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Opinião: COI regride com volta dos testes de feminilidade



COI volta aos anos 1960 ao recriar a “carteira rosa” e obrigar atletas mulheres a provarem que são o que sempre foram



Kristy Coventry - presidente do COI - TESTES DE FEMINILIDADE
(Foto: IOC/Quinton Meyer)

Antigamente, o Comitê Olímpico Internacional (COI) tinha um teste extremamente invasivo para liberar mulheres de participar dos Jogos Olímpicos. Para provar sua feminilidade, as atletas precisavam passar por exames médicos, muitas vezes invasivos, para provar que eram mulheres. Por anos, a situação causou constrangimento para várias atletas. E agora, o COI volta a uma era de retrocesso ao estabelecer testes genéticos para proibir mulheres com mutações genéticas de participarem do esporte de alto rendimento.

Entre 1968 e 2000, o COI obrigava todas as mulheres que iriam participar dos Jogos Olímpicos a participarem dos chamados “testes para verificação de feminilidade”. Inicialmente, as mulheres eram obrigadas a permitir que um comitê de médicos inspecionasse seus orgãos genitais. “Fui obrigada a deitar no sofá e levantar os joelhos. Os médicos então realizaram um exame que, no jargão moderno, equivaleria a uma palpação desprezível. Supostamente, eles estavam procurando testículos ocultos. Foi a experiência mais cruel e degradante pela qual passei em toda minha vida.” Esse relato é de Mary Peters, campeã olímpica no pentatlo do atletismo (prova equivalente ao atual heptatlo) em Munique-1972.

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As atletas aprovadas recebiam uma carteirinha, apelidada de “carteira rosa” que comprovava que a atleta era, de fato, mulher. Ao longo do tempo, os testes evoluíram e se tornaram menos invasivos, substituídos por exames de sangue e saliva. Mas o COI seguiu promovendo situações constrangedoras com mulheres intersexo, que acabavam reprovadas por alguma questão genética ou hormonal.

Casos no Brasil

No Brasil, tivemos alguns casos de atletas mulheres que passaram por constrangimentos por conta dos testes de feminilidade. Primeira medalhista mulher do Brasil em Mundiais de Judô, Edinanci Silva é uma mulher interssexo. Ela teve que passar por uma cirurgia para a retirada de testículos internos para poder participar dos Jogo Olímpicos de Atlanta em 1996.

A medalhista olímpica de vôlei Érika Coimbra passou por uma situação traumática em um desses testes. Ela tinha apenas 17 anos quando foi submetida a um exame antes de um Mundial Júnior de Vôlei. “Eu fui fazer um teste de gênero, toda a equipe, todas as meninas faziam e eu, no meu caso, era uma menina, nasci menina, tudo certo em mim como mulher e de repente te dão uma bomba dessa: te avisam que você não passou no teste de gênero. Eles [federação internacional, que era quem fazia o teste] não me preservaram ali. Soltaram para a imprensa, não esperaram o meu tempo de ter informação, de fazer o teste novamente. De repente eu sou um ET, um avatar, sei lá. Porque eles estão me levando para me revirar”, disse a atleta em uma entrevista à TV Globo em 2020. Ela também teve de passar por tratamento médico para poder competir.

Perseguição à Caster Semenya

Após os Jogos de Sydney-2000, o COI parou de fazer os testes de feminilidade. Mas algumas federações internacionais continuaram com a prática, como a atual World Athletics, do atletismo. Na última década, a entidade fez o que pareceu uma caça às bruxas com algumas mulheres intersexo, em especial a sul-africana Caster Semenya.

Campeã mundial e olímpica dos 800m rasos, ela tem uma doença genética e produz naturalmente uma quantidade de testosterona acima da média da maioria das mulheres. Ela sofreu uma verdadeira perseguição da World Athletics que proibiu mulheres com nível acima do normal de testosterona não pudessem participar de provas de corrida entre 400m e 1600m se não realizassem terapia hormonal (as especialidades de Semenya eram os 800 e os 1500m rasos). O decreto absurdo chegou a banir todo o pódio dos 800m rasos dos Jogos Olímpicos do Rio de participar de provas da distância.

Em dezembro de 2020, um relatório da Humans Rights Watch pediu o fim dos exames de sexo em atletas de alto rendimento. Eles detalharam casos como o de Caster Semenya, afirmando que as regras das entidades causam humilhações a atletas mulheres.

Caso de Imane Khelif e Lin Yu-ting expõe hipocrisia do COI

Em Paris-2024, os testes de feminilidade voltaram à tona por causa da campeã olímpica de boxe Imane Khelif, da Argélia. No Mundial de 2023, a IBA (entidade que regia o boxe olímpico, mas foi descredenciada pelo COI por uma série de casos de corrupção e má-governança), desqualificou Khelif e Lin Yu-ting de Taiwan. A decisão veio de forma arbitrária, após elas lutarem as semifinais da competição, com a IBA alegando que elas não passaram os seus testes de eligibilidade.

Durante a Olimpíada, com o sucesso das duas pugilistas, veio uma chuva de fake news sobre as atletas. Elas receberam uma série de acusações caluniosas que afirmavam que elas não eram mulheres. Na ocasião, o então presidente do COI, Thomas Bach, criticou os discursos de ódio contra as atletas. “Temos duas pugilistas que nascem como mulher, que foram criadas como mulher, que têm no passaporte ‘mulher’ e que competiram durante muitos anos como mulher. Esta é a definição clara de uma mulher. Nunca houve qualquer dúvida sobre elas serem mulheres”, defendeu em uma entrevista ao jornal britânico The Independent.

Mas a nova gestão do COI, sob o comando de Kristy Coventry, mudou de opinião em menos de dois anos. A questão foi uma promessa de campanha da zimbabuana que foi eleita presidente da entidade em 2025, como quem dizia que estaria protegendo o esporte feminino. E a primeira presidente mulher do COI age de uma forma que agrada mais políticos e cartolas do que realmente protegendo as atletas mulheres, que voltarão a se submeter a testes constrangedores para provar que são o que sempre foram.

Isso realmente vai ajudar o esporte feminino?

Aqui não se trata sobre a questão da elegibilidade de mulheres transsexuais no esporte (que é algo que podemos debater em outro momento). Estamos falando de mulheres cisgênero, que sempre se identificaram como tal. E que podem passar por um trauma psicológico ao descobrir em um exame desses que tem algum tipo de mutação genética. Algo natural. Ninguém questiona o talento e o nível de mulheres que nasceram com predisposição genética para serem extraordinária em seus esportes. Por que mulheres como Edinanci, Érika, Caster, Imane e Yu-ting e tantas outras são perseguidas?

O release do COI sobre os novos testes fala que haverá exceções para casos de atletas com modificações genéticas “que não se beneficiam dos efeitos anabólicos e/ou de melhoria de desempenho da testosterona.” Basta ver como isso será aplicado na prática, já que nos últimos anos, foi nítida a perseguição a atletas de países periféricos com essas condições.

O esporte feminino está em franca evolução no século XXI, com mais exposição e mais competitividade. Mas ainda há muitos pontos a serem melhorados e que poderiam ser a prioridade da gestão de Coventry. Por que não fazer ações efetivas para combater o abuso e o assédio dentro do esporte? Por que não fazer ações para incentivar o pagamento igualitário de mulheres no esporte? Por que não trabalhar para incentivar o aumento do número de treinadoras mulheres nos Jogos Olímpicos? Por que o COI ainda permite que alguns países participem dos Jogos Olímpicos só com homens (enquanto vem com um discurso hipócrita de igualar a quantidade de homens e mulheres na Olimpíada, que não é cumprido na prática)?

A gestão de Kristy Coventry já começou turbulenta com o jeito como o COI conduziu a manifestação do ucraniano Vladyslav Heraskevych que prestou solidariedade a atletas mortos na Guerra causada pela Rússia na Ucrânia. E agora ela comete mais um retrocesso ao voltar aos tempos da “carteirinha rosa.”

Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e viciado em esportes

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