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Natação

Aline Silva e Etiene falam de tabus femininos no esporte

No webinar “Amigas no Esporte”, mediado pelo OTD, atletas debateram temas como pressão e pradão corporal, menstruação, preconceito e muito mais. Confira

Por muito tempo, as mulheres não tiveram voz. No esporte ou fora dele. Assuntos femininos foram considerador por muitas vezes, tabus. Mas hoje, essa realidade vem – felizmente – mudando aos poucos e assuntos femininos começam a ter espaço para serem debatidos. E foi exatamente o que fizeram as atletas Etiene Medeiros, da natação, e Aline Silva, do wrestling, em um webinar mediado pelo Olimpíada Todo Dia.

Intitulado “Amigas do Esporte”, o webinar tratou sobre assuntos como relação com o corpo, cobranças por um padrão estético, menstruação, preconceito racial e muito mais. Etiene e Aline falaram desses temas, relembrando experiências próprias ao longo da carreira e ressaltando assim a importância de se debater e naturalizar essas questões. Confira os principais destaques!

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‘Mulher-macho’

“Quando eu comecei a treinar, a família inteira, os amigos falavam que era coisa de homem, que eu ia virar ‘mulher-macho’. Então no começo, eu tinha o hábito de dar ‘migué’ nos meus treinos físicos para não deixar meu corpo ficar parecido com corpo de ‘homem’. Hoje eu penso como isso pode ter retardado um pouco o meu desenvolvimento na modalidade. Então o quanto as crenças populares são descarregadas na gente e influenciam na nossa forma de agir”, contou Aline Silva.

“Por que a estatística é tão dura com meninas na puberdade que abandonam o esporte mundialmente, não só no Brasil? Porque é a idade que elas começam a namorar e querem ser atrativas sexualmente. E se a sociedade fala que ser forte não é sexualmente atrativo, por que ela vai ficar naquele negócio que vai deixar ela forte? Por muito tempo, eu me cobrei de ser uma boa lutadora e ‘feminina’ ao mesmo tempo. Até eu entender que uma coisa não tem nada a ver com a outra”, completou.

“As meninas vão para academia e fazem só perna, porque braço forte é feio, não atrai algum relacionamento amoroso… A mulher no esporte é muito masculinizada. Eu também passei por isso, de ser chamado de corneto na escola, de ter os ombros muitos definidos e os meninos falarem que eu ia bater neles. E hoje a gente pode trabalhar isso e mostrar para meninas e meninos que é uma questão de bem estar, saúde. Tem que desconstruir desde pequeno”, concordou Etiene.

Menstruação

“Isso é um tabu no esporte e na sociedade. Eu acho que a menstruação é um ponto muito tenso, de divisor de águas, porque você muda todo o seu corpo. Eu menstruei durante uma competição e foi muito difícil, senti muita cólica… Acho que esse é um assunto que todo mundo deveria acolher, técnico, comissão, amigos, e não virar brincadeira, pelo contrário, porque é a coisa mais natural do mundo”, pontuou Etiene Medeiros.

+Menstruação no esporte: não é (e não deveria ser) tabu

“Vamos naturalizar e escancarar tudo. Aconteceu comigo no ano passado, em uma competição que todo mundo estava lutando de branco e na primeira luta vazou um pouco. E teoricamente eu precisava lutar a segunda luta com aquela mesma roupa. Cheguei para os dirigentes e falei que precisava de outro uniforme, porque estava menstruada e manchou. Assim mesmo, sem falar baixo, ou falar ‘naqueles dias’. Não, eu estou menstruada. Essa palavra muitas vezes soou como palavrão é, na verdade, um milagre da natureza. Não existe motivo algum para ter vergonha. É simplesmente um ciclo hormonal que a gente passa todos os meses e que não impossibilita a gente de nada”, completou Aline.

Dieta

“Nessa pandemia, eu conheci uma nova Etiene, uma Etiene muito ansiosa, com vontade de se libertar, mas presa, cuidando da saúde. E aí eu acabei engordando sete, oito quilos, algo que eu nunca passei no esporte. Eu aproveitei, muita coisa gostosa, mas ao mesmo tempo, eu tive que me ver como atleta, uma profissão que exige do meu corpo, da minha performance. Então eu tive que correr atrás, refazer minha alimentação. Foi muito difícil, porque eu nunca tinha feito uma dieta para emagrecer, e tive que me reeducar. Mas não é estética, é comprometimento com a minha profissão, meu objetivo”.

+Habito um corpo mulher, por Etiene Medeiros

“Eu também engordei 9 kg nesta quarentena, comecei a ver meu corpo diferente e pensar no pós-carreira. Para a gente é uma cobrança gigante. Eu olho meu prato de almoço e janta e vejo meu trabalho”, acrescentou Aline Silva.

Preconceito

“Eu sofri muito na escola, meu apelido era bombril, macumbeira, porque minha família sempre foi da umbanda. Eram coisas assim sutis e acho que esse é o maior problema de se enfrentar o racismo no Brasil. É muito velado. Esão coisas difíceis de relatar, porque elas muitas vezes acontecem, te traumatizam, mas você não consegue lembrar exatamente como foi. Você sente, você tem absoluta certeza do que viveu, mas como relatar algo que tanta gente naturaliza?”, questionou Aline.

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“Acho que o primeiro ponto para uma menina negra é quando você está no colégio e só anda de cabelo preso. O ‘bombril’ é a primeira relação de preconceito racial que a menina negra tem. A questão do cabelo, da estética do nariz… Até me arrepio, porque eu sofri e sofro racismo dentro e fora do esporte”, completou Etiene Medeiros.

Representatividade

Etiene Medeiros - Aline Silva
A importância da representatividade (Instagram/etimedeiros)

“Eu gosto de trazer exemplos da minha própria experiência, porque eu acho legal as meninas e meninos ouvirem os relatoss e se verem naquelas situações. São pensamentos que muitas vezes ficam no sub-consciente e se você não os concretiza, eles não tentam combater. Então acho muito interessante falar sobre esses assuntos. Então eu levo muito isso para a galerinha do Me Empodera (projeto social da Aline Silva), de questionar esses porquês”.

“Eu vejo que o problema é que a gente não aprendeu a perguntar por que e só aprendeu a aceitar o porquê não e o porquê sim. Então temos que questionar, porque eu vejo que eles acabam convivendo melhor por aceitar um ao outro. Quero que elas aceitem suas singularidades, e que com o tempo a gente não precise ver para ser. Que a gente não precise olhar para fora e que a representatividade esteja em cada um, concluiu.

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