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Paralímpicos

Saindo da mitologia, atletas falam da rotina no esporte paralímpico

Vitor Tavares, Evelyn Oliveira e Edwarda Dias descartam heroísmo presente na visão do mundo sobre o esporte paralímpico

Sem heróis, apenas atletas de esporte paralímpico
Trio de atletas mostra o porque não aceitam o rótulos de heróis (Montagem OTD)

Hércules, Perseu, Aquiles e Teseu. Segundo a mitologia esses eram alguns dos heróis da Grécia antiga. Se olharmos o dicionário, uma das definições de herói é “filho de um deus, um semideus. Que faz tarefas impossíveis”. Se pensamos sobre o esporte paralímpico, muitos atletas são chamados dessa maneira, apesar de não concordarem. 

Independente da modalidade e se a pessoa está no esporte convencional ou paralímpico, os desafios estarão presentes na vida do atleta. Para tentar entender melhor essa relação e a vida sem heroísmo, e sim profissionalismo, a reportagem do Olimpíada Todo Dia entrou em contato com os paratletas Vitor Tavares, do parabadminton, Edwarda Dias, do vôlei sentado, e Evelyn Oliveira, da bocha.

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Nas conversas sobre o assunto com o trio, cada um da sua maneira, mostrou um pouco a chateação com o pensamento de que por ser atleta paralímpico já é algo que faz com que eles sejam considerados heróis. Segundo os três, isso se deve por um único motivo. “Os desafios são os mesmos do esporte convencional. Não sou herói, sou atleta de alto rendimento de uma modalidade paralímpica”

Vitor Tavares, do parabadminton mira os Jogos Paralímpicos e o topo do mundo
Vitor Tavares, do parabadminton mira os Jogos Paralímpicos e o topo do mundo (Foto: Washington Alves/EXEMPLUS/CPB)

Se eu sou, eles também são

Classificado para os Jogos Paralímpicos de Tóquio, medalha de ouro nos Jogos Parapan-americanos, bronze no Mundial de parabadminton e anão. Vitor Tavares é direto ao falar o que pensa sobre ser chamado de herói.

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“Eu não vou mentir, é bom ser chamado de herói, ser conhecido como herói por fazer o que eu faço. Mas assim, se eu sou herói por ser atleta de alto rendimento, o Messi é, o Cristiano Ronaldo é, o Bruninho do vôlei é também. Todo atleta, independente de ser olímpico e paralímpico, é herói”. 

“Se eu sou herói, o Messi, Cristiano Ronaldo e Bruninho também são”

Vitor sabe que o olhar para o esporte paralímpico e a forma como ele é tratado pelas maioria das pessoas é diferente. Por conta do cenário do país, o desporto ultrapassa as barreiras esportivas.

Vitor Tavares, ouro no Parapan de Lima
Vitor Tavares, com a medalha de ouro no Parapan de Lima (Divulgação CPB)

“Eu sei que o esporte paralímpico é visto como inclusão e entendo a necessidade disso no Brasil. Mas, no alto rendimento, quando falamos dos melhores do mundo e de Jogos Paralímpicos, tem que ser visto e tratado como atleta. Brincam comigo que eu jogo contra anão, mas esquecem que eu também sou. Todos tem condições parecidas, não somos heróis por sermos atletas paralímpicos”.

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A cadeira não me limita

Campeã paralímpica em 2016 na bocha, Evelyn Oliveira tem uma visão parecida com a de Vitor Tavares. Para ela, o fato de ter que viver em uma cadeira de rodas não dá o direito dela ser chamada de heroína. “A cadeira não me limita. Existem pessoas com muito mais dificuldades na vida do que eu e que vencem da mesma maneira. Olhar e ver somente a cadeira de rodas é onde está o erro”. 

Para a atleta da bocha, a questão do não heroísmo é clara na cabeça dela por um simples motivo. “Eu venço os desafios que eu tenho na minha frente, como qualquer atleta e até brasileiro comum. Me orgulho de poder falar que sou atleta profissional e é isso que eu sou”.

O que eu quero ouvir

“O que eu ouço na rua é ‘tadinha, ela não tem uma perna’; ‘que heroína, venceu os obstáculos da deficiência’. Na verdade, eu queria escutar. ‘É você que é a Edwarda, atleta de voleibol sentado que joga na seleção brasileira, medalhista Paralímpica e Parapanamericana?’ Não quero ser conhecida por conseguir fazer coisas que todos fazem no seu dia a dia, quero ser conhecida pelas medalhas que tenho, pela história que construí, por quem sou como atleta.”

Edwarda Dias
Duda começou no vôlei sentado aos nove anos e hoje também joga o parabadminton (arquivo pessoal)

A fala acima é de Edwarda Dias. Para ela, o erro não está em pensarem ou acharem que só por conseguir viver do esporte os atletas paralímpicos são heróis. De acordo com Duda, o que mais incomoda nesta ideia é o que está por trás delas. 

“Os obstáculos são os mesmos para todos. As dificuldades são iguais para todos, mas olham para nós do paralímpico com dó. Não somos coitados e não somos heróis porque vivemos. Sou capaz de fazer tudo que todo mundo faz e eu escolhi ser atleta e faço o que gosto, não sou heroína por conta disso”.

Capacitismo no esporte

“Diminuir e discriminar a pessoa com deficiência por conta de uma condição e característica dela”. Segundo o dicionário, essa é a definição de capacitismo. Muitas vezes, por desconhecimento, os deficientes acabam sofrendo com essa questão no dia a dia e no esporte não é diferente. 

“Quero ser conhecida pelas medalhas que tenho, pela história que construí, por quem sou como atleta”

“Duvidarem de mim porque eu não tenho uma perna é capacitismo. Se surpreender com o que eu sou capaz de fazer por ser atleta é outra forma de cometer o mesmo erro. Eu sou atleta profissional e sou muito capaz de fazer tudo que qualquer atleta consegue e não acontece porque eu sou heroína, acontece pois sou profissional naquilo que eu escolhi fazer”, finalizou Edwarda Dias. 

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