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Exercício pode proteger o cérebro contra demência?



OMS inclui atividade física entre as estratégias para reduzir o risco de declínio cognitivo, enquanto estudo brasileiro mostra o impacto da inatividade no país



Demência não é uma consequência inevitável do envelhecimento

Manter o corpo ativo pode ser importante não apenas para o coração e os músculos, mas também para a saúde do cérebro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou em 2026 suas recomendações para redução do risco de declínio cognitivo e demência e incluiu o aumento da atividade física entre as estratégias recomendadas ao longo da vida.

No Brasil, um estudo publicado em 2026 calculou o possível impacto da atividade física sobre a ocorrência futura de demência.

De acordo com o estudo, a inatividade física esteve associada a 14,9% dos casos registrados em 2019. No entanto, um cenário hipotético mostra o impacto da prevenção: se indivíduos sedentários passarem a se exercitar por apenas 10 minutos ao dia, centenas de milhares de diagnósticos poderão ser evitados até 2050.

Mas existe uma diferença importante entre estimar um efeito em uma população e provar que uma quantidade específica de exercício impede que uma pessoa desenvolva demência.

O que o estudo brasileiro descobriu

Conduzida por uma colaboração acadêmica entre UFPel, UFRGS e University of Southern California, a pesquisa publicada no Brazilian Journal of Psychiatry avaliou o impacto do sedentarismo nos índices de demência no Brasil. A análise combinou dados da PNS 2019, levantamentos sobre custos do tratamento da doença e estimativas do Global Burden of Disease.

Adotando como critério de inatividade a prática inferior a 150 minutos semanais de exercícios moderados a vigorosos, o modelo estimou os seguintes cenários até 2050:

  1. Cenário de eliminação total da inatividade: Prevenção de 569.548 casos de demência e economia de R$ 23,1 bilhões em custos de saúde.
  2. Cenário de intervenção mínima (10 minutos diários de caminhada/exercício moderado): Potencial de evitar 219.412 casos entre indivíduos previamente sedentários.
  3. Cenário de intervenção vigorosa (10 minutos diários de exercício intenso): Potencial de evitar 420.180 casos no mesmo grupo.

Nota: Os resultados consistem em estimativas populacionais de impacto potencial, não devendo ser interpretados como previsões de risco individual.

Dez minutos são suficientes?

Não existe evidência para dizer que 10 minutos por dia sejam uma dose capaz de prevenir demência em qualquer pessoa.

Por se tratar de uma simulação baseada em dados populacionais, o estudo brasileiro não realizou um ensaio controlado para avaliar prospectivamente a incidência de demência segundo diferentes níveis de atividade física. Portanto, suas conclusões representam a estimativa de um cenário hipotético sobre o impacto potencial do combate ao sedentarismo em larga escala

Ainda assim, existe uma mensagem prática importante: para uma pessoa completamente inativa, começar com pequenas quantidades de movimento pode ser mais interessante do que esperar conseguir cumprir imediatamente uma rotina ideal.

Por que o exercício pode estar relacionado ao cérebro?

A relação entre atividade física e saúde cerebral provavelmente envolve diferentes mecanismos.

O exercício regular melhora fatores cardiovasculares associados ao funcionamento do cérebro, como pressão arterial e saúde dos vasos sanguíneos. Também pode contribuir para o controle do diabetes, manutenção de um peso saudável, qualidade do sono e bem-estar psicológico.

Esses fatores importam porque o risco de demência não depende de uma única causa.

A OMS destaca justamente essa abordagem. Nas diretrizes atualizadas em 2026, a organização recomenda atividade física, alimentação saudável, abandono do tabagismo, redução do consumo prejudicial de álcool e controle de fatores como pressão arterial, colesterol e glicemia como parte das estratégias para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência.

Demência não é uma consequência inevitável do envelhecimento

A idade é o principal fator de risco conhecido para demência, mas envelhecer não significa necessariamente desenvolver a condição.

A OMS estima que mais de 57 milhões de pessoas vivam atualmente com demência no mundo e que ocorram quase 10 milhões de novos casos por ano. A organização também afirma que uma parcela relevante dos fatores associados ao risco pode ser modificável.

Isso não significa que todas as pessoas consigam evitar a doença a genética, idade e outros fatores não podem ser completamente controlados.A ideia da prevenção é reduzir riscos modificáveis, e não oferecer uma garantia individual.

Que tipo de exercício fazer?

A ciência não aponta uma única modalidade capaz de proteger o cérebro.

Caminhada, corrida, ciclismo, natação, dança, musculação e esportes coletivos podem contribuir para uma rotina fisicamente ativa. A escolha deve considerar condição física, preferências e capacidade de manter a prática.

Para quem está parado, começar com uma caminhada curta pode ser uma forma simples de aumentar o movimento.

As recomendações gerais para adultos continuam apontando para 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana.

Não é só exercício

Outro ponto importante das novas diretrizes da OMS é que a redução do risco de demência não depende de uma única mudança.

A organização recomenda uma abordagem que também envolve alimentação saudável, controle de pressão, colesterol e glicemia, não fumar, evitar consumo prejudicial de álcool, manter-se social e cognitivamente ativo e reduzir a exposição à poluição do ar.

Por isso, não faz sentido pensar em uma corrida ou caminhada como uma espécie de “seguro contra Alzheimer”.

O exercício é uma peça de um conjunto maior de comportamentos e cuidados ao longo da vida.

Começar pouco ainda pode ser importante

A principal contribuição do estudo brasileiro talvez esteja justamente nessa mudança de perspectiva.

Para quem não faz nenhuma atividade física, a primeira meta não precisa ser correr uma prova ou passar horas na academia. Pequenas quantidades de movimento podem representar o primeiro passo para uma rotina mais ativa.

O estudo não prova que 10 minutos diários evitarão demência. Mas mostra, por meio de uma projeção populacional, que reduzir a inatividade física em larga escala poderia ter impacto importante sobre a carga da doença no Brasil.

E essa conclusão está alinhada à recomendação atual da OMS: cuidar da saúde cerebral é uma tarefa que começa antes do aparecimento de problemas de memória e envolve hábitos mantidos ao longo da vida.

Consultora de wellness do Olimpíada Todo Dia. Profissinal de educação física, fundadora do Yoga Para Atletas, co-fundadora do Rachão Basquete Feminino, criadora de conteúdo do A Quadra É Delas e personal training

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