O brasileiro Israel Pereira Stroh, medalhista de prata nos Jogos Paralímpicos do Rio-2016, foi suspenso por quatro anos do tênis de mesa paralímpico após decisão do Tribunal da Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF). Ele é acusado de conduta corrupta durante o Aberto Paralímpico da Polônia de 2024 e de ter feito 68 apostas em partidas da modalidade entre março de 2022 e abril de 2024. A punição foi publicada nesta terça-feira no site da entidade e tem validade até 26 de junho de 2029. O atleta, que recorreu à Corte Arbitral do Esporte (CAS) contra a decisão, nega as acusações e garante que é inocente.
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“Este processo está em curso há mais de 20 meses, com certeza os piores da minha vida. Estou lutando inclusive contra os piores pensamentos possíveis, mas principalmente por justiça. O desejo por Justiça se sobrepõe, infelizmente, ao desejo por me manter vivo e atuante no esporte. Mas não vou permitir que destruam meu nome e minha carreira”, disse o atleta em nota enviada à reportagem do Olimpíada Todo Dia.
Segundo a ITTF, quem conduziu a investigação foi a Unidade de Integridade da federação internacional, órgão independente responsável por apurar violações ao código de ética da modalidade. O painel disciplinar determinou dois anos de suspensão por conduta corrupta e mais dois anos de suspensão por causa das apostas. As penalidades são cumpridas simultaneamente, totalizando quatro anos de inelegibilidade.
Denúncia no Aberto da Polônia
O processo teve início em abril de 2024, durante o Aberto Paralímpico da Polônia. Segundo a ITTF, Stroh é acusado de “conduta corrupta” antes da final de duplas da classe 14, vencida por ele ao lado do espanhol Jordi Morales diante do belga Ben Despineux e do norueguês Krizander Magnussen.
“A acusação foi feita com base somente nos depoimentos de três pessoas (dois jogadores e um técnico), o que não se caracteriza como prova. Os três deram uma entrevista e a ITTF acreditou. Simples assim! Sem provas, sem material de apoio, nada! Eu ganhei a vaga (para os Jogos Paralímpicos de Paris-2024) ao ser campeão do torneio de duplas na Polônia. Vitória limpa, como todas em minha carreira. Eles disseram que eu ofereci vantagem para perderem a partida para mim, o que é absolutamente mentira. O que havia era um claro descontentamento com o regulamento de classificação para os Jogos de Paris, em que mudanças legais acabaram me favorecendo, e aborrecendo meus adversários em questão. Mas nunca, nunca, houve nenhum tipo de oferta. Obviamente, nunca houve prova disso nestes 20 meses de processo em curso”, garante Israel Stroh.
Testemunha acusada
O brasileiro, por sua vez, acusa um dos adversários com quem concorria à vaga em Paris de ter lhe pedido para entregar a final dos Jogos Parapan-Americanos, que aconteceram no ano anterior. “Curiosamente, um destes adversários, seguindo sua leitura do regulamento sobre suas chances de classificação para os Jogos de Paris, pediu para que eu perdesse a final dos Jogos Panamericanos de propósito, alegando que seria bom para “todo mundo”, ao mostrar suas matemáticas. Eu perdi, obviamente que apenas por questões técnicas e naturais do jogo. Ainda assim, nada houve contra ele e seu depoimento foi usado contra mim. O caso agora será decidido pelo CAS, onde pretendo levar mais uma vez as provas e acreditar que elas serão apreciadas da forma correta e com imparcialidade”, espera.
Segundo apuração da reportagem, esse pedido de manipulação do resultado da final dos Jogos Parapan-Americanos foi feito pelas redes sociais e Israel Stroh tem o print como prova, que ele chegou a mostrar a companheiros de equipe, ao longo do período do processo. Apesar disso, a Unidade de Integridade da ITTF não levou esse material em consideração em seu julgamento.
Apostas esportivas
Durante as investigações, a Unidade de Integridade da ITTF também identificou 68 apostas realizadas por Stroh entre março de 2022 e abril de 2024, prática proibida pelo código de ética da modalidade para atletas profissionais. O atleta alega que não sabia da proibição pelo fato da entidade não ter divulgado corretamente a informação.
“Não houve nada que de fato fosse contra a integridade do esporte. Nunca apostei em jogos meus, nem de amigos, nem em jogos que estivesse presente, nem como espectador. A ITTF, que até o final de 2024 tinha um site específico para atletas paralímpicos, nunca publicou esta proibição para os paratletas, NUNCA. Na decisão judicial, ela diz que eu era obrigado a ter visto no site para os atletas olímpicos. Além de contraintuitivo, no mínimo, isso viola o devido processo legal e a Convenção da ONU para Pessoas com Deficiência, que exigem adaptação e igualdade formal e MATERIAL, o que não houve”
Cronologia
O processo teve início em abril de 2024, após denúncia relacionada ao comportamento do atleta no Aberto da Polônia. Entre maio e junho, testemunhas e o próprio jogador prestaram depoimento acompanhado por advogado.
Em agosto, a ITTF impôs uma suspensão provisória de seis meses, que chegou a cair por decisão da Corte Arbitral do Esporte (CAS), permitindo que o brasileiro disputasse os Jogos Paralímpicos de Paris-2024.
Posteriormente, em janeiro de 2025, o CAS restabeleceu a suspensão provisória. O julgamento final ocorreu apenas em dezembro, com a confirmação das acusações. Stroh ainda entrou com novo recurso ao CAS, protocolado em janeiro de 2026, solicitando a suspensão temporária da pena até a análise definitiva do caso. Mesmo assim, a decisão segue válida até eventual mudança.
Quem é Israel Stroh?
Natural de Santos (SP), Stroh tem 39 anos e compete na classe funcional 7. Ele entrou para a história ao se tornar o primeiro brasileiro a conquistar uma medalha individual paralímpica no tênis de mesa, com a prata no Rio-2016.
Antes de se dedicar integralmente ao esporte, teve carreira como jornalista, com passagens por TV Primeira, Federação Paulista de Futebol, Diário Lance, TV Tribuna, TV TEM e Portuguesa Santista. Formou-se pela Universidade Metodista de São Paulo em 2009 e descobriu oficialmente sua condição de paralisia cerebral aos 25 anos. Em 2012, passou a receber o Bolsa Atleta e, no ano seguinte, ingressou na seleção brasileira paralímpica.
Íntegra da nota de Israel Stroh
Sobre a suspensão da ITTF contra mim:
Em maio de 2024, fui notificado pela ITTF de que havia uma denúncia contra mim por suposta oferta de vantagem para que eu vencesse uma partida importante de classificação para os Jogos de Paris2024. Desde o início, garanto que essa acusação é mentirosa. Obviamente, nunca houve prova disso nestes 20 meses de processo em curso, em que sempre fui solícito ao processo.
A acusação foi feita com base em somente nos depoimentos de três pessoas, o que não se caracteriza como prova. Os três deram uma entrevista e a ITTF acreditou. Simples assim! Sem provas, sem material de apoio, nada!
Eu ganhei a vaga ao ser campeão do torneio de duplas na Polônia, ao enfrentar exatamente esses dois adversários e este técnico em questão. Vitória limpa, como todas em minha carreira. Eles disseram que eu ofereci vantagem para perderem a partida para mim, o que é absolutamente mentira. O que havia era um claro descontentamento com o regulamento de classificação para os Jogos de Paris, em que mudanças legais acabaram me favorecendo, e aborrecendo meus adversários em questão. Mas nunca, nunca, houve nenhum tipo de oferta.
Curiosamente, um destes adversários, seguindo sua leitura do regulamento sobre suas chances de classificação para os Jogos de Paris, pediu para que eu perdesse a final dos Jogos Panamericanos de propósito, alegando que seria bom para “todo mundo”, ao mostrar suas matemáticas. Eu perdi, obviamente que apenas por questões técnicas e naturais do jogo. Ainda assim, nada houve contra ele e seu depoimento foi usado contra mim. O caso agora será decidido pelo CAS, onde pretendo levar mais uma vez as provas e acreditar que elas serão apreciadas da forma correta e com imparcialidade.
CONTEXTO
À título de ilustração, o Aberto da Polônia, em março de 2024, foi cercado de insatisfações. Em particular, uma mudança, ou atualização, abrupta da regra mexeu com a chance de classificação de alguns jogadores. Em particular com as de um de meus acusadores, que apesar de líder do ranking mundial, estava eliminado da disputa por Paris.
Outro adversário meu, que também esteve representado no processo, foi eliminado de Paris por ter VENCIDO dois jogos. Um deles, inclusive, contra mim. Uma derrota, em vez de uma vitória, lhe dava o sonho olímpico, por mais contraditório que isso pareça.
Em meio a um regulamento confuso e falho, países estavam revoltados e adversários meus tentaram tirar minha vaga, conquistada por direito. Mas isso foi longe demais. Afetaram minha honra, meu nome, minha história… e isso precisa acabar.
APOSTAS ESPORTIVAS
Eu também estou sendo acusado por ter feito apostas esportivas, o que a ITTF classifica como ilegal. No entanto, além de não haver nenhum ganho relevante nessas atividades, não houve nada que de fato fosse contra a integridade do esporte. Nunca apostei em jogos meus, nem de amigos, nem em jogos que estivesse presente, nem como espectador. E não é só isso. Até porque os jogos paralímpicos sequer entram no mercado de apostas e os calendários são absolutamente independentes.
A ITTF, que até o final de 2024 tinha um site específico para atletas paralímpicos, nunca publicou esta proibição para os paratletas, NUNCA. Na decisão judicial, ela diz que eu era obrigado a ter visto no site para os atletas olímpicos. Além de contraintuitivo, no mínimo, isso viola o devido processo legal e a Convenção da ONU para Pessoas com Deficiência, que exigem adaptação e igualdade formal e MATERIAL, o que não houve.
Dito isso, quero informar que este processo está em curso há mais de 20 meses, com certeza os piores da minha vida. Estou lutando inclusive contra os piores pensamentos possíveis, mas principalmente por justiça. O desejo por Justiça se sobrepõe, infelizmente, ao desejo por me manter vivo e atuante no esporte. Mas não vou permitir que destruam meu nome e minha carreira.