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E se fosse na Olimpíada?

Manifestações como as que pararam os playoffs da NBA são um tabu no Movimento Olímpico. Mas cresce a pressão para que a história mude

Jogadores da NBA mostraram sua força ao protestar contra o racismo e paralisar os playoffs (twitter/BleacherReport)

E se fosse na Olimpíada?

Ainda repercutem os efeitos do histórico protesto protagonizado pelos jogadores da NBA na última quarta-feira (26), contra a violência policial e o racismo estrutural nos Estados Unidos. Protestos que tiveram efeito cascata e paralisaram competições nas demais ligas esportivas americanas. Tudo provocado em mais um ato de violência da polícia contra a comunidade negra. Desta vez, com um policial em Kenosha, no estado de Wisconsin, dando sete tiros contra Jacob Blake.

Foi uma tomada de posição importantíssima pelos atletas da NBA. Mostrou uma grande força de mobilização, engajamento e passaram um forte recado: queremos ser ouvidos. Só que essa bolha pode ultrapassar as fronteiras americanas e chegar simplesmente aos Jogos Olímpicos.

Não é de hoje que se fala em uma necessidade de liberalização de manifestações de atletas por causas sociais em Olimpíadas. Durante a onda mundial de protestos contra o assassinato de George Floyd (causada pela polícia), no final de maio, o tema chegou ao COI (Comitê Olímpico Internacional).

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Presidente da entidade, o alemão Thomas Bach foi questionado se diante da postura de outras entidades esportivas, como a Fifa, IPC (Comitê Paralímpico Internacional) e World Athletics (Federação Internacional de Atletismo), de apoiarem protestos antirracistas pelos atletas, qual seria a posição do COI. Como se sabe, existe a famosa “Regra 50” dentro da Carta Olímpica. Ela foi criada pelos cartolas olímpicos para proibir qualquer tipo de manifestação política ou religiosa nas arenas olímpicas.

De forma surpreendente, Bach afirmou que o COI estava aberto ao diálogo. Segundo ele, a Comissão de Atletas da entidade estava iniciando contatos com a comunidade esportiva mundial para “explorar como os atletas podem dar seu apoio de uma forma digna”, disse na ocasião.

Thomas Bach, do COI em mensagem de abertura de 2020 - Foto Hanna Lassen / Getty Images
Thomas Bach admite que o COI pode discutir uma flexibilização da Regra 50 e permitir manifestações dos atletas em Olimpíadas (Divulgação)

Porém, estes movimentos ainda tímidos do COI podem não ser o bastante.

Recado duro

Nesta sexta-feira (28), a Global Athlete, movimento que reúne diversos atletas em todo o planeta, divulgou um duro comunicado (confira aqui o texto original, em inglês), no qual pede que o COI e o IPC eliminem definitivamente a Regra 50.

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“Ao se recusarem a competir após os tiros em Jacob Blake, estes atletas colocaram a equidade e justiça social acima de suas carreiras. Eles estão exercendo o seu direito universal à liberdade de expressão e nem terão seu discurso restringido por dirigentes esportivos”, diz um trecho do comunicado da Global Athlete.

O movimento ainda alega ter consultado especialistas em direitos humanos sobre a questão da liberdade de expressão. Segundo eles, é preciso acabar com a Regra 50.

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“O COI e o IPC têm evitado firmemente qualquer tipo de relacionamento com seus atletas e se recusam a compensá-los pela participação em Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Portanto, pedimos que a consulta da Comissão de Atletas seja encerrada e que COI e IPC revoguem imediatamente a Regra 50”, completou o comunicado.

Embora contundente, a posição da Global Athlete certamente encontrará resistência dentro dos gabinetes do COI. Conservadores, os dirigentes olímpicos certamente não veem com simpatia protestos como estes que ocorreram nos Estados Unidos. Alguns podem até argumentar que com isso tentam proteger o posicionamento neutro do movimento olímpico sobre temas que estão fora das questões esportivas. Mas a neutralidade, neste caso, significa o mesmo que compactuar com racismo e injustiça social.

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É impossível agora prever como estará o mundo em 2021. Mas o sinal passado pelos jogadores da NBA foi bem claro. O atleta tem sim o direito de se manifestar diante de injustiças e contra o racismo. Será bem difícil para o COI segurar esta onda democrática na Olimpíada de Tóquio.

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