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Tóquio 2020

Após muita luta, mãe e filha realizam sonho de disputar juntas a Paralimpíada

A mãe, Jane Karla, é do tiro com arco, enquanto a filha, Lethicia Lacerda, é do tênis de mesa. Elas estão juntas em Tóquio para a disputa da Paralimpíada

JANE KARLA E LETHICIA LACERDA JUNTAS NA VILA DOS ATLETAS JOGOS PARALÍMPICOS TÓQUIO 2020

TÓQUIO – Imagine a emoção de disputar um grande evento mundial como a Olimpíada ou a Paralimpíada? E o quanto esse sentimento se multiplica se isso for feito ao lado da mãe ou da filha? A resposta quem pode nos dar é Jane Karla, do tiro com arco, de 46 anos, mãe de Lethicia Lacerda, do tênis de mesa, de 18. Ambas se classificaram para os Jogos Paralímpicos e estão juntas na Vila dos Atletas em Tóquio.

“É a realização de sonho mesmo. Não tem jeito! Não sei nem o que falar”, diz Jane Karla, atleta do Time Nissan, que participa pela quarta vez dos Jogos Paralímpicos. As duas primeiras foram no tênis de mesa, mesma modalidade da filha, em Pequim-2008 e Londres-2012. Depois, ela mudou de esporte para representar o país na Rio-2016 e agora em Tóquio-2020 no tiro com arco. Já Lethicia Lacerda vive sua primeira experiência paralímpica. “Só de estar numa Paralimpíada, a minha primeira, tão nova já é um motivo de muito orgulho para mim. Eu sou a mais nova da minha delegação, do tênis de mesa, e é muito doido saber que eu posso ter tanto tempo pela frente, tantas outras Paralimpíadas pela frente”, espera a garota.

Jane Karla e Lethicia Lacerda juntas na Vila dos atletas durante os Jogos Paralímpicos de Tóquio
Mãe e filha se divertem juntas na Vila dos Atletas dos Jogos Paralímpicos de Tóquio (Arquivo pessoal)

Chegar aos Jogos Paralímpicos foi um grande desafio para as duas, especialmente por conta das dificuldades geradas pela pandemia. Por isso, quando elas se encontraram pela primeira vez na Vila dos Atletas foi um momento de grande emoção. Elas estavam separadas há mais de um mês, já que vivem em Portugal e a preparação final do tênis de mesa foi feita em São Paulo, no CT Paralímpico. Ambas fizeram a aclimatação em Hamamatsu, que fica a 250 km de Tóquio, mas lá foi praticamente impossível se encontrar por conta das medidas de segurança sanitária.

+Assista ao vivo: tênis de mesa nos Jogos Paralímpicos de Tóquio-2020

“Lá em Hamamatsu não tinha caído a ficha de que eu estava com a minha mãe porque eu não estava realmente com a minha mãe. O único encontro que a gente teve lá foi por cinco minutos num momento em que eu estava entrando na academia e ela saindo”, conta Lethícia, que veio para Tóquio com a delegação do tênis de mesa dois dias antes da chegada da mãe.

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“Depois minha mãe chegou também, foi aí que começou a cair a ficha de que ela estava aqui comigo. Aí viemos na zona internacional, que é como um shopping. No primeiro dia, como ela não tinha treino, foi bem tranquilo. Eu fui treinar de manhã, cheguei e a gente ficou o dia inteiro juntas. Fomos em todas as lojinhas, trocamos muitos pins, compramos também umas coisinhas, mascotes. Fiquei muito feliz com minha mãe me incentivando a comprar para ficar de lembrança da minha primeira Paralimpíada. Mas eu dei uma segurada senão a consciência pesa”, brinca Lethícia Lacerda. “Foi muito mágico! Fomos juntas no restaurante, comemos várias coisinhas novas juntas, conversamos muito sobre psicológico. Tudo é muito diferente. Então, para me adaptar melhor, é muito bom ter minha mãe comigo”, acredita.

Lethicia Lacerda
Lethicia Lacerda perdeu para Aida Dahlen, da Noruega, na estreia da Paralimpíada (Wander Roberto/CPB)

Realmente, ter a experiênca de Jane Karla ao lado dela é uma grande vantagem para Lethicia Lacerda, que estreou na madrugada desta quarta-feira nos Jogos Paralímpicos e foi derrotada pela norueguesa Aida Dahlen por 3 a 0 com parciais de 11/6, 11/8 e 11/5. Ela volta a jogar na quinta-feira às 22h20 no horário de Brasília contra a chinesa Huang Wenjuan e precisa vencer para continuar com chances. Mas ela sabe que estar em Tóquio já é uma vitória gigantesca. Por causa da pandemia, em 18 meses, ela só conseguiu fazer dez sessões de treino em Portugal. “Esse período que eu passei em São Paulo ajudou muito e consegui retomar. Não vou dizer que é a minha melhor época porque eu já estive melhor no tênis de mesa, mas também não é a pior. De qualquer jeito, se a Paralimpíada fosse em 2020, eu estaria muito melhor preparada”, garante. “Ela teria chance de medalha”, aposta a mãe.

PERRENGUES DA PANDEMIA

Antes da pandemia, Jane Karla e Lethícia Lacerda moravam em Sintra, que fica a cerca de 30 km da capital Lisboa. Ambas estavam focadas em se preparar para a Paralimpíada e eram treinadas por Joachim Gogel, marido de Jane e padrasto de Letícia. Tudo mudou, no entanto, com a Covid-19. Depois de meses fechados sem poder fazer as atividades, a família teve que tomar uma decisão.

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A aposta foi mudar para o interior, para Almeirim, que fica a cerca de 1h30 de carro de Lisboa. Lá, Jane Karla comprou um terreno, onde conseguiu montar um campo para treinar tiro com arco e uma casa-móvel, daquelas com rodas que podem ser rebocadas de um lugar a outro, para morar.

Jane Karla no campo que montou para treinar durante a pandemia em Almirim, interior de Portugal (Arquivo pessoal)

“Eu queria ter conseguido ajudar mais a Lethícia para ela não ficar tanto tempo parada. Se eu tivesse condições de fazer um galpão gigante, eu faria. Quando você está no esporte e tem um sonho, você tem que correr atrás dele. Eu tentei de toda forma tentar ajudar, mas eu não consegui. A única coisa que consegui foi meu campo que é muito mais simples, mas foi muito caro porque eu tive que comprar o terreno, comprar uma casinha móvel, que foi o que eu consegui porque a de madeira era impossível fazer porque ficava muito caro e dentro da casinha não dava para colocar uma mesa”, explica Jane Karla.

+GUIA DOS JOGOS PARALÍMPICOS

No campo montado no terreno, Jane Karla conseguiu ter a distância necessária para realizar seus treinos de tiro com arco, enquanto Lethicia Lacerda, se quisesse continuar a treinar, teria que pegar três conduções para chegar a Sintra. Isso quando o clube em que ela fazia suas atividades voltasse a abrir, já que, quando a família tomou a decisão de mudar para o interior, tudo continuava fechado em Portugal.

“A questão maior é que eu estava morando muito longe do meu local de treinamento. Teve o problema das coisas ficarem abrindo e fechando por causa da pandemia e também do fato de eu ter que pegar três transportes públicos para ir. Demorava muito para chegar, além de todo o contato com as pessoas no meio da pandemia. Então, foi um momento muito ruim mesmo. Além disso, eu teria que andar muito depois dos treinos e a minha deficiência me causa dor quando eu estou cansada. Imagina eu treinar, sair do treino cansada, joelho inchado e ainda ter que andar pra ir para casa? Juntou tudo e não deu certo”, explica Lethicia.

CURTIÇÃO E ESPERANÇA

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, as duas estão curtindo muito o tempo que estão vivendo juntas em Tóquio. Se Lethicia Lacerda já fez sua estreia, Jane Karla vai competir na sexta-feira a segunda. A ansiedade é grande porque são quase dois anos sem grandes competições internacionais. A última de grande importância foi o Mundial de 2019, quando ela ficou em sexto lugar.

“Eu tava com muita saudade desse clima de competição, de sentir essa adrenalina. Eu lutei muito para estar aqui e me preparei da forma como foi possível. Espero dar meu melhor e que venha um bom resultado, quem sabe com uma medalhinha”, sonha Jane Karla.

Já Lethicia Lacerda, que se inspira na mãe, tem certeza que Jane Karla pode chegar no pódio e deixou um conselho para ela. “Eu acho que senhora é muito capaz e mesmo que às vezes você não se sinta capaz, você tem que tentar bloquear isso porque você é incrível, você batalhou muito para estar aqui. Então, vive a sua história e faz a sua história”. E que essa história seja coroada, se possível, com uma medalha!

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