É comum vermos atletas, treinadores e, por que não, torcedores sem voz nas fases finais dos torneios. Durante os Jogos Pan-Americanos Júnior Assunção-2025, em que o espírito de equipe fala – ou grita – ainda mais alto, testemunhamos muitos atletas e técnicos que terminaram suas campanhas quase sem conseguir falar com a imprensa. O Olimpíada Todo Dia conversou com Luana Curti, fonoaudióloga especialista em voz e terapeuta da comunicação, para entender o papel da voz no corpo e na performance de um esportista de alto rendimento.
Giorgio Fumagalli, inclusive, acredita que a falta de voz prejudicou sua performance no Pan Júnior. Ele passou os dois primeiros dias ajudando na torcida pelos colegas da esgrima do Time Brasil e, quando disputou o florete masculino no último dia de competição do esporte, se viu sem voz e caiu nas oitavas de final. “Hoje eu tentei gritar e passei até vergonha. Isso foi uma coisa que me prejudicou, eu sempre gosto de gritar. Daí, quando eu fui gritar, não saiu nada”, disse o atleta do florete ao Olimpíada Todo Dia, após sua participação nos Jogos Pan-Americanos Júnior, em Assunção. Ana Beatriz Fraga, bronze no sabre feminino, foi outra que deu entrevista já praticamente sem voz após os três dias de competição da esgrima.
Voz é músculo, lembra especialista
“A primeira coisa que o atleta pode lembrar é que voz também é músculo. Para produzir a voz, precisamos de músculo. E, assim como ele tem disciplina para cuidar do seu treino muscular, do treino corporal, ele vai precisar também acrescentar um treino vocal. Existem vários exercícios, tanto de fortalecimento, de respiração, quanto de trabalho de resistência das pregas vocais, e trabalho de ressonância”, conta Curti, mestra em Artes Cênicas e cofundadora do Voz do Ser, “um instituto de comunicação com propósito, autoconhecimento e mudança de mentalidade”, em suas palavras.
Luana afirma que não existe um único exercício vocal que todos os atletas possam fazer para melhorar. Isso acontece porque cada atleta tem uma fisionomia distinta e, portanto, exige um exercício personalizado. “Eles melhoram a projeção de voz e tiram o esforço da musculatura, da laringe, do pescoço, da garganta e entrega o esforço mais para o core, para a região do abdômen, melhorando a projeção, a resistência e a potência”, explica.

Os músculos da voz, deste modo, assim como quaisquer outros, precisam de recuperação muscular para evitar a fadiga. Por isso, é importante que o atleta ou qualquer outro profissional que usa voz, como os treinadores, aprenda a aquecer e desaquecer a voz.
“O grito é pra deixar sair aquela raiva, aquela pressão, aquela tensão” disse Fumagalli. “Daí quando tudo não consegue soltar, tu fica… isso vai te pegando, te acumulando. Então sim, certamente me fez falta gritar um pouquinho” completou ele, em Assunção.
Emocional é fundamental para a voz
Outro aspecto fundamental para atletas e profissionais que utilizam regularmente a voz é o fato de que o estado emocional pode influenciar diretamente o seu funcionamento, assim como acontece com qualquer outro músculo do corpo. “O emocional é o que rege a nossa voz, a nossa performance. Então se você está com um nível de cobrança muito alto, se sentindo sobrecarregado, pressionado, é claro que o seu corpo vai responder a isso. Então, é a mente que comanda o corpo”, ressalta Luana Curti.
Além de o psicológico interferir na voz, um problema vocal também pode deixar a pessoa mais nervosa ainda, agravando a situação. “Toda vez que alguém entra em sobrecarga, em pressão, em tensão, em autocobrança, o músculo responde. E aí a sua voz não sai como de costume. Você cansa muito mais do que precisaria, porque você entra em cansaço por um estresse e por um desequilíbrio mesmo emocional”, acrescenta a profissional.
Mas a voz também pode ser uma aliada do atleta, ajudando a resgatar uma emoção que estava adormecida, como contou Leonardo Iizuka, após conquistar o ouro por equipes, ao fim de uma maratona de 25 jogos em seis dias.
Leo Iizuka e Felipe Arado buscaram no grito viradas importantes
Leonardo Iizuka e Felipe Arado conquistaram duas medalhas cada, incluindo um ouro na dupla masculina, e chegaram muito cansados para as disputas por equipes. Felipe Arado, inclusive, estava sem voz ao conversar com a imprensa. No primeiro dia de equipes, um já cansado Iizuka precisou virar o seu confronto inicial, contra Ramón Villa, da República Dominicana.
“Foi um dos jogos que eu mais gritei na minha vida, porque foi contra o cara que eu quase perdi, mas ganhei bem apertado, na semifinal do individual. Eu estava sentindo pouca energia de mim mesmo, não estava conseguindo impor uma energia boa do jogo. Então, eu senti que eu precisava tirar energia de algum lugar. Eu sei que gritar desgasta bastante, mas era o único jeito de eu poder virar essa chave para poder conseguir estar mais ativo no jogo”, disse Iizuka que saiu com uma vitória por 3 a 1, e terminou o torneio por equipes com mais um ouro.
Luana Curti conta que no Voz do Ser, os profissionais da voz acabam trabalhando intensamente esse aspecto, inclusive com profissionais do esporte. Ela reitera que o trabalho vocal pode auxiliar muito os atletas a otimizar seu desempenho. “A gente fala que expressão é colocar pressão para fora, e a voz é uma expressão. A gente pode olhar a voz como uma resultante, então a sua voz vai sair de acordo com os seus sentimentos”, completou.