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Ciclismo Mountain Bike

“Eu posso, sim, pensar em medalha no Pan”

Esse é Guilherme Muller, atleta de Mountain Bike que deu as primeiras pedaladas em Monte Sião, sul de Minas, e é de lá mesmo que ele pretende subir no pódio em Lima

"Se não tivesse nascido em Monte Sião talvez tivesse ido para ciclismo de estrada"

“Eu posso, sim, pensar em medalha no Pan”

Tudo começou nas ruas de Monte Sião, cidade localizada no sul de Minas Gerais em meio à imponente Serra da Mantiqueira. Desde bem menino, Guilherme Muller já procurava desafios em cima de sua magrela e logo se apaixonou pelas trilhas. Aí começou uma história que pode chegar ao inédito pódio do Mountain Bike nos Jogos Pan-Americanos de Lima.

Ciclista desde os doze anos, virou atleta com catorze e agora, aos 24, quer uma medalha na capital peruana. “Eu acho que eu posso, sim, pensar em disputar uma medalha”, afirmou, em entrevista exclusiva para o Olimpíada Todo Dia. “Meu melhor resultado em um Pan-Americano é um quarto lugar, bem próximo de uma medalha de bronze”, diz, referindo-se aos campeonatos pan-americanos anuais específicos de Mountain Bike.

Jogos Pan-Americanos, evento multidisciplinar que é realizado a cada quatro anos, ele nunca disputou e a expectativa é grande. “Eu acredito que deva ser uma experiência muito bacana. Deve lembrar bastante uma estrutura de Olimpíada. A atmosfera do evento, com várias modalidades, todo mundo ali para dar o seu melhor, para representar a sua nação da melhor maneira possível. Deve deixar um clima bastante interessante”.

O quarto lugar que ele cita foi no ano passado, no Campeonato Pan-Americano de Mountain Bike em Pereira, na Colômbia. Neste ano, em Aguascalientes, no México, Guilherme Muller voltou a rondar as primeiras colocações fechando em sexto. O “algo mais” que precisa para ficar entre os três ele já sabe qual é e está em busca.

Mountain Bike: bom início e constância

“Eu acredito que para conseguir um resultado melhor, talvez (precise) melhorar ainda mais a minha largada e a metade da primeira volta. Geralmente é onde eu sinto mais dificuldade em relação aos outros atletas”, diz. Para ilustrar, cita o que havia ocorrido poucos dias antes em prova disputada na República Checa.

“Eu perdi bastante posições na largada e fechei a primeira volta em 76º. Depois eu finalizei a prova em 51º. Eu consegui passar quase trinta atletas em uma prova de nível mundial, então eu tenho de trabalhar bastante nesse start, nesses primeiros cinco minutos, pois eu tenho uma boa regularidade a partir desse ponto”, diz. “No meu histórico, em 90% das provas eu sempre consigo evoluir em relação ao que eu fecho na primeira volta”.

A prova de Cross Country do Mountain Bike é feita em um circuito fechado com diversos obstáculos, naturais ou colocados pelos organizadores, onde os atletas dão um número determinado de voltas. “Geralmente (o circuito) tem de quatro a seis quilômetros e o comissário determina o número de voltas para que dure entre 1h20 e 1h40″. Nos Jogos Pan-Americanos as provas serão no dia 28 de julho. A feminina às 11h e a masculina às 13h30.

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Ele explica que começar no pelotão mais adiantado ajuda a evitar pegar trânsito e “que um atleta na minha frente cometa algum erro”. A intenção é andar de forma mais limpa. “Em geral, é fazer uma boa largada e andar de forma constante”, explica, em poucas palavras, o que tem de fazer para conquistar a medalha nos Jogos Pan-Americanos.

Para conseguir essa evolução, não tem segredo. É treino. “A gente trabalha isso na academia, com alguns treinos na bike, simulando largada, e vai gerando adaptações no organismo”.

Outro obstáculo a superar para conseguir a medalha são, claro, os adversários. Os atletas continentais, segundo ele, têm evoluído bastante: “a Argentina tem atletas fortes, Canadá e Estados Unidos. O México está com um atleta muito bom, que andou muito bem nas últimas Copas do Mundo agora esse ano”, destaca Guilherme Muller.

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Em busca da melhor sensação que existe

Se tudo correr bem e a medalha vier, ele já imagina o que vai passar pela sua cabeça no pódio. “Eu nunca tive uma medalha em Campeonato Pan-Americano, mas eu já tive essa sensação em outras provas. É a melhor sensação que tem, porque a gente trabalha o ano inteiro em busca desses momentos, em busca desse espaço no pódio. É aquela hora que você sente que o dever foi cumprido.”

O sabor do dever cumprido, claro, não é só dele. “Hoje em dia eu tenho umas quatro ou cinco pessoas que me acompanham quase que diariamente então a gente sempre lembra um pouquinho do que cada um faz para você conseguir.”

Essa turma que acompanha Guilherme Muller é da região onde ele nasceu. Seu treinador e fisioterapeuta são de Monte Sião, e o nutricionista e o psicólogo são de uma cidade vizinha. Ele mesmo, já um atleta internacional – atualmente é o 34º do mundo e segundo do Brasil no ranking do cross-country – mora e treina na cidade natal.

E, de vez em quando, encontra a turma lá do início não apenas para colocar o papo em dia. “A gente sempre tem um treino simulado de competição. Sempre reúne o pessoal para começar o treino juntos. Sempre que possível a gente costuma juntar a galera e praticar o esporte que a gente tanto gosta”.

De Caconde para os Jogos Pan-Americanos

Guilherme Muller lembra bem da primeira “sensação boa” que o Mountain Bike de competição lhe proporcionou. Foi na sua primeira prova, em Caconde, município de São Paulo bem próximo à divisa com Minas. “Foi bem sofrido. Foi uma quilometragem curta, acho que uns vinte e poucos quilômetros, mas para mim na época era bastante”.

Apesar da dificuldade, dali ele só quis mais. “Em 2010 eu falei: ‘não, agora vou me dedicar, vou para alguns eventos maiores e quero andar legal. Aí eu treinei mais sério e competi na categoria amadora da Copa Internacional, que até hoje é um dos eventos mais importantes por etapas da América Latina”.

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No ano seguinte, Guilherme Muller subiu para a categoria júnior e foi campeão da Copa Internacional. Começou a montar sua equipe, batalhou patrocínio mais fortes e dali em diante só que faz é pedalar.

“Em 2012, quando passei a disputar a categoria de acesso à categoria de Elite, fui acabando o ensino médio e veio aquela cobrança de faculdade. Foi a hora que eu tive de bater o pé e falar: ‘não, agora eu quero me dedicar ao ciclismo em 100% do meu tempo e mais para frente eu vou pensar em faculdade. Quando eu falei isso eles me apoiaram totalmente e foi bem bacana”.

“Eles” são seis pais:  Seu Nei e Dona Edilene Muller. “Quando eu falei que queria me dedicar a isso, você contava nos dedos quem realmente vivia disso (Mountain Bike) no Brasil. Então foi um pouco mais difícil de fazer eles acreditarem, mas sempre estiveram do meu lado, sempre me apoiaram e daí, graças a Deus, só vem melhorando”, disse o ciclista, que, sim, pode muito pensar em medalha nos Jogos Pan-Americanos.

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