Siga o OTD

Curiosidades olímpicas

Protestos contra o racismo marcaram Jogos de 1968

Após morte do líder negro Martin Luther King, onda de protestos desencadeada nos EUA chegou até os Jogos Olímpicos de 1968

John Carlos e Tommie Smith jogos olímpicos méxico 1968 movimento negro Global Athlete
John Carlos e Tommie Smith protestam contra o racismo nos Jogos Olímpicos de 1968 (Angelo Cozzi/Mondadori Publishers)

O ano de 2020 tem muitas semelhanças com 1968. Há 52 anos, o mundo vivia a Guerra do Vietnã, enquanto hoje a luta do planeta é contra o coronavírus, que tem matado muito mais gente do que muitos conflitos armados. O movimento negro está nas manchetes hoje em dia depois da morte de George Floyd, vítima de uma violenta ação policial, que tem gerado uma escalada gigantesca de protestos não só pelos Estados Unidos, mas também por vários outros países. Algo parecido não era visto desde desde 1968, ano em que Martin Luther King foi assassinado. A onda de revolta contra o racismo alcançou os Jogos Olímpicos da Cidade do México e entrou para a história.

Antes de contar o que fizeram os atletas Tommie Smith, John Carlos, Lee Evans, Larry James e Ronald Freeman, todos americanos negros, é preciso contextualizar com o que acontecia nos Estados Unidos àquela altura.

MARTIN LUTHER KING

Assassinato de Martin Luther King gerou onda de protestos em 1968 (Getty Images)

Martin Luther King era líder do movimento negro, defensor dos direitos humanos e pacifista. Em 1964, chegou a ganhar o Prêmio Nobel da Paz por combater o racismo nos Estados Unidos através da resistência não-violenta. Nos seus últimos anos, aumentou seu ativismo contra a pobreza e contra a Guerra do Vietnã.

Apesar de idolatrado pelo povo e reconhecido internacionalmente, King sofria com suspeitas de envolvimento com o comunismo. Por isso, era constantemente investigado pelo FBI, a polícia Federal dos Estados Unidos. Em abril de 1968, foi assassinado por James Earl Ray, um atirador profissional, em Memphis, em circunstâncias misteriosas. Alegações de que Ray agiu em conjunto com agentes do governo persistiram por décadas depois do ocorrido.

PROJETO OLÍMPICO DE DIREITOS HUMANOS

De óculos escuros e boina, Harry Edwards participa de coletiva na Universidade de Harvard (Cary Wolinsky/The Boston Globe)

Após a morte de Martin Luther King, protestos tomaram conta de dezenas de cidades dos Estados Unidos. A luta contra o racismo estava a flor da pele na época, tanto que o OPHR (Projeto Olímpico de Direitos Humanos) foi fundado em outubro de 1967 pelo sociólogo Harry Edwards.

John Carlos e Tommie Smith foram os dois primeiros atletas a fazer parte do movimento, cuja meta original era protestar contra a segregação racial nos Estados Unidos, mas evoluiu para um objetivo mais global à medida que os Jogos Olímpicos se aproximavam.

+ SIGA O OTD NO YOUTUBE, NO INSTAGRAM E NO FACEBOOK

A OPHR ameaçou boicotar a Olimpíada da Cidade do México a menos que cinco condições fossem atendidas: que a África do Sul não fosse convidada para os Jogos por causa do apertheid; que Muhammad Ali tivesse restaurado o título de campeão mundial de boxe, que lhe foi retirado por causa de sua recusa em participar da Guerra do Vietnã; que o americano Avery Brundage deixasse o cargo de presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional); que mais treinadores negros fossem contratados, especialmente para os Jogos Olímpicos; e que o New York Athletic Club fosse boicotado por sua recusa em receber negros, judeus e portorriquenhos como associados.

A associação conseguiu que três das suas cinco reivindicações fossem atendidas. Assim como já tinha acontecido em 1964, a África do Sul ficou fora da Olimpíada, para a qual só voltaria em 1962, mais treinadores negros tiveram oportunidade em ligas americanas e esportes olímpicos e o New York Athletic Club foi mesmo boicotado. Mas Muhammad Ali não teve o título recuperado, apesar de ter conseguido em 1970 a volta de sua licença para lutar, e Avery Brundage mateve sua posição no COI, da qual só foi sair em 1972.

+ CONHEÇA O BLOG CURIOSIDADES OLÍMPICAS

Como nem todas as reivindicações foram atendidas, alguns atletas se recusaram a ir para a Cidade do México. Foi o caso de Lew Alcindor, que mais tarde ficou conhecido como Kareem Abdul-Jabbar, que se recusou a defender a seleção de basquete dos Estados Unidos nos Jogos de 1968.

“Se você vive em uma sociedade racista, precisa reagir e essa é a minha maneira de reagir. Nós não pegamos o inferno porque somos cristãos. Nós pegamos o inferno porque somos negros”, disse o então Lew Alcindor em entrevista da época à Sports Illustred.

BLACK POWER NOS JOGOS OLÍMPICOS  

A pressão foi grande contra o boicote dos atletas negros americanos aos Jogos Olímpicos. A pedido do COI, o herói olímpico Jesse Owens tentou publicamente convencer seus colegas a irem competir na Cidade do México. Por outro lado, líderes do movimento negro, entre eles Martin Luther King, era a favor do protesto.

No fim, atletas como John Carlos e Tommie Smith resolveram competir, mas encontraram uma maneira de se posicionar contra o racismo e serem vistos no mundo todo. Respectivamente medalha de ouro e bronze dos 200 m rasos do atletismo, ambos subiram ao pódio descalços e, nos primeiros acordes do hino dos Estados Unidos, ergueram o braço com o punho cerrado, a saudação-símbolo do movimento Black Power, vestindo luvas negras.

Os pés descalços no pódio significavam a pobreza dos negros americanos, enquanto o punho fechado era a força e a integração dos negros. A imagem se tornou a mais conhecida dos Jogos Olímpicos da Cidade do México, mas quase custou caro aos medalhistas. John Carlos e Tommie Smith foram expulsos da vila olímpica e Avery Brundage só desistiu de cassar as medalhas deles depois de muita negociação.

MAIS PROTESTOS

Americanos vão de boinas negras para o pódio dos 400 m rasos (Getty Images)

A atitude tomada por John Carlos e Tommie Smith não foi o único protesto contra o racismo nos Jogos Olímpicos da Cidade do México. Nos 400 m rasos, o pódio foi inteiramente formado por atletas negros americanos: Lee Evans, Larry James e Ronald Freeman. No momento da cerimônia das medalhas, eles não só repetiram a saudação do Black Power como também cobriram a cabeça com boinas negras para expressar o sentimento de que as palavras de liberdade do hino americano serviam apenas para os brancos.

Os cubanos do revezamento 4 x 100 m também seguiram o exemplo dos negros americanos. O protesto não foi feito no pódio, mas, na entrevista coletiva, os atletas caribenhos declararam que iriam enviar suas medalhas de prata para Stokely Carmichael, um dos principais líderes do movimento Black Power.

Mais em Curiosidades olímpicas