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Curiosidades olímpicas

Jesse Owens calou Hitler e virou símbolo contra o racismo

Velocista negro entrou para história ao derrubar a teoria da supremacia ariana diante de Hitler nos Jogos Olímpicos de Berlim-1936, mas, mesmo depois de famoso, sofreu com a segregação racial nos Estados Unidos

Berlim 1936 Jesse Owens no pódio
Jesse Owens no alto do pódio do salto em distância nos Jogos Olímpicos de Berlim-1936 (Bundesarchiv Bild)

A Alemanha, de Adolf Hitler, organizou os Jogos Olímpicos de Berlim-1936 com a intenção de promover a ideologia do partido nazista e, principalmente, a supremacia da raça ariana. Coube, no entanto, a um neto de escravos nascido no Alabama, nos Estados Unidos, calar o ditador anfitrião ao ganhar quatro medalhas de ouro: Jesse Owens. As vitórias do velocista americano o tornaram símbolo da luta contra o racismo, mas não o impediram de sofrer com a discriminação em seu próprio país mesmo depois de ficar famoso.

Quando fez história em Berlim, Jesse Owens tinha apenas 23 anos. Ele colocou no peito as medalhas de ouro dos 100 m rasos, salto em distância, 200 m rasos e revezamento 4 x 100 m, com direito a quebra do recorde mundial nos dois últimos. O americano calou Hitler sem usar palavras, mostrando com seus resultados que a supremacia branca pregada pelo ditador não passava de balela.

Jesse Owens cruza a linha de chegada com folga para ganhar mais um ouro
(© Alamy/Interfoto)

Obviamente ver um negro vencer foi uma derrota para Hitler. Apesar disso, Jesse Owens negava que o ditador tenha se recusado a cumprimentá-lo. “Depois de descer do pódio, passei em frente da tribuna de honra para voltar aos vestiários. Ele me viu e me acenou com a mão. Eu, feliz, respondi a sua saudação. Jornalistas e escritores relataram sobre uma hostilidade que nunca existiu”, explicou em 1970.

RACISMO EM CASA

A grande mágoa de Jesse Owens aconteceu na volta para casa. Grande estrela dos Jogos Olímpicos, o velocista não foi recebido pelo presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, que fez uma recepção apenas a atletas brancos na Casa Branca. “Hitler não me esnobou, mas o presidente dos Estados Unidos sim. Ele não me mandou nem um telegrama”, reclamou.

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Apesar de ter desfilado em carro aberto pelas ruas de Nova York, Jesse Owens precisou sentar na parte de trás do ônibus que levava outros atletas americanos após o retorno ao país e também teve que entrar pela entrada de serviço em um hotel onde seria homenageado. Tudo por racismo!

Pouco após se destacar nos Jogos Olímpicos de Berlim-1936, Jesse Owens negou uma proposta para seguir a carreira na Suécia. As ofertas comerciais que surgiram nos primeiros meses após a volta para casa o seduziram. Mas as marcas logo esqueceram do negro que conquistou quatro medalhas de ouro sob o olhar incrédulo de Hitler.

LUTA CONTRA A FOME

Por causa da Segunda Guerra Mundial, Jesse Owens não teve a chance de disputar outras Olimpíadas, já que as edições de 1940 e de 1944 foram canceladas em virtude do conflito. O atleta começou a passar dificuldade. Chegou a trabalhar como ascensorista, frentista, zelador e até num playground porque não conseguia emprego melhor.

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Para sustentar a família, fazia exibições públicas apostando corridas contra motos, cachorros e cavalos. “As pessoas dizem que era degradante para um campeão olímpico correr contra um cavalo, mas o que eu deveria fazer? Eu tinha quatro medalhas de ouro, mas você não pode comer quatro medalhas de ouro. Claro que isso me incomodava, mas pelo menos era algo honesto. Eu tinha que comer”, explicou.

JESSE PALESTRANTE

No salto em distância, Jesse Owens ganhou uma de suas quatro medalhas em 1936

As coisas só começaram a melhorar na década de 50, quando as proezas de Jesse Owens voltaram a ser valorizadas. O dono de quatro medalhas de ouro olímpicas passou a dar palestras em convenções, chegando a faturar US$ 75 mil por ano. Como representante do presidente dos Estados Unidos, foi enviado aos Jogos Olímpicos de Melbourne-1956 e de Munique-1972.

Em 31 de março de 1980, aos 67 anos, Jesse Owens morreu de câncer. Nos últimos 30 anos de sua vida, o ex-atleta abusou do cigarro. Como homenagem, uma rua em frente ao Estádio Olímpico de Berlim, onde o americano viveu os grandes momentos de sua vida no atletismo, foi batizada com seu nome.

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