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A mulher que comanda os homens do Rugby em Cadeira de Rodas

A técnica Ana Ramkrapes foi a primeira mulher a comandar uma equipe de Rugby em Cadeira de Rodas no Brasil, alcançou a Seleção Brasileira, busca medalha no Parapan de Lima e já pode comemorar o legado. Assista!

Ela comanda doze homens na modalidade do Rugby em Cadeira de Rodas. Ela é a treinadora da Seleção Brasileira. Ana Ramkrapes é a mulher que está à frente do projeto iniciado no fim de 2016, que já subiu dez posições no ranking mundial à frente da equipe. Com a conquista do bronze no Parapan da modalidade em 2017, Ana chega aos Jogos Parapan-Americanos Lima 2019. O nível da Seleção aumentou sob o seu comando, hoje é possível sonhar com a medalha de prata. Tudo isso não foi do nada. Assista ao vídeo!

“Conheci (a modalidade) na faculdade. Me apaixonei pelas batidas das cadeiras e comecei a conviver com eles. Comecei como estagiária e a gente resolveu montar um time independente. Então a gente sai da Universidade, desse meio universitário – a equipe – e a gente montou um time independente. E ali eu comecei como preparadora física, até por conta da minha formação em fisiologia do exercício e daí eu fui estudando e fui virando técnica. Até o momento que eu assumi como técnica mesmo,” contou Ana Ramkrapes em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia.

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A carreira da técnica também está diretamente ligada ao meio acadêmico: “Quando eu conheci o rugby eu estava fazendo graduação na Universidade Estadual de Campinas. Hoje, eu faço pós graduação no laboratório de fisiologia do exercício. Eu estudo a fisiologia do exercício de lesionado medular. Então eu tenho duas carreiras. A carreira de técnica e a carreira acadêmica. Eu sigo as duas. Atualmente minha vida é isso: carreira acadêmica, técnica da Seleção e técnica dos Gigantes (clube de Campinas). Eu dou aula em faculdade nessa área adaptada.”

Foto: Caio Poltronieri / OTD

Ana Ramkrapes não está sozinha. Em sua comissão técnica conta ainda com a coordenadora Samara Seiler; o preparador físico e mecânico Pedro Vital e, o seu braço direito, o auxiliar técnico Antonio Manoel Pereira. O seu processo à frente da Seleção começou com “desconfianças”: “Eu sentia diferença quando eu falava alguma coisa e quando o meu auxiliar técnico falava algo. Então parecia que o que ele falava tinha mais credibilidade. Eu precisei ficar provando o tempo inteiro que o que eu falava tinha fundamento, tinha fundamento seja científico ou seja fundamento de estudo. E aí o que eu tenho visto assim… Quando eu percebi que estava fazendo diferença foi quando um atleta falou assim: ‘ah, Ana, se você está falando é porque você estudou e você sabe’. Aí eu vi: agora eu conquistei, consegui conquistar a Ana profissional, não a Ana mulher.”

Foto: Caio Poltronieri / OTD

O caminho que Ana percorreu foi de muito trabalho em busca do que ela já pode considerar uma conquista: “Não é fácil. E não foi fácil no começo. É um processo de conquista. Infelizmente, pra mulher se destacar ela tem que estar sempre a frente de um homem. E é muito mais difícil, porque tem que ter o convencimento. A gente já parte de um pressuposto de ser mulher. Então entra numa inferioridade. Mas a gente conseguiu trabalhar muito bem e eu hoje tenho o respeito deles como profissional e como pessoa. Não é fácil pra quem está olhando de fora, mas para eles, pra dentro, eles já interiorizaram. Eu tenho o apoio do meu auxiliar técnico, que é homem, mas que ele sempre deu muito apoio. Hoje já é mais tranquilo. Hoje a gente conseguiu ter uma relação, mas pra quem olha de fora é estranho. Tanto que eu sou a primeira técnica mulher do Brasil, não teve nenhuma antes de mim. A primeira técnica da Seleção. E hoje a gente tem uma coordenadora técnica mulher. Então são conquistas, né? E pra eles hoje já é mais interiorizado.”

Hoje já é possível ver um legado. Além de Ana, outras mulheres comandam times pelo Brasil no Rugby em Cadeira de Rodas. É um processo de convencimento em prol do equilíbrio: “Eu acho que a gente está conseguindo chegar em um equilíbrio. Onde não exista mais a miscigenação entre homens e mulheres. Então é uma mulher que está no meio de homens. Trabalhando com homens. E comandando homens. O engraçado que a brincadeira que eles fazem é que: ‘tem que ser muito macho pra ser mandado por uma mulher’. Acho que isso é um ganho. Hoje, existem mais três mulheres técnicas de times no Brasil. Eu vejo o quanto eu consigo ir mostrando que dá para ir, não precisa se sentir acuada. A gente tem que ir conquistando o espaço. Ir conquistando o respeito deles como profissional. E alguns até brincam: ‘ah, a gente precisa de uma mulher pra comandar’. Eles me respeitam pela profissional, mas é um legado. As próximas que virão vão conseguir, não precisam recomeçar desde o começo.”

O Rúgby em Cadeira de Rodas

Foto: Caio Poltronieri / OTD

Mesmo com uma treinadora mulher e uma comissão técnica com mulheres, o Brasil não tem jogadoras em sua equipe principal. A técnica conta que na Seleção B já temos algumas mulheres e deve ser um processo natural que elas muito em breve estejam no time. O curioso do Rúgbi em Cadeira de Rodas é que ele não é dividido por gênero. Homens e mulheres jogam juntos em uma categoria mista. Estão aptos a disputar a modalidade atletas que sejam comprovadamente tetraplégicos, que são divididos em classes de acordo com a habilidade funcional.

“A gente tem algumas regras técnicas pra receber mulher em um jogo, por exemplo. Pra poder equilibrar a diferença entre um homem e uma mulher, a diferença fisiológica e biomecânica. É uma das poucas modalidades que pode comportar tanto homem quanto mulher. O que eu falo bastante é que quando uma mulher entra em quadra dificilmente ela vai ser esquecida. Porque geralmente quando entra assim a gente já sente que existe uma diferença quando entra uma mulher em quadra. E daí ela parte também da busca pelo respeito. Quando entra uma mulher da outra equipe eu falo: ‘olha, você vai bater nela igual você bate em um homem. Eu não quero nenhuma falta de respeito. Respeita o que ela tem pra oferecer, se você tratar ela como uma minoria, ela vai aproveitar disso.’ Acho que isso é bom porque faz parte desse processo de respeito da mulher. A busca pelo equilíbrio,” conclui Ana.

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