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Antuérpia 1920 - Afrânio da Costa - Jogos Olímpicos

Olimpíada

Os desafios do Brasil para estar nos Jogos da Antuérpia-1920

A delegação brasileira superou inúmeros obstáculos, desde financeiros até um roubo, para fazer história na Bélgica

Antuérpia-1920 foi rechada de obstáculos e história para o esporte brasileiro (Divulgação/COB)

Os desafios do Brasil para estar nos Jogos da Antuérpia-1920

A história olímpica do Brasil começou nos Josgos da Antuérpia-1920. Apesar da conquistas das três primeiras medalhas do país no tiro esportivo, a delegação enfrentou diversos desafios, financeiros e técnicos, para chegar não só ao pódio, mas à própria Bélgica.

O primeiro desafio dos 21 brasileiros que compuseram a delegação na primeira edição dos Jogos Olímpicos após a Primeira Guerra Mundial foi angariar recursos que bancassem a travessia do Atlântico.

Naquela época, apesar de o COB (Comitê Olímpico do Brasil) já ter sido fundado, em 8 de junho de 1914, a entidade que regia os esportes no país era a Confederação Brasileira de Desportos (CBD). E ela decidiu não custear as despesas dos atletas, em parte, porque a prática esportiva ainda não era valorizada no país à época.

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“O sistema esportivo ainda não estava estabelecido, e o próprio Afrânio da Costa relata em suas memórias que a imprensa noticiou a viagem dos atletas como uma perda de tempo”, explica Carolina Araujo, gerente de Cultura e Valores Olímpicos do COB.

“Há relatos de que os embaixadores em Portugal e na Bélgica não haviam sido informados sobre a existência da delegação brasileira e, por isso, tiveram dificuldades em ajudar os atletas. Então estar em Antuérpia-1920 foi um teste para o espírito olímpico dos integrantes do Time Brasil e uma grande prova de superação”, completa.

Os obstáculos da viagem

Os 21 atletas de natação, polo aquático, remo, saltos ornamentais e tiro esportivo partiram, então, para a Europa no dia 1º de julho. Eles foram a bordo do navio Curvello, uma embarcação sem grande estrutura, cedida pelo Governo Federal. Como as cabines eram muito pequenas, os atletas brasileiros pediram autorização para dormirem no bar, o que foi aceito pelo comandante Reis Júnior. Mas, sob as seguintes condições: só poderiam se deitar lá quando o último cliente saísse do local e teriam que se levantar antes do café da manhã. E assim foi por quase um mês.

Mas o pior ainda estava por vir. Ao chegarem na parada na Ilha de Madeira, território português, os atletas souberam que a competição de tiro na Antuérpia-1920 começaria em 22 de julho. A chegada à Bélgica, no entanto, estava prevista para 5 de agosto.

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Assim, para conseguirem chegar a tempo, os atiradores Afrânio Costa, Dario Barbosa, Fernando Soledade, Sebastião Wolf, Demerval Peixoto e Mário Maurity desembarcaram em Lisboa e seguiram de trem até Antuérpia, com ajuda da Embaixada do Brasil em Portugal. Mas era um trem de carga, com vagões abertos, o que deixou os atletas expostos às condições do tempo.

Tiro Esportivo
As primeiras medalhas olímpicas do Brasil foram no tiro esportivo (Divulgação/COB)

E não parou por aí. Ao chegarem à cidade-sede dos Jogos, os atletas brasileiros descobriram ainda que as provas de tiro seriam realizadas em Beverloo, a 18km de Antuérpia. Para a sorte dos brasileiros, o início das provas foi adiado e eles puderam competir.

“Foi com esse estado de corpo e espírito que os nossos atiradores, sem dormir e mal alimentados, debilitados ainda mais pelo frio, chegaram a Beverloo, em 26 de julho, ao meio-dia”, escreveu Afrânio Costa em seu relatório oficial.

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A ajuda dos EUA

Como se não bastasse, os atletas brasileiros ainda foram roubados na chegada à Bélgica, perdendo munições, alvos e grande parte das armas. Sem tempo e recursos para conseguirem novos equipamentos, a atuação de Afrânio Costa, chefe da equipe de tiro, foi essencial. No dia em que chegaram a Berverloo, ele se aproximou dos estadunidenses que jogavam uma partida de xadrez e deu uma dica, que os campeões Lane e Bracken gostaram. Pela amizade, a delegação do Estados Unidos cedeu duas mil balas e 50 alvos naquela mesma noite.

“A inferioridade da única arma livre que possuíamos, em relação as aperfeiçoadíssimas dos nossos concorrentes, não nos permitia ter a menor esperança. Destaquei Soledade para atirar em 1º lugar: o seu resultado ruim atestou imediatamente a inferioridade da arma… Nesta ocasião o coronel Snyders, do exército americano e capitão da equipe de pistola livre disse-me: ‘Sr. Costa, esta arma não vale nada, vou arranjar duas para os senhores, feitas especialmente para nós pela fábrica Colt…’, escreveu Afrânio em seu relatório oficial.

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E assim, o ato e o espírito olímpico contribuiu para as primeiras medalhas olímpicas brasileiras da história. “Foi uma demonstração de solidariedade muito grande, um bom exemplo do que é o Olimpismo, do princípio da igualdade entre os competidores. É algo que o esporte ensina: o respeito ao adversário. E nada melhor do que ter um desempenho como o do Brasil para honrar uma atitude tão gentil”, explica Carolina.

O justo reconhecimento

Com as conquistas, a valorização do esporte no Brasil mudou de comportamento. A notícia das medalhas no tiro esportivo foi recebida no país com espanto e retratada pelos jornais como um grande feito. Os atletas foram, então, recebidos com festa e homenagem e o salão nobre do Fluminense foi palco de um encontro da equipe de tiro com o presidente Epitácio Pessoa, que entregou a eles uma placa.

“Era um justo reconhecimento pelo memorável feito! Inúmeras autoridades políticas e desportivas e uma multidão curiosa aguardavam ansiosamente o desembarque da delegação no cais do porto do Rio de Janeiro para conhecer e abraçar o campeão e o vice-campeão olímpico”, completou Afrânio, em seu relato.

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