Seu smartwatch registra 8 mil passos, enquanto o celular ou o relógio de outra pessoa apresenta um número diferente para uma rotina parecida. Isso significa que algum dos aparelhos está errado? Não necessariamente. Uma nova revisão sistemática com meta-análise mostra que diferentes dispositivos podem produzir contagens distintas e que até o local onde o sensor é usado interfere no resultado.
O estudo, publicado em julho de 2026 no Journal of Sport and Health Science, reuniu 59 pesquisas que compararam simultaneamente pelo menos dois dispositivos durante a vida cotidiana dos participantes. Foram analisados equipamentos de 13 fabricantes, incluindo aparelhos voltados ao consumidor, pedômetros e sensores utilizados em pesquisas científicas.
A questão ganha importância à medida que relógios e pulseiras assumem espaço cada vez maior na rotina de quem pratica atividade física. O American College of Sports Medicine (ACSM) colocou a tecnologia vestível no primeiro lugar entre as tendências mundiais de fitness para 2026. Esses aparelhos acompanham dados como passos, frequência cardíaca, distância e velocidade e são utilizados tanto por iniciantes quanto por atletas.
Dois aparelhos podem mostrar números diferentes
Na nova análise, grande parte dos dispositivos de consumo e pedômetros apresentou diferenças inferiores a 10% entre si. Em muitos casos, a distância entre os resultados ficou abaixo de 700 passos por dia. Ainda assim, isso significa que números apresentados por aparelhos diferentes não devem necessariamente ser tratados como perfeitamente equivalentes.
O local do corpo em que o dispositivo é utilizado apareceu como uma das principais explicações para as diferenças.
Sensores de pesquisa colocados no punho ou no tornozelo chegaram a contabilizar entre 15% e 30% mais passos do que aparelhos posicionados no quadril. Na prática, a diferença ficou entre aproximadamente 1.000 e 2.200 passos por dia em algumas comparações.
Entre aparelhos de consumo usados no punho, como relógios e pulseiras, as diferenças foram menores: cerca de 3% a 15%, ou aproximadamente 200 a 1.000 passos por dia dependendo da comparação.
Isso acontece porque os aparelhos não observam literalmente cada passada. Sensores identificam movimentos e algoritmos transformam esses sinais em uma estimativa de passos. Tecnologia utilizada, posição do sensor e critérios adotados pelo fabricante podem, portanto, produzir resultados diferentes.
Isso significa que o smartwatch não é confiável?
Não. E existe uma distinção importante: a nova meta-análise compara as contagens produzidas por diferentes dispositivos em condições reais, e não determina qual aparelho apresenta o número absolutamente correto de passos.
Outras revisões que avaliaram relógios inteligentes diante de medidas de referência também mostram que a precisão depende do dado analisado. Uma meta-análise publicada em 2026 concluiu que a frequência cardíaca foi a variável mais estudada e, de maneira geral, a mais precisa entre as avaliadas. Para passos, distância, gasto energético e sono, os resultados foram mais variáveis.
Uma ampla revisão de estudos de validação de tecnologias vestíveis chegou a conclusão semelhante: o desempenho muda conforme a métrica, o modelo, a atividade realizada e as condições em que a medição acontece.
Por isso, um relógio pode ser bastante útil para acompanhar atividade física sem funcionar como instrumento de precisão absoluta para todas as medidas.
Como usar melhor a contagem de passos
Para quem utiliza passos como forma de acompanhar a própria atividade, a consistência tende a ser mais útil do que perseguir uma precisão impossível de verificar no cotidiano.
Usar o mesmo aparelho e observar a evolução ao longo das semanas permite identificar se a pessoa está se movimentando mais ou menos, mesmo que o número exibido não corresponda exatamente ao registrado por outro dispositivo.
A mesma lógica vale para comparações. Se uma pessoa terminou o dia com 9 mil passos e outra com 10 mil, mas elas utilizam relógios diferentes, a diferença de mil passos não significa necessariamente que uma tenha se movimentado mais.
O próprio ACSM destaca que tecnologias vestíveis podem auxiliar no automonitoramento, estabelecimento de metas e manutenção de hábitos, mas também alerta que a rápida evolução dos aparelhos muitas vezes acontece mais rápido do que sua validação científica.
Assim, o contador de passos funciona melhor como uma ferramenta para acompanhar tendências da própria rotina do que como um placar no qual cada passo precisa ser interpretado como uma medida exata.



