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Dor no ombro depois dos 40: exame nem sempre explica



Estudo com 602 adultos encontrou alterações no manguito rotador em 99% dos participantes, inclusive entre pessoas sem sintomas



dor no ombro depois dos 40

Sentir dor no ombro depois dos 40 anos não significa necessariamente que exista uma lesão grave na articulação. Um estudo publicado no JAMA Internal Medicine mostrou que alterações no manguito rotador são extremamente comuns nessa faixa etária, inclusive entre pessoas que não sentem dor. O resultado ajuda a explicar por que uma alteração encontrada em uma ressonância magnética nem sempre é suficiente para identificar a causa do desconforto.

A pesquisa avaliou 602 adultos finlandeses entre 41 e 76 anos, com idade mediana de 58 anos. Todos passaram por avaliação clínica e ressonância magnética dos dois ombros. Ao todo, 595 participantes, ou 98,7%, apresentavam pelo menos uma alteração no manguito rotador.

O dado que mais chama atenção é que essas alterações também estavam presentes em pessoas sem sintomas.

Quase todos tinham alguma alteração no exame

Entre os participantes, 492 não apresentavam sintomas atuais no ombro. Mesmo nesse grupo, 96% dos ombros avaliados tinham alguma alteração no manguito rotador.

Entre os ombros sintomáticos, a proporção foi de 98%.

As alterações incluíam tendinopatia, que apareceu em cerca de 25% dos participantes, rupturas parciais em 62% e rupturas completas em 11%. A frequência e a gravidade dos achados aumentaram com a idade.

Isso não significa que essas alterações sejam irrelevantes. Algumas lesões podem, sim, estar relacionadas à dor e à perda de função. O problema é assumir automaticamente que aquilo que aparece na imagem é a causa do sintoma.

No estudo, a diferença entre pessoas com e sem dor foi pequena para a maioria dos achados.

O que a ressonância realmente mostra?

A ressonância magnética produz imagens detalhadas das estruturas do ombro. Ela pode identificar alterações em tendões, músculos, articulações e outros tecidos.

Mas uma imagem mostra a estrutura, enquanto a avaliação clínica procura entender como aquela estrutura se relaciona com os sintomas e com os movimentos da pessoa.

Essa distinção é especialmente importante conforme envelhecemos. Algumas alterações podem representar mudanças relacionadas à idade e não necessariamente uma doença que precise ser corrigida.

Os pesquisadores do estudo finlandês argumentam justamente que muitos desses achados deveriam ser interpretados como mudanças relacionadas ao envelhecimento, em vez de automaticamente classificados como problemas que precisam de tratamento.

Dor não significa necessariamente ruptura

Uma revisão publicada em agosto de 2026 no JAMA Internal Medicine analisou as evidências disponíveis sobre diagnóstico e tratamento da dor no ombro na atenção primária.

Os autores destacam que a maioria dos casos não traumáticos envolve tecidos moles ao redor da articulação e que diferentes alterações estruturais podem aparecer nos exames sem explicar necessariamente os sintomas. Por isso, história clínica e exame físico têm papel central na avaliação.

Em muitos casos, o tratamento inicial pode envolver educação sobre a evolução do problema, controle dos sintomas, adaptação temporária das atividades e acompanhamento. A revisão ressalta que exames de imagem precoces não são indicados rotineiramente na ausência de trauma significativo ou sinais que levantem suspeita de problemas mais graves.

Isso não significa que exames de imagem nunca sejam necessários. Eles podem ser importantes quando existe trauma, perda significativa de função, suspeita de uma condição mais séria ou sintomas persistentes que não evoluem como esperado.

E quem treina?

Para quem faz musculação, natação, tênis, vôlei ou outras atividades que utilizam bastante os braços, a informação é particularmente útil.

Uma dor no ombro não deve ser automaticamente interpretada como sinal de que determinado exercício “estragou” o tendão. Da mesma forma, encontrar uma alteração em uma ressonância não significa necessariamente que a pessoa precise abandonar a atividade física.

A resposta deve considerar a intensidade da dor, a função do braço, o histórico da pessoa e a evolução dos sintomas.

Em situações sem trauma importante, uma abordagem gradual pode ser mais adequada do que simplesmente interromper todos os movimentos. A revisão do JAMA Internal Medicine destaca a possibilidade de adaptação das atividades e acompanhamento como parte do manejo inicial de muitos casos.

Quando procurar avaliação?

Dor persistente, piora progressiva ou perda importante de força e movimento merecem avaliação profissional.

A atenção deve ser ainda maior quando a dor aparece depois de um trauma significativo, vem acompanhada de febre ou outros sintomas sistêmicos, ou quando existe perda funcional relevante. A revisão de 2026 recomenda investigação especializada em situações como suspeita de infecção, fratura, luxação, déficit neurológico importante ou sintomas persistentes e incapacitantes.

Para a maioria das pessoas, porém, a principal lição do estudo é evitar conclusões precipitadas.

Depois dos 40, alterações no ombro são extremamente comuns. O desafio não é simplesmente descobrir se existe alguma alteração no exame, mas entender se ela realmente explica o que a pessoa está sentindo.

Isso ajuda a evitar tanto a negligência de uma dor importante quanto o excesso de exames e tratamentos para alterações que podem fazer parte do envelhecimento normal.

Consultora de wellness do Olimpíada Todo Dia. Profissinal de educação física, fundadora do Yoga Para Atletas, co-fundadora do Rachão Basquete Feminino, criadora de conteúdo do A Quadra É Delas e personal training

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