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Jogos Olímpicos de Inverno

De flanelinha à Olimpíada! A história de Victor Santos

Descoberto em projeto social, em apenas cinco anos, Victor Santos, jovem da comunidade São Remo, em São Paulo, vai de flanelinha a atleta olímpico

O atleta do esqui cross country do Time Brasil, Victor Santos, teve uma folga dos treinamentos neste domingo, dia 11. Em PyeongChang desde a quarta-feira, dia 7, para a disputa dos Jogos Olímpicos, o atleta descansou da rotina de uma das mais duras modalidades do programa olímpico de inverno e foi conhecer um pouco mais da Vila Olímpica. Morador da comunidade São Remo, na Zona Oeste de São Paulo, o atleta de 20 anos escolheu visitar o Muro da Trégua Olímpica (Olympic Truce Wall) – um monumento que simboliza o espírito de paz e trégua erguido dentro da Vila Olímpica.

Victor Santos é um dos jovens destaques do Projeto Social Ski na Rua, do atleta olímpico Leandro Ribela.  O projeto dá opção aos jovens da São Remo, favela localizada ao lado da Cidade Universitária da USP, de praticarem o roller ski – esquis com rodinhas muito utilizados em todo mundo pelos atletas de esqui cross country nos períodos sem neve.

Antes de ingressar no projeto, Victor lavou carros na rua, foi flanelinha na USP e trabalhou como empacotador de supermercado. Em menos de cinco anos em contato com o esporte, Victor chegou aos Jogos Olímpicos. Antes disso, ganhou o respeito primeiro dos pais e dos sete irmãos. Depois dos amigos da comunidade e mesmo dos alunos da USP. Agora anda de cabeça erguida, ainda com passos tímidos, pela Vila Olímpica de PyeongChang. Passos que o levaram a parar em frente ao Muro da Trégua Olímpica neste domingo.

O muro foi projetado pelo artista coreano Yi Je-seok, inspirado pelo Papa Francisco, que afirma que criar pontes, e não muros, encoraja as relações entre as pessoas. O monumento também é uma citação à Grécia Antiga, quando as guerras cessavam para que todos os povos pudessem viajar com segurança para os Jogos Olímpicos – prática chamada Trégua Olímpica.

Victor foi mais um entre os atletas olímpicos que assinaram o nome no muro – que ficará exposto permanentemente em PyeongChang, mesmo após os Jogos. Após assinar, fez questão de colocar as mãos em um grafite com o desenho da pomba da paz.

Antes de sua prova, os 15km estilo livre de cross country, que será realizado na próxima sexta-feira, dia 16, o jovem brasileiro está treinando duro, mas também está conhecendo, praticando e se encantando com os valores olímpicos.

De tudo o que viu até agora na Coreia, não tem dúvidas em afirmar que a Cerimônia de Abertura foi o que mais o emocionou. “Foi mais do que eu imaginava. Foi muito emocionante quando eu entrei com os outros atletas do Brasil e o público me aplaudiu. Quando acendeu a Pira Olímpica também foi demais. Sempre vi pela Tv e não acreditei que estava vendo ao vivo, na minha frente”, disse Victor. “Também me emocionei quando tocou aquela música do John Lennon”, afirmou, pedindo ajuda ao treinador Leandro Ribela para lembrar do nome da música – Imagine, o hino à paz que caiu como uma luva na festa de abertura dos Jogos.

Victor talvez não saiba, mas o secretário-geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), António Guterres, também esteve em PyeongChang para assistir à Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos.

Após a cerimônia, Guterres disse (em tradução livre): “O espírito olímpico é o mais importante símbolo da paz no mundo de hoje, onde conflitos impactam as populações dramaticamente. O espírito olímpico permite que as pessoas se encontrem, respeitem umas às outras e serve aos valores de entendimento mútuo, que são os elementos básicos para que a paz seja possível”.

Ao que o presidente do Comitê Olímpico Internacional, o alemão Thomas Bach, retribuiu: “Nossa ambição é contribuir para a realização dos valores que a ONU e o COI compartilham, que é fazer um mundo melhor e mais pacífico através do esporte. Sabendo que nós não criamos a paz, mas reconhecendo que temos a responsabilidade de contribuir pelo diálogo e pelo respeito e deixando claro que no esporte, de fato, todos são iguais”.

As frases e o desejo do português António Guterres e do alemão Thomas Bach ganham seu sentido mais amplo quando se encontram, na Coreia, com a história do garoto da carente comunidade paulista da São Remo, o atleta brasileiro Victor Santos.

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