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Maratona Aquática

 

Ana Marcela Cunha se prepara para nadar em seu maior desafio da carreira



Ana Marcela Cunha se prepara para fazer a Travessia do Canal da Mancha, nadando sem parar da Inglaterra até a França



A campeã olímpica Ana Marcela Cunha tem um currículo extenso de conquistas. Ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, sete títulos mundiais e várias medalhas internacionais na natação em águas abertas. Em 2026, porém, a brasileira se prepara para um desafio diferente de tudo que já viveu na carreira: atravessar o Canal da Mancha, nadando sem parar da Inglaterra até a França.

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O Canal da Mancha é o trecho do Oceano Atlântico que separa a França do Reino Unido. A menor distância entre os dois países é de 33,7 km, no Estreito de Dover. Desde o fim do século XIX, nadadores amadores e profissionais se aventuram nas águas frias da região para tentar cruzar de um país a outro.

A primeira pessoa a cruzar o Canal da Mancha a nado, sem auxílio de boias ou mecanismos de flutuação, foi o britânico Matthew Webb, em 1875. Ele demorou 21h45min para nadar da Inglaterra à França. Em 1926, a norte-americana Gertrude Ederle se tornou a primeira mulher a completar a travessia. Ela nadou da França à Inglaterra em 14h39min. Cem anos depois da primeira travessia feminina, Ana Marcela Cunha vai em busca de completar o mesmo desafio.

Um marco nas águas abertas

A história da travessia do Canal da Mancha faz parte da origem da natação em águas abertas. Por isso, o desafio sempre esteve no imaginário de Ana Marcela Cunha. A nadadora contou que passou a sonhar com a prova ainda no início da carreira, quando começou a entender melhor a história da modalidade.

“Eu lembro muito bem que, mais ou menos em 2004, eu fiz uma entrevista, quando eu estava ainda em Salvador, e aí me perguntaram: ‘qual o seu sonho, onde você quer chegar?’. E eu falava muito sobre o Pan-Americano de 2007 e a Olimpíada de 2008. Uma menina de 12 anos, sonhando muito alto já. Quando eu comecei a fazer as maratonas, que eu me identifiquei com o esporte, que eu vi que era isso que eu queria, óbvio que a gente vai entendendo mais sobre a história, aonde nasceu, como foi o esporte, como surgiu. Acredito que esse foi o ponto de partida para mim. Aí eu comecei a sempre falar que eu quero poder fazer o Canal da Mancha enquanto eu ainda estiver em alto rendimento”, contou Ana Marcela.

Encaixou no planejamento

O desafio encaixou no calendário da atleta. Como 2026 não tem Campeonato Mundial ou disputa por vaga olímpica, por exemplo, Ana Marcela conseguiu direcionar a preparação do primeiro semestre para o Canal da Mancha. A travessia também ajudou a motivar a brasileira depois de um período difícil, em que ela chegou a pensar em parar de nadar.

“Eu cheguei num momento que fui morar na Itália e foi um momento difícil. Em determinados momentos, eu pensei até parar por um tempo de nadar. Acho que colocar o Canal da Mancha como um desafio, fora um pouco do circuito mundial, fora um pouco das obrigações como profissional também, está sendo muito bom para a minha cabeça. Acho que estou tendo um ano mais tranquilo e encaixou muito bem fazer o Canal justamente neste ano, que é um ano em que a gente só teria etapas de Copa do Mundo e, no final do ano, o Sul-Americano. Então acho que foi um sonho que terminou casando muito bem com o ano de 2026”, comentou.

Depois da travessia, Ana Marcela volta o foco para as provas olímpicas. Em setembro, a brasileira deve competir nos Jogos Sul-Americanos, competição que vale vaga para o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Lima 2027.

O desafio

Ana Marcela Cunha fará a tentativa entre os dias 20 e 29 de julho. Os atletas têm uma janela de travessia, em dinâmica parecida com a do surfe, e aguardam o melhor dia para entrar no mar. A equipe avalia temperatura da água, correntes, vento, maré e outras variáveis que podem interferir no desempenho.

Diferentemente de uma prova comum de águas abertas, a travessia do Canal da Mancha é um desafio individual. Ana Marcela nadará sozinha, sem a referência de adversárias ou de um circuito com boias. O desafio deixa de ser contra outras atletas e passa a ser também mental.

“É um desafio muito diferente de uma competição. É um desafio onde é você e um barco te acompanhando. Mas você não tem adversário a não ser a sua cabeça, a sua mente. Então a gente tem trabalhado muito nessa questão”, explicou Ana Marcela.

No melhor cenário, a brasileira deve nadar entre 33 e 34 km, em uma água que pode ficar entre 15 e 18 graus. A distância, no entanto, pode variar de acordo com as correntes e as condições do dia.

Guinness estará no barco

Durante a travessia, Ana Marcela Cunha nadará sozinha, mas será acompanhada por um barco auxiliar. O principal nome na embarcação será Igor de Souza, especialista na travessia do Canal da Mancha. Ele já cruzou o canal diversas vezes, inclusive nos dois sentidos em sequência, e atualmente atua como guia de nadadores que tentam completar o desafio.

O barco também terá dois barqueiros, um árbitro oficial, um videomaker e um representante do Guinness World Records. Ana Marcela afirma que não está preocupada com o tempo, mas, caso bata o melhor tempo já feito por uma mulher no Canal da Mancha, o oficial estará presente para validar o feito.

“A gente vai ter um cara que faz parte do Guinness Book, porque, se porventura, eu nadar abaixo do tempo, ele valida junto com o árbitro. Eu não estou me cobrando por tempo, mas o Igor falou outro dia: ‘E se a gente colocar um cara do Guinness Book no barco, tudo bem?’. Eu falei que não tinha problema nenhum. Mas não estou preocupada com isso”, afirmou.

Atualmente, a travessia mais rápida feita por uma mulher no Canal da Mancha é da tcheca Yvetta Hlavácová, que completou o percurso em 7h25min, em 2006. Entre os homens, o melhor tempo é do alemão Andreas Waschburger, com 6h45min, em 2023.

Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e viciado em esportes

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