Siga o OTD

All-Around

 

Lenda da ginástica desafia o tempo e chega aos 50 anos



Ginasta mais velha em atividade no cenário internacional, Oksana Chusovitina chega aos 50 anos, com legado imenso para o esporte



Oksana Chusovitina na Copa do Mundo de ginástica artística em Cottbus, na Alemanha, em fevereiro de 2025
(Foto: Thomas Schreyer/LOC)

No dia 19 de junho de 1975, nasceu uma mulher que iria redefinir a ginástica artística moderna. A uzbeque Oksana Chusovitina se tornou uma das maiores ginastas da história. Nem tanto pelos seus resultados, apesar deles serem expressivos. E sim pela longevidade de sua carreira. Chusovitina desafiou a lógica de um esporte que por muitos anos foi dominado por adolescentes. Primeiro por amor a seu filho. Depois por amor ao esporte. Agora, ela se torna a primeira ginasta a competir em alto nível aos 50 anos.

De mães à adolescentes

No início, a ginástica artística tinha atletas adultas como suas principais estrelas nos Jogos Olímpicos. Larisa Latynina, a mulher com mais medalhas olímpicas da história, competiu até os 32 anos e foi uma das primeiras ginastas a disputar a Olimpíada já como mãe. Uma das suas maiores rivais era a tcheca Věra Čáslavská, dona do primeiro 10 da história da ginástica artística feminina. Ela tinha 26 anos quando se tornou bicampeã olímpica do individual geral e se aposentou de precocemente por se tornar persona non grata na Tchescolováquia após um protesto no pódio dos Jogos Olímpicos de 1968.

Mas a partir dos anos 1970, a situação mudou na ginástica artística feminina. Com a evolução do esporte e a introdução de elementos mais difíceis, a ginástica passou a ser dominada por adolescentes. Já em Munique-1972, a estrela era a jovem soviética Olga Korbut, que tinha 17 anos. Quatro anos depois, o mundo conheceu o talento de Nadia Comaneci, que aos 14 anos tirou o primeiro 10 da ginástica artística feminina em Jogos Olímpicos cravando o seu nome na história.

Início promissor

Oksana Chusovitina nos Jogos Olímpicos Barcelona-1992
Oksana Chusovitina nos Jogos Olímpicos Barcelona-1992 (Foto: Reprodução)

Oksana Chusovitina começou na ginástica artística em 1982, aos sete anos de idade. Aos 13, conquistou o título do individual geral da categoria júnior no Campeonato Nacional da União Soviética. Aos poucos, ela foi se tornando um nome importante da seleção soviética. Em 1990, Chusovitina ganhou dois ouros nos antigos Jogos da Amizade. E no ano seguinte, uma campanha de respeito no Mundial em Indianápolis, com ouro na competição por equipes e no solo e prata no salto.

+ SIGA O OTD NO YOUTUBETWITTERINSTAGRAMTIK TOK E FACEBOOK

Em Barcelona-1992, Oksana Chusovitina fez parte do time da Equipe Unificada, que juntava atletas das ex-repúblicas soviéticas que haviam sido separadas alguns meses antes com o fim da União Soviética. Ela ganhou o ouro na competição por equipes, foi sétima colocada no solo e décima na trave. No ciclo olímpico seguinte Chusovitina continuou no esporte, agora representando o Uzbequistão. Ela ganhou um bronze no salto no Mundial de 1993 e foi 10ª colocada no individual geral da Olimpíada de Atlanta-1996.

Amor nos Jogos Asiáticos

Em 1994, ela foi para os Jogos Asiáticos em Hiroshima, no Japão, onde conheceu Bakhodir Kurbanov, atleta da seleção uzbque de wrestling. Ele saiu da competição com um bronze, ela com dois. E alguns anos depois, os dois se casaram e tiveram um filho, Alisher, nascido em 1999. Chusovitina foi para sua terceira Olimpíada em Sydney-2000, onde não teve resultados expressivos. Mas nos anos seguintes, ela voltaria ao pódio de um Mundial, com uma prata no salto em 2001 e uma campanha incrível nos Jogos Asiáticos de 2002 em Busan, na Coreia do Sul, onde Oksana ganhou dois ouros e duas pratas.

Pelo Alisher

Antes de voltar de Busan, Oksana Chusovitina recebeu uma ligação preocupante de sua mãe. Alisher foi levado às pressas para um hospital após tossir sangue, com suspeita de uma pneumonia. Após Chusovitina e Kurbanov chegarem a Tashkent, eles descobriram o diagnóstico de leucemia do filho. Os médicos disseram que o menino de apenas três anos poderia morrer caso não começasse a quimioterapia dentro de um mês.

Na clínica uzbeque, Alisher disputava pelo tratamento com vários pacientes. Chusovitina recebeu a recomendação de levá-lo a um hospital em Colônia, na Alemanha. Mas o tratamento era caro. O casal de atletas vendeu um apartamento e dois carros, mas o dinheiro ainda não era suficiente. Assim veio a proposta de um clube em Colônia para que ela competisse, com eles cobrindo parte do valor do tratamento. O restante do dinheiro veio de doações de pessoas do mundo da ginástica e de um empresário próximo a Kurbanov.

Como o tratamento era longo, Oksana Chusovitina decidiu continuar competindo para ajudar a manter a família na Alemanha. Nesse meio tempo, veio seu primeiro título mundial no salto em 2003 e sua quarta Olimpíada em 2004. Em seguida, veio uma proposta da Federação Alemã de Ginástica. Eles fizeram uma oferta para que Chusovitina passasse a competir pelo país, que eles ajudariam a bancar o tratamento de Alisher.

Com o apoio das autoridades esportivas da Alemanha, Alisher completou o tratamento e se recuperou. E aos 33 anos, Chusovitina chegou à sua quinta Olimpíada em Pequim-2008. Uma veterana, 12 anos mais velha que qualquer uma das suas rivais, fez dois dos saltos mais difíceis da final e ganhou uma medalha de prata.

Quebrando barreiras

Após os Jogos de Pequim, Oksana Chusovitina chegou a anunciar sua primeira aposentadoria para depois do Mundial de 2009. Mas ela seguiu o restante do ciclo e fez mais uma final olímpica de salto em 2012. No ciclo olímpico seguinte, Chusa voltou a competir pelo Uzbequistão, fazendo sua sétima Olimpíada, com mais uma final, no Rio-2016. Ela surpreendeu ao tentar saltar o Produnova, o salto mais difícil da ginástica artística feminina aos 41 anos.

Oksana Chusovitina se apresenta no solo no evento teste Rio-2016
(Foto: FIG Media)

Em Tóquio-2020, ela estendeu o recorde de ginasta mais velha dos Jogos Olímpicos, competindo aos 47 anos. Ela competiu com um collant com as cores da bandeira do Uzbequistão com o número 8, para marcar sua oitava e, por enquanto, última Olimpíada. Ela iria parar de vez após Tóquio, mas decidiu voltar para tentar uma medalha nos Jogos Asiáticos de 2022. Mas por uma diferença pequena, ela ficou na quarta posição.

Chusovitina tentou se classificar para Paris-2024, mas não conseguiu uma vaga olímpica. Ela segue competindo em alto nível e quer ir para Los Angeles-2028. Para celebrar seu aniversário de 50 anos, a FIG realiza nesta semana uma etapa de Copa do Mundo em Tashkent, capital do Uzbequiestão. Para variar, Oksana Chusovitina está na final de salto, competindo com ginastas menores de idade. E olha que esse ano ela já tem duas medalhas em Copas do Mundo, incluindo um ouro.

Oksana Chusovitina no centro do pódio da Copa do Mundo de Baku 2025 - Ela ganhou o ouro aos 49 anos
Oksana Chusovitina no centro do pódio da Copa do Mundo de Baku em março desse ano (Foto: Divulgação/AGF)

Inovação até no aparelho que detesta

Aos 50 anos, Oksana Chusovitina tem um currículo de respeito. Um ouro e uma prata em Jogos Olímpicos, 11 medalhas em Mundiais (três ouros, quatro pratas e quatro bronzes), oito medalhas em Jogos Asiáticos e quatro medalhas no Campeoanto Europeu. A uzbeque também tem cinco elementos no código de pontuação. O mais famoso e que todo mundo conhece pelo seu nome é o Tsukahara Esticado no solo, de valor H, um dos maiores no código de pontuação. Muita gente inclusive chama o elemento de Chuso (apesar da ginasta preferir Chusa como apelido).

Outro elemento que é sua marca registrada é o Chusovitina 2 do salto. Ele consiste numa reversão para frente seguido de mortal esticado com pirueta e meia. Com valor de dificuldade 5.4, é um dos mais difíceis da atualidade. E apesar de já ter dito que “odeia as barras assimétricas”, Chusa ainda tem dois elementos com seu nome no aparelho.

Oksana Chusovitina com placa escrito em inglês "eu não gosto das barras"
“Eu não gosto das barras”, brincou a ginasta em uma exibição de gala (Foto: Reprodução/Youtube)

Um legado além do ginásio

Além das suas medalhas e seus elementos, Oksana Chusovitina tem como seu principal legado na ginástica a sua longevidade. Várias atletas se inspiram na sua história para voltar a competir depois de se tornarem mãe. Além disso, Chusa competindo para além dos 30 anos, ajudou a fazer com que mais ginastas competissem por mais tempo. A média de idade dos pódios dos Jogos Olímpicos e Mundiais aumentaram na ginástica artística feminina. Nas últimas duas Olimpíada, tivemos ginastas balzaquianas ganhando medalhas como a italiana Vanessa Ferrari em 2020 e Jade Barbosa em 2024.

Com toda sua história, Oksana Chusovitina está para sempre com seu nome marcado na ginástica artística feminina. Mesmo ainda tendo um bom nível, classificar para os Jogos Olímpicos de Los Angeles será uma tarefa difícil para a uzbeque. Mesmo assim, é muito bom ver ela fazendo o que gosta e se divertindo com a ginástica. Feliz aniversário, Chusa!

Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e viciado em esportes

Mais em All-Around