente assistia luta, filme… tudo relacionado a boxe. A gente tinha paixão pelo esporte. Quando eu faltava no treino, era certeza escutar do meu irmão. Antes de luta, ele me mandava um podcast de áudio, me motivando. Após as lutas, se eu perdesse ou se eu ganhasse, ele sempre estava lá comigo. Antes de eu ser o Keno Marley que o Brasil e o mundo está conhecendo agora, ele estava lá comigo”, conta sem conseguir segurar as lágrimas.

AJUDA DA EQUIPE

O apoio da equipe permanente de boxe, no entanto, foi fundamental para que Keno Marley se recuperasse, mas não foi fácil. “Eu retornei para São Paulo, fiquei aqui na equipe, fazendo tratamento psiquátrico. Eu tomava tanto remédio controlado que o Hebert (Conceição, campeão olímpico de boxe) estava no quarto comigo e ele tinha que me acordar para ir tomar café. Às vezes, eu não conseguia nem levantar para ir tomar café e ele trazia para mim”, lembra agradecido. “Foi uma loucura. A cabeça estava a milhão e passava várias coisas que não deveriam passar naquele momento, várias besteiras e o boxe foi o que me motivou e me ajudou a conseguir superar isso, conseguir viver de uma maneira melhor”, acredita.

Apesar de todas as dificuldades, Keno Marley aos poucos foi se livrando da medicação, que lhe impedia inclusive de treinar porque ele não podia tomar pancadas na cabeça enquanto tivesse sob tratamento. O sonho de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio lhe fez voltar aos ringues e o brasileiro fez bonito no Japão, onde foi derrotado nas quartas de final pelo britânico Benjamim Whittaker numa decisão dividida e polêmica dos jurados. “Consegui lutar bem e fiz uma boa campanha. Perdi na luta da medalha”, relembra.

SUICÍDIO DO PRIMO

De volta ao Brasil, Keno Marley estava no Rio de Janeiro se preparando para o Mundial Militar quando outra bomba explodiu. “Estava treinando na base militar pouco antes de viajar para a Rússia (local do Mundial) e dois dias antes eu recebi a notícia de que um familiar meu muito próximo, um primo que eu tinha como irmão, se suicidou em casa. Essa notícia foi péssima e minha tia estava transtornada. Eu costumo falar até que ela é minha mãe. Ela estava em casa sozinha e eu tinha que ficar com ela, não tinha outra coisa a ser feita. Então, eu fui para a Suíça, onde ela mora, e fiquei uns dias com minha tia”.

keno marley
Keno Marley estava treinando para o Mundial Militar quando soube do suicídio do primo (Caio Poltronieri)

Com a viagem, Keno Marley não pôde participar do Mundial Militar, mas quando ainda estava na Suíça recebeu a ligação de Mateus Alves, técnico da seleção brasileira de boxe. “Ele falou para mim: ‘faltam 25 dias para o Mundial. Eu confio em você, eu sei que você tem capacidade de buscar essa medalha, tem capacidade de chegar na final. Vamos lá! Faltam poucos dias, mas vamos trabalhar firme e treinar firme em busca dessa medalha'”.

A MEDALHA

Keno Marley entendeu o recado e se dedicou nos poucos dias que faltavam para chegar ao Mundial o melhor preparado possível e conseguiu subir no pódio. “Fizemos cinco lutas bem complexas, mas eu estava bem preparado. A equipe me deixou preparado e tranquilo para poder trazer o resultado. Eu queria o ouro, que não veio por mínimos detalhes, faltou muito pouco, mas eu consegui manter a tranquilidade em meio a tudo o que tinha de turbulento. Só eu sei realmente o que eu senti e acho que agora vocês sabendo disso vão saber também que essa medalha tem muito mais valor do que apenas a medalha. Não é só uma medalha. Tem toda uma história por trás, toda uma trajetória, que começou bem antes desse ano. Foi muito complicado chegar nessa medalha”.

FUTURO PROMISSOR

A medalha de prata do Mundial se junta a outras conquistas importantes que Keno Marley já obteve no boxe. Em 2018, ele foi campeão olímpico da juventude em Buenos Aires e, em 2019, faturou a prata nos Jogos Pan-Americanos em Lima, mas ele não quer parar por aí. “Eu tenho bastante tempo de boxe, mas de idade eu ainda sou novo. Quero uma medalha olímpica, quero ser campeão olímpico juvenil e adulto. Acredito sim que eu vou conseguir trazer uma medalha para o nosso país. Quero bater recordes, gosto muito disso. Nos Jogos Pan-Americanos, eu me tornei o atleta mais jovem a conseguir medalha no boxe. Então, eu quero trazer mais conquistas, quero pegar medalha na Olimpíada de Paris, quero pegar medalha nos próximos eventos que vieram. É isso, estou trabalhando arduamente em busca de medalhas

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