SANTA FÉ – Ana Marcela Cunha conquistou o ouro nos 10 km da maratona aquática dos Jogos Sul-Americanos de Santa Fé 2026 convivendo com uma lesão importante. O Olimpíada Todo Dia apurou que a campeã olímpica competiu com um tendão do ombro direito totalmente rompido. A equipe da brasileira tomou conhecimento da gravidade do problema há cerca de dez dias, e a nadadora tem uma cirurgia programada para o fim deste mês.
Após vencer a prova deste domingo (13), Ana Marcela foi questionada pelo OTD sobre como administrou a lesão para competir. Sem entrar nos detalhes do diagnóstico durante a resposta, a baiana relacionou a situação à rotina de atletas de alto rendimento e destacou o suporte recebido da equipe.
“Na verdade, eu acho que é muito difícil você não falar sobre lesão em relação ao alto rendimento. Eu acho que muitos atletas vão ter muita coisa, a gente passa por cima disso, a gente encara os treinos como se não houvesse nada. Eu acho que a gente tem uma equipe multidisciplinar muito forte e muito completa, onde todos estão ali suportando a gente. Tava todo mundo aqui hoje presente, então acho que isso dá muita força”, afirmou Ana Marcela.
Agora, a prioridade será tratar o ombro antes de iniciar a preparação para a próxima temporada.
“E agora a gente volta a fazer o que a gente tem que fazer dentro de casa, dentro da física, fazendo tudo para recuperar bem e pensar para o próximo ano”, completou.
Ouro, frio e duas cotas para Lima 2027
A lesão acrescenta uma nova dimensão ao resultado obtido em Santa Fé. Ana Marcela completou os 10 km em 1h56min58s e liderou uma dobradinha brasileira. Viviane Jungblut ficou com a prata, com 1h57min01s, enquanto a argentina Romina Imwinkelried levou o bronze em 1h57min04s.
Com as duas primeiras posições, Brasil assegurou as duas cotas femininas para os Jogos Pan-Americanos de Lima 2027, principal objetivo esportivo da dupla na Argentina.
Além do problema no ombro, Ana Marcela precisou lidar com uma manhã de baixas temperaturas. A água estava a 16°C, e as atletas competiram com roupa de neoprene. Para a campeã olímpica, porém, o frio esteve longe de ser o maior problema.
“Quando a gente chegou ali antes dos meninos para largar, a gente botou a mão na água e falou: ‘Ah, está melhor dentro da água do que fora’. É óbvio que na água, com a roupa de neoprene, a gente consegue anular o frio, porque não sente”, contou.
O desconforto maior veio justamente do traje.
“A roupa, na verdade, para a gente é um pouco mais dura, a gente se sente um pouco mais travado, preso. Mas, como eu tenho falado, o mais importante era a gente buscar essa vaga para o Pan-Americano. Então a gente conseguiu garantir isso. Por mim, podia ser até sem o traje, eu ia ficar mais confortável, mesmo com o frio. Eu acho que me acostumo bem, lido bem com isso”, explicou.
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“Tudo está caminhando da forma como tinha que ser”
Santa Fé também representou uma nova etapa de um planejamento que Ana Marcela garante não ter abandonado mesmo quando direcionou parte de 2026 para objetivos diferentes do circuito tradicional.
Em julho, a brasileira realizou um antigo desejo ao completar a travessia do Canal da Mancha. Foram 42,9 km entre Inglaterra e França em 8h25min29s, então recorde sul-americano para a travessia.
Para Ana, o projeto não representou um afastamento do objetivo olímpico, mas uma escolha planejada dentro do ciclo.
“É até estranho. Eu acho que nós temos um planejamento muito bem pensado das coisas que a gente queria fazer dentro de um ciclo. É óbvio que a gente só fica atrás de resultados, Campeonatos Mundiais, circuito mundial, porque é o que você compara com os outros atletas. Mas o Canal estar aqui, pensar agora nos Jogos Pan-Americanos, sempre fez parte do nosso planejamento”, explicou.
A experiência também teve impacto fora da água.
“Para a gente, está tudo caminhando da forma como tinha que ser. Eu acho que o Canal veio para abrir muito a minha cabeça em relação à saúde mental, a estar bem e fazer o que eu amo.”
Com as cotas para Lima asseguradas, Ana entende que uma etapa foi concluída.
“Óbvio, a gente abriu agora um caminho. Eu e a Vivi acabamos de conseguir a classificação para os Jogos Pan-Americanos. Então acho que a gente tem um ano aí tranquila para poder pensar agora nos Jogos Pan-Americanos. São ciclos e etapas que a gente está cumprindo e a gente está fazendo bem feito.”
Los Angeles 2028 já está no horizonte
O caminho que começa a ganhar forma pode terminar em Los Angeles 2028. Caso consiga a classificação, Ana Marcela disputará sua quinta edição dos Jogos Olímpicos, exatamente 20 anos depois da estreia.
Ela foi quinta colocada em Pequim 2008, aos 16 anos, não disputou Londres 2012, terminou em décimo no Rio 2016, conquistou o ouro em Tóquio 2020 e ficou em quarto lugar em Paris 2024. Los Angeles, portanto, poderia representar sua quinta Olimpíada dentro de um período de duas décadas no mais alto nível da modalidade.
E, embora fale em cumprir cada etapa do processo, Ana Marcela não esconde o tamanho da ambição caso chegue aos Estados Unidos.
“Eu acho que são 20 anos, acho que é o sexto ciclo olímpico, pode ser a minha quinta Olimpíada. E acho que a gente treina sempre pensando em medalha de ouro olímpica. Eu acho que não tem outro pensamento. Se você pensa só em classificar, termina que não é o suficiente para a gente. Acho que a gente tem uma ambição muito grande.”
A experiência acumulada mudou a maneira como a brasileira encara cada edição. Ana recordou que chegou a Pequim ainda sem compreender completamente o tamanho daquele ambiente.
“Talvez não em 2008. Eu tinha 16 anos, estava muito jovem, muito nova. Eu acho que cheguei dentro de uma Olimpíada ainda dentro de um parque de diversões, vendo os maiores ídolos ali na minha frente, não sabendo lidar ainda com as emoções.”
Desde então, vieram a ausência em Londres 2012, a frustração no Rio, o título em Tóquio e a aproximação do pódio em Paris. Em 2028, se completar mais uma vez o caminho classificatório, Ana terá 36 anos.
“Veio Tóquio, ganhamos. Veio Paris, chegamos muito próximo do pódio, muita gente querendo novamente o pódio de ouro. Tudo isso faz parte de um processo, eu acho que tudo tem seu momento. Eu acredito muito no caminho, no processo, eu me entrego muito. E acho que é isso, agora é pensar nos próximos passos.”


