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Construindo pontes: a acessibilidade na luta por inclusão

No Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, o OTD conversou com atletas sobre a importância da acessibilidade e inclusão

Cátia Oliveira - Acessibilidade - Dia Internacional das Pessoas com Deficiência
Cátia Oliveira é vice-campeã mundial no tênis de mesa paralímpico (Daniel Zappe/EXEMPLUS/CPB)

Desde 1992, a ONU (Organização das Nações Unidas) instituiu a data 3 de dezembro como o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. A data marcou o fim do que foi chamado pela entidade de Década das Pessoas com Deficiência, nas quais os governos mundiais foram incentivados a implementar ações concretas na busca por igualdade. Passados quase 30 anos, no entanto, a luta ainda continua. E mais do que um simples simbolismo, a data carrega consigo a força de trazer à tona debates mais do que necessários, como a acessibilidade, um tema ainda tão precário no Brasil.

E falar sobre acessibilidade é falar sobre inclusão e respeito. Afinal de contas, ter ambientes adaptados para todo e qualquer tipo de necessidade é mais do que uma obrigação. É um direito, como prevê o próprio Estatuto da Pessoa com Deficiência, em vigor desde 2015.

“A acessibilidade no Brasil é muito precária. Tenho certeza disso para qualquer tipo de deficiente. Infelizmente, a gente sai na rua e encontra calçadas em péssimo estado de conservação, transporte público, principalmente para cadeirantes, é muito complicado… Não é fácil, mas a gente vai se virando e com a esperança de que um dia, as coisas possam melhorar um pouco”, destacou Ricardinho, craque da seleção de futebol de 5 e tricampeão paralímpico, ao Olimpíada Todo Dia. 

Ricardinho Futebol de 5 - Acessibilidade
Ricardinho é tricampeão paralímpico (Instagram/ricardinho_fut5)

Debate amplo

“Falar de acessibilidade é muito amplo. Mas até por uma questão visual, costumamos vincular o tema à deficiências físicas. Mas e pessoas com autismo, deficiências intelectuais? A necessidade de acessibilidade também é muito importante para eles, ainda mais que ela é deixada um pouco para trás por causa da falta de informação e de conhecimento”, ressaltou Giovani Ferreira, presidente da ABJI (Associação Brasileira de Judô Inclusivo) e pai de João, campeão mundial de judô para deficientes intelectuais.

“O autismo, por exemplo, ainda é um tabu no Brasil. Então nós temos que quebrar barreiras e paradigmas para trazer qualidade de vida para essas pessoas”, completou.

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A busca por maior acessibilidade é o pontapé inicial para uma série de outros quesitos fundamentais como inclusão e combate ao preconceito, que passam muito pela conscientização – ou a falta dela.

A educação, neste sentido, deve ter um papel essencial, mas nem sempre é assim, como foi no caso de Thiego Marques, atleta do judô e do Time Ajinomoto, que sentiu a discriminação e a falta de acessibilidade na própria escola.. 

Thiego Marques - Dia Internacional das Pessoas
Thiego Marques relembra história no Dia Internacional das Pessoas com Deficiência (Rafal Burza/CBDV)

“Até uns oito, nove anos, eu não sabia o que era ser uma pessoa com deficiência. Sempre soube que era diferente na questão da pele, dos olhos, sabia que eu era albino, mas era isso… Então aos 10, 11 anos, eu descobri realmente uma das coisas que acontece muito com pessoas com deficiência, que é ser acometido por muito bullying na escola. Isso por ser diferente, ter necessidades especiais. Eu tinha que sentar na frente e às vezes ir bem perto do quadro para poder enxergar as atividades… E isso gerava um pouco de constrangimento”.

Combatendo o capacitismo

Por esses e outros motivos, o processo de aceitação das deficiências nem sempre é fácil. Ele vem aliado a um combate interno e/ou externo ao chamado capacitismo, ação discriminatória que julga o deficiente como incapaz. 

“Nasci com uma deficiência chamada artrogripose congênita mútua, e quando pequeno, como toda criança, eu queria brincar. Mas muitas vezes ficava triste por não conseguir andar e ser ‘normal’. Com uns seis anos, entendi que eu era diferente, não importa o que eu fizesse. Mas também percebi que isso não era ruim, que não era pela minha diferença que eu era pior ou melhor que ninguém. E entendi que isso faz parte de mim”, relembrou Cristian Ribera, atleta do para esqui cross-country.

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“Desde muito pequena, minha mãe sempre me ensinou que por eu ser cega eu não era melhor nem pior do que ninguém. Simplesmente tinha uma diferença e precisava aprender a lidar com ela. Ela sempre me incentivou a dar o meu melhor em tudo o que eu ia fazer, independente de ser fácil ou difícil”, completou Lorena Spoladore, do atletismo paralímpico.

Lorena Spoladore - Dia Internacional das Pessoas com Deficiência
Lorena Spoladore é campeã mundial no salto em distância (Instagram/lorenaspoladore)

Diferente de Cristian e Lorena, no entanto, Cátia Oliveira, vice-campeã mundial de tênis de mesa, não nasceu com a deficiência. Ela foi adquirida quando tinha 17 anos, após um acidente de carro. 

“No começo foi bem difícil. Eu não aceitava as condições que eu estava, não podia ver uma cadeira de rodas que ficava revoltada…  O que me fez mudar minha cabeça foi quando eu vi uma criança em uma cadeira de rodas, toda feliz, dando risada. Só faltava subir em um muro, porque de resto ela fazia tudo. Então eu comecei a pensar: ‘Pô Cátia, acorda! Deus te deu uma segunda chance para viver’. E foi aí que eu mudei minha cabeça. E hoje eu sou muito grata, porque consigo fazer tudo e minha cadeira me leva para todos os lugares”. 

Importância da visibilidade

Por isso, datas como o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência são tão importantes. Para dar visibilidade à pessoas e temas que muitas vezes são colocadas à margem da sociedade. 

“É um dia muito importante, porque traz visibilidade para todas as pessoas com deficiência e traz também conhecimento. Acessibilidade primeiro tem de acontecer dentro do coração de cada pessoa. Ela acontece dentro da gente. Quando a gente acolhe, tem paciência e, principalmente, entende”, destacou Giovani Ferreira.

João Victor Ferreira - Judô DI - Acessibilidade
João, campeão mundial de judô para deficientes intelectuais, e o pai Giovani (Facebook/AtletaJoãoFerreira)

“Muitas pessoas são deficientes no nosso país e acabam, muitas vezes, esquecidas. Quando acontece um debate para promover ideias, sempre visando uma evolução no sentido da acessibilidade, da quebra desse preconceito que ainda existe, é fundamental”, completou Ricardinho. 

“O Dia Internacional das Pessoas com Deficiência é importante para fazer as pessoas pensarem nas dificuldades das outras, refletirem um pouco e talvez conhecerem também, porque não é todo mundo que sabe a dificuldade de uma pessoa com deficiência no seu dia a dia. Mas também não podemos deixar essa data ser simplesmente um único dia do ano em que paramos para pensar e refletir. Precisamos fazer isso todos os dias”, concluiu Lorena Spoladore.

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