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Milão Cortina-2026

 

Ucraniano é desclassificado por homenagem a atletas mortos na guerra



Vladyslav Heraskevych não recuou na intenção de competir utilizando o equipamento com imagens de 24 atletas compatriotas que morreram no conflito contra a Rússia



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(instagram/heraskevychvladyslav)

O piloto ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych foi desclassificado dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 nesta quarta-feira (12) por conta do capacete que pretendia usar exibindo imagens de 24 atletas daquele país mortos na guerra com a Rússia.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) justificou a decisão afirmando que a homenagem fere diretrizes da entidade sobre manifestação de atletas. As normas determinam que os canais para se manifestar são zonas mistas, entrevistas, coletivas de imprensa e redes sociais.

Vladyslav Heraskevych foi impedido de largar e teve a credencial retirada. O ucraniano foi informado da desclassificação após reunião realizada no início da manhã com a presidenta do COI, Kirsty Coventry, já no local da competição, pouco antes do início do evento. A equipe de Heraskevych afirmou que recorrerá da decisão ao Tribunal Arbitral do Esporte (CAS).

Preço da dignidade

Pouco antes da competição, por volta das 4h da manhã pelo horário de Brasília, o atleta se manifestou nas redes sociais. A prova começou às 5h30.

“Eu nunca quis um escândalo com o COI, e não fui eu quem o criou. O COI criou o escândalo com sua interpretação das regras, que muitos consideram discriminatória”, disse.

“Embora esse escândalo tenha possibilitado falar em voz alta sobre os atletas ucranianos que foram mortos, ao mesmo tempo o próprio fato do escândalo desvia uma enorme quantidade de atenção das competições em si e dos atletas que participam delas”, continou.

Heraskevych fez, ainda, três sugestões para que o caso seja resolvido. “Que seja suspensa a proibição do uso do ‘Capacete da Memória’; Que haja um pedido de desculpas pela pressão que foi exercida sobre mim nos últimos dias; Como sinal de solidariedade ao esporte ucraniano, que sejam fornecidos geradores de energia para instalações esportivas na Ucrânia que sofrem com bombardeios diários.”

“Espero sinceramente por uma resposta antes do início das competições de skeleton”, finalizou.

Cerca de uma hora mais tarde, em nova postagem, ele publicou uma foto dele usando o capacete com a legenda “o preço da dignidade”.

Sem acordo

De acordo com o COI, Heraskevych foi informado algumas vezes que não poderia usar o capacete com a homenagem. Em uma verificação técnica realizada pela Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton (IBSF) na quarta (11), o ucraniano confirmou por escrito que pretendia competir utilizando o capacete.

Em nota, o comitê justificou a decisão afirmando que o “não diz respeito à mensagem em si, mas ao local onde ele pretendia expressá-la”. Disse, ainda, que o ele poderia utilizar o capacete no treinamento e exibi-lo imediatamente após a prova no espaço destinado ao contato com a imprensa.

Kirsty Coventry

A presidenta do COI se manifestou após o ocorrido. “Quando começamos a passar por todos esses processos (criar as diretrizes de manifestação dos atletas), eles (os atletas) também nos pediram para manter certas áreas, o campo de jogo, o pódio e a Vila Olímpica, como espaços protegidos”, disse Kirsty Coventry.

Segundo ela, os atletas “também perceberam que, embora pudessem usá-los para mensagens pessoais, poderiam ser pressionados a usá-los para mensagens de outras pessoas ou mensagens políticas. E como poderíamos mantê-los seguros para que não fossem obrigados a usar o campo de jogo ou o pódio para algo com que não concordassem?”

Ela acrescentou que o desafio para o caso do capacete era encontrar uma solução apenas para o campo de jogo. “O que propus foi que pudéssemos encontrar maneiras, já que ele mesmo disse que, durante a descida, a imagem fica borrada e não dá para ver claramente. Com base nisso, poderíamos encontrar uma solução em que prestássemos homenagem à mensagem dele, ao capacete, antes da prova e, assim que ele terminasse de competir, já na zona mista, onde as imagens poderiam ser vistas claramente?’

“Infelizmente, não conseguimos chegar a essa solução. Eu realmente queria vê-lo competir hoje. Foi uma manhã emocional.”, falou a mandatária.

Jornalista com mais de 20 anos de profissão, mais da metade deles na área de esportes. Está no OTD desde 2019 e, por ele, já cobriu 'in loco' os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio, os Olímpicos de Paris, além dos Jogos Pan-Americanos de Lima e de Santiago

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