A temporada do vôlei nacional nem começou, mas os bastidores prometem pegar fogo. Nesta sexta-feira (14), a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) divulgou a política sobre a elegibilidade de atletas para as competições da categoria feminina. A medida se alinha aos regulamentos adotados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e Federação Internacional de Voleibol (FIVB), limitando a participação exclusivamente às “atletas do sexo biológico feminino”, além de exigir testagem e triagem do gene SRY. As regras entram em vigor a partir desta temporada.
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“Com a mudança dos parâmetros internacionais e da responsabilidade institucional, a CBV buscou manter o alinhamento entre as regras que regem as competições nacionais com as hoje vigentes para as competições internacionais. A decisão da CBV se adequa ao COI e deixa nossos campeonatos equiparados com as competições internacionais.”, explicou o presidente da CBV, Radamés Lattari, em comunicado.
“A CBV se alinhou aos posicionamentos do COI e da FIVB quanto à necessidade de as jogadoras realizarem o processo de triagem do gene SRY para a elegibilidade da categoria feminina. A coleta de material é feita de forma pouco intrusiva e altamente precisa”, disse o médico João Olyntho, presidente do Conselho de Saúde do Voleibol, também no comunicado.
O que é o teste de SRY?
O teste do gene SRY (Sex-determining Region Y) é um exame genético que identifica a presença do cromossomo Y e atua como um marcador do sexo biológico masculino. O coleta é feita via saliva e os resultados não terão validade definida. O assunto gera polêmica no esporte mundial devido a debates sobre justiça competitiva, inclusão e os limites biológicos do sexo.
Especialistas criticam o uso do teste como métrica absoluta. O argumento é que o sexo biológico e a resposta hormonal são complexos e não se resumem à presença de um único gene. A política de elegibilidade divulgada pela CBV prevê exames complementares e exceções em casos de resultados positivos.
Retrocesso na CBV?
Apesar de ser promovida como proteção da categoria feminina, na prática, a medida pode excluir atletas que passaram por transição de gênero das competições organizadas pela CBV, como todas as divisões da Superliga Feminina, Copa Brasil, Supercopa do Brasil e outras mais.
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Além disso, a adoção dessa política pode ser considerada um retrocesso para a entidade. Isso porque em 2017, a CBV foi pioneira ao editar uma regulamentação sobre a elegibilidade e a participação de atletas transgêneros. Na ocasião, foi liberada a inscrição e a estreia oficial de Tifanny Abreu pelo Bauru após receber a documentação e validação das regras desportivas.
Mais recentemente, a própria CBV acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para garantir que Tifanny pudesse disputar a fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino em Londrina (PR). A ação se deu porque a Câmara Municipal aprovou, em regime de urgência, um requerimento para impedir a participação da atleta, em um movimento liderado pela vereadora Jéssica Ramos Moreno, baseada em legislação municipal que proíbe atletas cujo gênero divirja do sexo biológico.
O que acontece com Tifanny Abreu?
Tifanny Abreu pode ser a atleta mais afetada com as novas regras. Ela fez história no esporte ao se tornar a primeira mulher trans a vencer a Superliga Feminina de Vôlei e a Copa Brasil pelo Osasco Vôlei. Além disso, se consolidou entre as maiores pontuadoras e protagonistas de torneios nacionais, marcando uma era de debates e conquistas na modalidade.
A reportagem do Olimpíada Todo Dia entrou em contato com as assessorias do Osasco e da Tifanny em busca de um posicionamento sobre o assunto. Assim que divulgados, a matéria será atualizada.
Osasco se manifesta
Em nota, o Osasco São Cristovão Saúde afirma que foi surpreendido com a nova Política de Elegibilidade para a Categoria Feminina. O clube ainda ressaltou que tal medida foi elaborada sem sua participação ou opinião prévia. Além disso, informou que seu departamento jurídico está analisando a normativa para a definição dos próximos passos. Veja a nota completa abaixo.
“O Osasco São Cristóvão Saúde informa que foi surpreendido hoje com a informação da nova Política de Elegibilidade para a Categoria Feminina, publicada nesta sexta-feira (14), pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV). Tal política foi elaborada sem qualquer participação ou opinião prévia do clube.
A decisão impacta diretamente a atleta Tifanny Abreu, que veste a camisa do clube desde 2021 e construiu uma trajetória marcante dentro e fora de quadra.
Diante disso, o clube, junto com seu departamento jurídico, está avaliando a normativa publicada para definição dos próximos passos.
O clube reafirma seu integral apoio a Tifanny neste momento e reforça seu compromisso permanente com o respeito e a valorização de todas as pessoas que fazem parte da sua história”.
Tifanny se manifesta
Neste sábado, dia 15 de agosto, Tifanny Abreu se pronunciou após o jogo do Osasco e fez um forte desabafo sobre a situação envolvendo a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) e a participação de atletas trans no esporte. Visivelmente abalada, a jogadora falou para um grupo de jornalistas presentes no ginásio José Liberatti em Osasco, incluindo Rafael Zito, do Olimpíada Todo Dia. Ela leu um depoimento no qual afirmou que não pretende se calar e que tomará “todas as medidas possíveis” para continuar defendendo seu direito de atuar no vôlei. Veja a matéria completa aqui.



