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Blog da Lyanne Kosaka

Katia Rubio, dos Estudos Olímpicos, lança obra sobre mulheres no esporte

Professora da USP e pesquisadora dos Estudos Olímpicos, Kátia Rubio lançou o livro “Mulheres e esporte no Brasil”

"Mulheres e esporte no Brasil", da psicóloga e professora da USP Katia Rubio (Divulgação)

Katia Rubio, dos Estudos Olímpicos, lança obra sobre mulheres no esporte

A conversa é com a psicóloga Katia Rubio, professora da USP e pesquisadora dos Estudos Olímpicos. Autora de vários livros, dentre eles: “O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo” (2004), “Heróis Olímpicos Brasileiros” (2004) e “Atletas Olímpicos Brasileiros” (2015), Katia fala de “Mulheres e esporte no Brasil”  ̶  sua obra mais recente  ̶  e também de sua jornada no mundo esportivo.

Professora Katia Rubio, quais são os seus esportes do coração? Joguei voleibol por muitos anos, mas gosto de competições esportivas de modo geral. Gosto de ver a busca da excelência do gesto e as transformações que esses gestos apresentam ao longo do tempo. Veja a ginástica, por exemplo. Como eram os gestos habilidosos na década de 1960 e o que é hoje. Parece até outro esporte.

“Mulheres e esporte no Brasil”, de Katia Rubio

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Quem são os seus heróis olímpicos? Gosto de olhar para os antigos porque são os mais invisíveis e esquecidos. Não fossem eles, não teríamos o esporte de hoje. Então, aponto o Alfredo Gomes, o primeiro atleta negro declarado, também o primeiro brasileiro a vencer a São Silvestre. Tenho também a Piedade Coutinho (natação), a Melânia Luz (atletismo) e a Benedicta Souza Oliveira (atletismo) como as mulheres pioneiras. Sem contar Aída dos Santos (salto em altura, 4o lugar em Tóquio-1964) e Irenice Maria Rodrigues (atletismo), outras mulheres fantásticas. Isto é, como trabalho com a história dos atletas olímpicos brasileiros, tenho dificuldade em escolher uma pessoa em especial. Muitos atletas fazem parte de minha própria história, como a geração do vôlei de 1980 e 1984.

Lembranças Olímpicas

Quais as suas memórias olímpicas mais marcantes? São várias. Por exemplo: ver a ginasta Nadia Comaneci conquistar as medalhas de ouro (em Montreal-1976) com nota 10 e o Joaquim Cruz dar a volta olímpica com a bandeira na mão (nos 800 metros em Los Angeles-1984). A conquista do ouro pela Jackie e a Sandra (no vôlei de praia em Atlanta-1996), as lutas do judoca Tiago Camilo (prata em Sydney-2000 e bronze em Pequim-2008). O judoca Rogério Sampaio ajoelhado no tatame depois da conquista do ouro (em Barcelona-1992). O choro da desclassificação da judoca Rafaela Silva (em Londres-2012; no Rio-2016 ela conquistou o ouro). A obstrução do caminho do Vanderlei Cordeiro de Lima (na maratona em Atenas-2004; o brasileiro terminou com o bronze na prova).

Katia Rubio e Joaquim Cruz, campeão olímpico em Los Angeles-1984
Com Joaquim Cruz, ouro em Los Angeles-1984 e prata em Seul-1988 nos 800 metros
(Foto: Arquivo pessoal)

Se pudesse escolher, de qual edição de Jogos Olímpicos teria participado? Os Jogos de Barcelona-1992 representam um marco para mim. Tanto a cerimônia de abertura como a de encerramento produziram tamanho encanto que acabei indo estudar por lá. Então, se eu pudesse voltar no tempo em um corpo habilidoso, era lá que eu gostaria de estar.

A pesquisadora Katia Rubio e os Estudos Olímpicos

Citando apenas os seus livros mais recentes, em 2015 a senhora lançou “Atletas Olímpicos brasileiros” e agora lança “Mulheres e esporte no Brasil”. Sobre o primeiro, gostaria que comentasse a repercussão da obra entre os esportistas e respondesse ainda: como tratamos nossos atletas olímpicos? A obra “Atletas Olímpicos Brasileiros” representa a síntese de duas décadas de trabalho, trabalho esse que nunca terá fim. Ou seja, com ele tentei homenagear todos os atletas que representaram o Brasil em Jogos Olímpicos, muitos deles esquecidos ou invisibilizados. Acredito que alcançamos esse objetivo e espero que haja continuidade desse trabalho, com a divulgação do conteúdo do livro em formato digital e, quem sabe, em vídeo. A memória do esporte exige trabalho e esforço institucional, mas acredito que essa obra tenha mostrado que é possível manter viva a memória dos atletas… é preciso apenas um pouco de boa vontade.

Katia Rubio: pesquisadora dos Estudos Olímpicos (Foto: Arquivo pessoal)

Participação feminina

E sobre “Mulheres e esporte no Brasil”: quanto a participação feminina no esporte cresceu nos últimos anos no País? E qual a sua projeção para os próximos anos? O livro “Mulheres e esporte no Brasil” apresenta um panorama do que é ser mulher no esporte, seja no papel de atleta, de técnica ou de gestora. Mostra como esse espaço não foi concedido, mas conquistado com muita luta e começou há bastante tempo. E embora haja um equilíbrio entre homens e mulheres na delegação olímpica, há muito a avançar nos campos da gestão e da liderança técnica. Basta ver o número de mulheres na assembleia do COB. Somente uma mulher presidente de confederação (CBG). A presença feminina se dá pelas representantes dos atletas. Ter a Yane Marques (bronze no pentatlo moderno em Londres-2012) como presidente dessa comissão é, sem dúvida, uma grande conquista.

Professora Katia Rubio, que iniciativas (do Brasil ou do exterior) poderiam ser replicadas para uma maior representatividade feminina? A representatividade das mulheres no esporte depende de educação e de uma mudança cultural, o esporte não é um ente isolado da sociedade. Isto é: quando você tem ideias conservadoras, presas ainda no século XIX, seja no campo do trabalho ou da família, é evidente que isso trará consequências também para a prática esportiva. E os últimos anos têm sido pródigos em retrocesso na pauta dos costumes.

Tóquio-2020

O calendário dos atletas que visam disputar uma Olimpíada tem ciclos de quatro anos. Com a edição de Tóquio-2020 já adiada uma vez e as indefinições acerca do evento, quais seriam suas recomendações? Há muita incerteza ainda sobre a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020. O esperado recuo da pandemia não está acontecendo e os países estão reagindo de forma distinta no combate à Covid-19. Atletas, assim como todos os cidadãos e profissionais de diferentes áreas, precisam colaborar no controle da pandemia. Podem usar sua imagem para mostrar a necessidade de cuidados e cumprimento de protocolos. A população necessita disso. E seguir treinando mesmo com a restrição das competições, porque o futuro é incerto. Ou seja, é foco no projeto individual, com a busca de objetivo. E colaboração com o social para que mais pessoas não sejam infectadas.

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