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Histórias do esporte

 

Muito além das medalhas: a luta das mulheres por espaço no esporte



8M: o esporte feminino celebra conquistas históricas, mas ainda enfrenta desafios como desigualdade, machismo estrutural e menor investimento



Recorte do jornal O Imparcial, edição do dia 15 janeiro de 1941, na época que o futebol passou a ser proibido para mulheres. (Acervo Museu do Futebol)

O esporte sempre foi um território de sonhos. É nele que crianças aprendem a competir, a perder, a levantar e tentar novamente. Durante muito tempo, no entanto, esse território não foi aberto da mesma forma para todos. Para as mulheres, entrar em quadra, correr em uma pista ou disputar uma medalha significou, antes de tudo, desafiar limites que iam muito além do desempenho esportivo.

Durante grande parte do século XX, a participação feminina no esporte foi desencorajada, invisibilizada e até proibida. No Brasil, o futebol feminino ficou impedido por lei entre 1941 e 1979, sob o argumento de que seria “incompatível com a natureza feminina”. O decreto não apenas afastou gerações de meninas dos campos, mas reforçou uma ideia que atravessou décadas: a de que o esporte não era um lugar para elas.

Mesmo assim, elas encontraram maneiras de jogar. Jogaram em ligas improvisadas, em quadras emprestadas, sem patrocínio, sem transmissão e muitas vezes sem qualquer reconhecimento. A história do esporte feminino é, em grande parte, uma história de resistência silenciosa, feita por atletas que continuaram competindo mesmo quando o sistema parecia não ter espaço para elas.

Nas últimas décadas, esse cenário começou a mudar. O crescimento do esporte feminino tem sido visível tanto dentro quanto fora das arenas. A participação das mulheres em competições internacionais aumentou de forma significativa, e o protagonismo feminino se tornou cada vez mais evidente em grandes eventos esportivos. Nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, por exemplo, as mulheres foram maioria na delegação brasileira e conquistaram 13 das 20 medalhas do país, confirmando um movimento que já vinha sendo observado em ciclos olímpicos anteriores.

O interesse do público também acompanha essa transformação. Estudos internacionais indicam que cerca de 70% das pessoas assistem hoje a competições femininas, enquanto eventos como a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2023 alcançaram audiências próximas de dois bilhões de espectadores no mundo. Ao mesmo tempo, empresas e patrocinadores começam a enxergar o potencial de crescimento do esporte feminino: pesquisas recentes apontam que cerca de 80% das marcas planejam aumentar investimentos nessa área nos próximos anos.

Esses números revelam um momento importante de virada. Pela primeira vez, o esporte feminino passa a ocupar um espaço mais consistente no imaginário coletivo e no mercado esportivo. No entanto, os avanços não significam que a igualdade já foi alcançada.

No Brasil, as mulheres ainda praticam menos esporte do que os homens. Dados de pesquisas nacionais indicam que apenas cerca de 17% das mulheres adultas praticam atividades esportivas regularmente, enquanto entre os homens esse número ultrapassa 30%. A diferença é resultado de uma combinação de fatores que começam cedo: menos incentivo na infância, falta de oportunidades, menor acesso a estruturas esportivas e estereótipos de gênero que ainda influenciam escolhas e trajetórias.

Essa desigualdade também aparece nas posições de liderança e nos bastidores do esporte. A presença feminina em cargos de comando em confederações, federações e clubes ainda é pequena, e o número de treinadoras, gestoras e dirigentes mulheres permanece muito abaixo do ideal. A visibilidade na mídia esportiva também segue desigual, com menos cobertura dedicada às competições femininas e menor valorização de suas conquistas.

Mesmo assim, cada nova geração de atletas continua ampliando os limites do possível. As vitórias recentes, as medalhas olímpicas e o crescimento de diversas modalidades femininas mostram que o esporte feminino não é apenas uma tendência, mas uma transformação real e em andamento.

Essa transformação, no entanto, não depende apenas das atletas. O desenvolvimento do esporte feminino passa também pelo papel do público, da imprensa, das marcas e das instituições esportivas. Dar visibilidade às competições, acompanhar campeonatos, compartilhar histórias de atletas e discutir suas conquistas são formas concretas de fortalecer esse movimento.

Apoiar o esporte feminino também significa investir tempo, atenção e interesse. Significa torcer, assistir, levar meninas para praticar esportes e reconhecer o trabalho das atletas que dedicam suas vidas à competição de alto rendimento. Significa, acima de tudo, ouvir essas mulheres e garantir que suas vozes tenham espaço dentro e fora das arenas.

O dia 8 de março é um momento de reflexão sobre direitos, oportunidades, respeito e igualdade. No esporte, ele também é um lembrete de que cada medalha conquistada por uma atleta carrega uma história que vai muito além do pódio.

Ela carrega décadas de luta. Carrega o esforço de mulheres que jogaram quando ninguém assistia, competiram quando quase ninguém apoiava e insistiram quando parecia mais fácil desistir. O Dia Internacional da Mulher é um convite para lembrar dessas trajetórias, porque cada vez que uma menina entra em quadra hoje, ela não começa do zero.

Ela começa de onde outras mulheres lutaram para que ela pudesse começar.

Comunicadora esportiva, viaja seguindo esportes, apaixonada por rugby e futebol e tem como missão dar voz ao esporte feminino no Brasil e no Mundo.

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