Uma pequena perda de urina durante um salto. Algumas gotas no meio da corrida. Um escape ao levantar uma carga pesada. Por vergonha ou por achar que isso “faz parte”, muitas mulheres acabam adaptando o treino, usando absorventes ou simplesmente evitando determinados exercícios.
Mas perder urina durante a atividade física não precisa ser tratado como uma consequência normal de correr, saltar ou treinar pesado.
A incontinência urinária é definida como qualquer perda involuntária de urina. Quando o escape acontece associado a um esforço, como correr, pular, tossir ou espirrar, pode existir um quadro de incontinência urinária de esforço. A avaliação profissional é importante para identificar o que está acontecendo, porque nem toda perda urinária tem a mesma causa.
Isso acontece apenas depois da gravidez?
Não.
Embora gravidez, parto e envelhecimento estejam frequentemente associados à incontinência urinária, o problema também aparece em mulheres jovens e fisicamente ativas.
Pesquisas brasileiras já identificaram perda de urina entre atletas de modalidades como ginástica, basquete e corrida. Um estudo brasileiro com estudantes de Educação Física também encontrou episódios durante atividades esportivas entre mulheres jovens.
Uma revisão sistemática sobre atletas encontrou prevalências bastante diferentes entre os estudos, variando conforme modalidade, população e metodologia. O ponto mais consistente é que esportes de maior impacto apresentam frequência maior de sintomas do que atividades de menor impacto.
Portanto, ser jovem, nunca ter engravidado ou estar em excelente condição física não elimina a possibilidade de apresentar o sintoma.
Por que correr e saltar podem favorecer o escape?
Durante ações como correr, aterrissar de um salto ou levantar peso, a pressão dentro do abdômen pode aumentar.
O assoalho pélvico participa do suporte dos órgãos da pelve e do mecanismo de continência. Em determinados momentos, essa musculatura precisa responder às forças produzidas pelo exercício.
Pesquisas brasileiras com atletas apontam frequência elevada de perda urinária em atividades que envolvem saltos, aterrissagens e corrida, justamente porque essas ações produzem repetidamente maiores demandas sobre a região pélvica.
Isso não significa, porém, que correr ou saltar necessariamente “estraguem” o assoalho pélvico. A relação é mais complexa e envolve características individuais, histórico esportivo, carga de treinamento e função da musculatura.
O problema é simplesmente falta de força?
Não necessariamente.
Essa é uma simplificação comum.
Um estudo brasileiro que avaliou o assoalho pélvico de atletas encontrou elevada prevalência de incontinência urinária em ginastas, jogadoras de basquete e corredoras. Entretanto, os resultados não permitiram explicar o problema apenas por uma menor capacidade de contração da musculatura.
O assoalho pélvico precisa de força, mas também de coordenação, capacidade de relaxar e contrair no momento adequado e adaptação às pressões produzidas pelo exercício.
Por isso, perceber um escape não significa automaticamente concluir: “meu assoalho pélvico é fraco”.
Basta fazer exercícios de Kegel?
O treinamento dos músculos do assoalho pélvico possui boa evidência para o tratamento conservador da incontinência urinária de esforço. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) coloca a fisioterapia e os exercícios supervisionados entre as opções de primeira linha.
Mas isso não significa procurar uma lista de exercícios na internet e começar a contrair a musculatura indiscriminadamente.
A própria Febrasgo destaca que uma parcela das mulheres apresenta dificuldade para realizar corretamente a contração dos músculos do assoalho pélvico. Nesses casos, avaliação e orientação profissional ajudam a identificar como executar o movimento e quais estratégias fazem sentido.
Uma revisão de 2024 sobre mulheres que apresentam perda urinária durante exercícios encontrou alguma evidência favorável ao treinamento da musculatura do assoalho pélvico, mas também ressaltou a necessidade de estudos melhores especificamente em praticantes de atividade física.
Devo parar de correr ou fazer musculação?
Não existe uma regra segundo a qual toda mulher com perda urinária precisa abandonar o exercício.
A decisão depende da frequência e intensidade dos sintomas, da modalidade e da avaliação individual.
Em alguns casos, pode ser necessário modificar temporariamente impacto, carga, volume ou determinados exercícios enquanto a causa é investigada e a função do assoalho pélvico é trabalhada.
O importante é não considerar como única solução abandonar a atividade física que você gosta. A incontinência urinária pode se tornar uma barreira à participação esportiva e afetar bem-estar e qualidade de vida, justamente por levar algumas mulheres a limitar ou evitar exercícios.
Beber menos água antes de treinar resolve?
Tentar reduzir exageradamente a ingestão de água para evitar um escape não trata a causa.
Algumas alterações de consumo de líquidos podem fazer parte do manejo de determinados tipos de incontinência, mas isso deve ser individualizado. A Febrasgo diferencia, por exemplo, estratégias utilizadas para sintomas de urgência daquelas empregadas na incontinência relacionada ao esforço.
Para quem pratica exercício, restringir líquidos por conta própria também pode atrapalhar a hidratação.
A solução não deveria ser simplesmente tentar manter a bexiga vazia o tempo inteiro.
Quando procurar avaliação?
Se a perda de urina acontece repetidamente durante corrida, saltos, exercícios de força ou outras atividades, já existe motivo para conversar com um profissional de saúde.
Também vale procurar avaliação quando o sintoma começa a modificar seu comportamento: evitar determinado exercício, diminuir a intensidade do treino, usar proteção para conseguir praticar ou deixar de participar de atividades por medo do escape.
A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde lembra que a incontinência urinária é comum, mas muitas pessoas deixam de procurar ajuda por vergonha ou desconhecimento sobre as possibilidades de tratamento.
Fisioterapia pélvica pode fazer parte da abordagem, assim como avaliação médica quando necessário. O tratamento depende do tipo de incontinência e de suas possíveis causas.
Comum não significa normal
Talvez essa seja a principal mensagem para mulheres que convivem com pequenos escapes durante o exercício.
O problema é suficientemente frequente para ter sido identificado em ginastas, corredoras, jogadoras e outras atletas em diferentes pesquisas.
Mas frequência não transforma o sintoma em algo que precisa ser aceito.
Se você perde urina sempre que corre, salta ou levanta peso, não precisa apenas escolher uma roupa que esconda o problema ou eliminar aquele exercício da rotina.
Vale investigar por que aquilo está acontecendo.
Treinar sem medo de um escape também faz parte da saúde esportiva.



