No mês passado, uma das principais surpresas quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou o programa de provas para os Jogos Olímpicos Los Angeles-2028 foi a inclusão de uma disputa de equipes mistas na ginástica artística. Como parte da Agenda 2020 e buscando uma maior equidade de gênero na Olimpíada, o COI tem incluído essas provas mistas em várias modalidades. Nesta semana, um possível formato para a competição mista em 2028 foi testado no Campeonato Europeu e teve relativo sucesso.
Para a Federação Internacional de Ginástica (FIG), a prova de equipe mistas ainda não está definida para 2028. A competição não fazia parte, por exemplo, do programa do Mundial de Ginástica Artística quando o COI anunciou a novidade. Mas na Europa, alguns formatos com homens e mulheres competindo juntos já eram conhecidos. A Swiss Cup, em Zurique na Suíça, acontece desde 1982 reunindo equipes com um homem e uma mulher. Já em 2022, a Federação Alemã incluiu no seu tradicional DTB Pokal uma disputa mista, com times formados por três homens e três mulheres em cada time.
Um dos formatos prováveis para os Jogos Olímpicos foi testado nesta quarta-feira (28) no Campeonato Europeu. A disputa seguiu um modelo parecido com o da Swiss Cup, com um homem e uma mulher competindo em três aparelhos cada – salto, trave e solo para elas e solo, paralelas e barra fixa para eles). As 16 melhores duplas, formadas com as notas da qualificação, avançaram para a prova de equipes mistas.
O primeiro grande teste
Na grande final, um verdadeiro jogo de estratégia. A cada rodada, cada ginasta faz uma apresentação em um aparelho de sua escolha. Os oito primeiros avançam para a segunda fase, onde se apresentam em um segundo aparelho. O terceiro aparelho é disputado apenas pelas quatro melhores duplas: as duas primeiras na disputa pelo ouro e as duas seguintes em um duelo pelo bronze.
Cada time fez a sua estratégia. A Noruega, por exemplo, foi a 12ª equipe das eliminatórias, com poucas chances de medalha. Então, eles optaram por colocar suas melhores provas no começo, para tentar uma vaga no top-8. E deu certo, com os noruegueses passando de fase, enquanto a Hungria, que tinha a quarta melhor dupla da qualificação ficou de fora após uma queda de Greta Mayer na trave.
Na rodada semifinal, a estratégia voltou a entrar em ação. A Itália optou por deixar a trave da medalhista olímpica Manila Esposito para a terceira prova da dupla do país. Com uma nota menor no salto, a equipe italiana foi ultrapassada por Alemanha e Grã-Bretanha que usaram suas provas mais fortes na final.
Na terceira rodada, a Itália conseguiu 27.966 (que seria suficiente para o ouro), mas teve que se contentar com o bronze, superando a França que teve 25.699 no duelo pelo terceiro lugar. Na briga pela medalha dourada, Alemanha e Grã-Bretanha deixaram barra fixa e trave para o final. E por apenas um décimo (25.566 x 25.466), Karina Schönmaier e Timo Eder levaram o título em casa, superando Ruby Evans e Jake Jarman.
Os aparelhos escolhidos
O formato para a Olimpíada ainda pode sofrer alterações. Mas a disputa do Campeonato Europeu foi boa e com emoção até o final para quem assistiu no ginásio ou pela TV. Sobre a escolha dos aparelhos utilizados, a resposta lógica é uma questão de espaço. Em grandes competições, os aparelhos costumam ficar em cima de um pódio, o que facilita a visão dos árbitros e do público. Nesse tipo de estrutura, precisa de uma arena muito grande para conseguir montar todos os aparelhos masculinos e femininos. Assim, entrou a trave pegou o espaço que costuma ser das argolas e do cavalo com alças e a barra fixa ficou no lugar das assimétricas do feminino. Uma possibilidade seria trocar a barra fixa pelo salto no masculino e utilizar as barras assimétricas no lugar do salto para as mulheres.
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Já sobre a quantidade de atletas na competição, gostei do formato em duplas. Se fosse algum modelo que usasse dois ou três ginastas por gênero, iria favorecer equipes mais tradicionais que teriam mais opções para usar na final. A disputa com apenas um homem e uma mulher permite a participação de países que tenham menos tradição, mas que tenham bons atletas na disputa individual. Caso o formato do Europeu fosse aplicado em Paris-2024, Filipinas teria classificado uma dupla para a final por exemplo.
E o Brasil?
Utilizando as notas dos Jogos Olímpicos de Paris, o Brasil teria uma equipe mista forte no ano passado. Se essa prova já existisse em 2024, nos moldes do Campeonato Europeu, Rebeca Andrade e Diogo Soares ficariam no top-5 da qualificação, com boas chances de medalha.
Rebeca Andrade seria o nome óbvio para ser a mulher da equipe mista do Brasil. Mas como a ginasta não pretende se apresentar mais no solo após o ouro em Paris-2024, ela estaria a princípio inelegível para a disputa, se for no mesmo formato do Campeonato Europeu. A próxima na lista seria Flávia Saraiva, que tem o salto, a trave e o solo justamente como seus melhores aparelhos e com notas competitivas para a prova mista.
Fizemos uma simulação usando notas de 2024 em competições internacionais (já que as principais ginastas do Brasil ainda não competiram em 2025). As melhores somatórias são as seguintes:
| Ginasta | Salto | Trave | Solo | Total |
| Rebeca Andrade | 15,100 | 14,500 | 14,200 | 43,800 |
| Flávia Saraiva | 14,100 | 14,500 | 13,633 | 42,233 |
| Jade Barbosa | 13,733 | 13,100 | 13,833 | 40,666 |
| Julia Soares | 12,800 | 13,800 | 13,600 | 40,200 |
| Andreza Lima | 13,333 | 13,500 | 13,033 | 39,866 |
| Hellen Silva | 12,950 | 12,900* | 13,400 | 39,250 |
*nota para prova com queda
Disputa acirrada pela vaga masculina
No masculino, uma série de ginastas do Brasil aparecem como candidatos. O próprio Diogo Soares, que seria a eventual dupla de Rebeca Andrade em 2024, tem um individual geral bem equilibrado. Caio Souza tem as barras paralelas e barra fixa como alguns dos seus melhores aparelhos, enquanto Arthur Nory já ganhou medalhas importantes na barra fixa e no solo e consegue segurar a barra nas paralelas. Dos atletas mais novos da seleção, um nome interessante é o de Bernardo Actos, que tem suas melhores notas exatamente no solo, barra fixa e nas barras paralelas.
Fizemos a mesma simulação para o masculino. Utilizamos notas de 2024 (e de 2023 para casos de atletas que não competiram em todos os aparelhos no ano passado). Vale ressaltar que o código masculino teve uma série de mudanças e em geral as notas de dificuldade caíram alguns décimos.
| Ginasta | Solo | Paralelas | Fixa | Total |
| Diogo Soares | 13,700 | 14,566 | 14,133 | 42,399 |
| Arthur Nory | 14,200** | 13,633** | 14,533 | 42,366 |
| Caio Souza | 13,200 | 14,566 | 14,366 | 42,132 |
| Yuri Guimarães | 14,166 | 13,766** | 13,600** | 41,532 |
| Bernardo Actos | 14,200 | 14,267 | 13,000* | 41,467 |
*nota para prova com queda / ** nota de 2023
No caso desta simulação, foram usadas notas de 2023 para o solo e as paralelas de Arthur Nory e as paralelas e barra fixa de Yuri Guimarães, já que eles não competiram nesses aparelhos nas competições internacionais do ano passado. Para Diogo Soares e Caio Souza, não há alteração no total usando notas de 2023, mas Bernardo Actos chega aos 43.050 pontos, utilizando os 14.500 da paralela e 14.350 da barra fixa que ele obteve na Copa do Mundo de Paris.