A mudança para a Austrália abriu um novo caminho para Maria Fernanda Costa na preparação até Los Angeles-2028. Vivendo em Brisbane, Mafê aumentou o volume de treinos, desenvolveu a capacidade aeróbica, passou a conviver com mais frequência com algumas das principais nadadoras do mundo e ampliou até o número de provas que considera para os próximos Jogos Olímpicos. Mais de um ano depois da decisão, a brasileira vê a experiência como uma forma de buscar um novo patamar na carreira.
Em entrevista ao Olimpíada Todo Dia durante o Troféu José Finkel, Mafê explicou que a escolha pela Austrália esteve diretamente relacionada às características das provas que disputa. O país concentra algumas das principais nadadoras do mundo nas distâncias de livre e oferece à brasileira a possibilidade de competir constantemente em alto nível.
“A concentração das minhas provas está muito na Austrália. O desenvolvimento das minhas provas tem se concentrado na Austrália e eu quis ir para lá por conta disso”, explicou.
A decisão já alterou aspectos importantes da preparação. Mafê afirmou que voltou a se colocar em nível competitivo internacional e destacou a constância adquirida durante o período no país.
Mais volume para aumentar a resistência
O aumento da capacidade aeróbica é uma das principais mudanças percebidas por Mafê. A lógica de trabalhar distâncias maiores do que as provas principais já fazia parte da preparação da brasileira antes da mudança, mas ganhou ainda mais espaço na Austrália.
“Se eu nadava 200, treinava para 400. Se nadava 400, treinava para 800. E, se quisesse nadar 800, treinava para 1500. Na Austrália não é diferente. Para você estar condicionada na sua prova principal, sempre tem que treinar uma prova acima”, contou.
Atualmente, Mafê realiza nove sessões semanais na piscina e três trabalhos de academia. Os treinos na água pela manhã duram aproximadamente duas horas e podem chegar a 2h40. À tarde, ficam geralmente entre duas horas e 2h20.
O volume é superior ao que a brasileira estava acostumada a realizar no Brasil.
“Eu treino fundo, então é uma quilometragem maior do que eu fazia aqui no Brasil. É uma semana muito intensa de treinos”, afirmou.
Para Mafê, essa carga também aumentou a capacidade de suportar períodos longos de competição.
“Eu treino muito. Tenho um aeróbico muito grande hoje em dia, que me faz aguentar duas semanas de competição.”
1500m entram no radar
A nova preparação não mudou apenas a forma de treinar. Ela também ampliou o leque de provas que Mafê considera dentro do ciclo olímpico.
Os 200m e 400m livre estiveram durante boa parte da carreira entre suas principais distâncias. Os 800m também ganharam espaço e, agora, os 1500m passaram a ser testados como uma possibilidade para o futuro.
“Eu me testei no 1500 este ano. É uma prova que ainda tenho que testar mais algumas vezes para ver se realmente vou levar para a Olimpíada. Tenho um ano e meio para poder testar. Isso é algo que eu nunca imaginei poder fazer, poder colocar no meu planejamento”, disse.
A brasileira ainda não definiu se disputará a distância em Los Angeles-2028, mas considera a possibilidade um exemplo de como o período na Austrália aumentou suas opções.
“A Austrália tem feito isso comigo. Acho que me deu oportunidades, abriu minhas opções.”
Mesmo com o novo cenário, Mafê já estabelece objetivos claros para três provas. Ela quer romper a barreira de 1min55s nos 200m livre, dos quatro minutos nos 400m e de 8min20s nos 800m até os próximos Jogos.
Segundo a nadadora, são marcas que podem colocá-la em condição de disputar finais e se aproximar da briga por medalhas.
Única estrangeira em uma equipe australiana
A adaptação também aconteceu fora da piscina. Mafê é a única estrangeira de um grupo formado por cerca de 15 ou 16 atletas e precisou construir uma nova rotina longe do Brasil.
Segundo a brasileira, a convivência com os companheiros de equipe facilitou o processo.
“Foi muito legal dividir culturas e compartilhar experiências com eles. Acho que é mais novo para eles do que para mim, porque toda a minha equipe é australiana, só eu sou estrangeira.”
A competitividade dos treinamentos é outro aspecto valorizado por Mafê. Na avaliação dela, a presença de campeões e medalhistas olímpicos espalhados por diferentes equipes ajuda a explicar a força da natação australiana.
Mafê chegou, inclusive, a treinar com Lani Pallister, uma das principais nadadoras do mundo nas provas de livre.
“É muita competitividade, o treino é muito intenso. Eu aprendo muito com eles, eles aprendem muito comigo, mas acredito que quem está tirando essa vantagem sou eu.”
Brisbane ajuda Mafê a concentrar ciclo em LA-2028
Fora dos treinos, Mafê encontrou em Brisbane uma rotina compatível com o que buscava para este momento da carreira. Ela considera a cidade tranquila e com poucas distrações, características que, para a brasileira, ajudam a manter o foco no ciclo olímpico.
Nos momentos livres, procura restaurantes, pratica yoga e pilates e participa de atividades com os companheiros de equipe.
Mafê também mantém contato frequente com Fernando Possenti, seu antigo treinador. Os dois vivem a aproximadamente meia hora de distância e costumam se encontrar semanalmente. Apesar de não comandar mais a rotina de treinamentos da nadadora, Possenti segue como uma referência esportiva e pessoal.
“A gente virou uma família. Temos uma troca muito legal. As experiências que a gente vive hoje são diferentes, então ele contribui muito para o meu trabalho, para o meu desenvolvimento como atleta e pessoa.”
Convívio com a elite muda perspectiva
Treinar na Austrália também tornou mais frequente o contato com atletas que Mafê encontra nas principais competições internacionais. Essa convivência, segundo ela, ajuda a naturalizar a presença ao lado das melhores do mundo.
“Você estar sempre se colocando em competições e desafios faz se acostumar com o cenário, faz se acostumar com as adversárias. É sempre uma honra, é sempre algo muito grande competir com elas, mas você tem que se ver lá. Tem que acreditar em você para estar ali.”
Esse processo está ligado à principal meta de Mafê para Los Angeles. Sétima colocada na final dos 400m livre em Paris-2024, ela quer chegar aos próximos Jogos em condições de melhorar o resultado e disputar uma medalha.
“Eu sonho, sim, com a medalha. Sabemos que é muito difícil, mas todo mundo trabalha muito para isso. Quero chegar novamente na melhor forma possível para poder disputar essa medalha.”
Até lá, a brasileira pretende usar as próximas temporadas para testar provas, competir com frequência e continuar reduzindo suas marcas. Em 2027, Mafê projeta um calendário mais cheio, com o Mundial de Budapeste, o Pan-Americano e competições na Austrália entre os eventos considerados na programação.
A meta final já está estabelecida. O caminho escolhido para tentar alcançá-la passa por Brisbane.