Quando Marta Vieira da Silva nasceu, em 19 de fevereiro de 1986, na pequena Dois Riachos, em Alagoas, o futebol feminino no Brasil ainda carregava as cicatrizes de uma proibição oficial que durou quase quatro décadas. Até 1979, mulheres eram impedidas por lei de praticar futebol no país. Quando Marta começou a chutar bola nas ruas de terra do interior alagoano, a modalidade ainda era vista como inadequada para meninas.
A história dela começa nesse contexto.
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Criada pela mãe, Tereza, ao lado dos irmãos, Marta encontrou no futebol uma forma de pertencimento. Jogava com meninos porque não havia times femininos estruturados. Não havia escolinhas, não havia referência, não havia mercado. O sonho não era uma possibilidade concreta — era insistência.
Aos 14 anos, deixou Alagoas e viajou para o Rio de Janeiro em busca de oportunidade. Foi no Vasco da Gama que começou a se estruturar como atleta profissional. Pouco tempo depois, passou pelo Santa Cruz-MG e ganhou projeção nacional. Em 2003, com apenas 17 anos, estreou na Seleção Brasileira principal e disputou sua primeira Copa do Mundo.
O futebol mundial começava a conhecer um talento raro.
Consolidação internacional
A mudança para a Suécia, em 2004, marcou um ponto de virada. No Umeå IK, Marta encontrou estrutura, calendário competitivo e visibilidade internacional. Foi ali que sua carreira ganhou dimensão global. Entre títulos nacionais e a conquista da UEFA Women’s Cup, ela se transformou em referência técnica e midiática do futebol feminino europeu.
Entre 2006 e 2010, foi eleita cinco vezes consecutivas melhor jogadora do mundo pela FIFA. No total, soma seis premiações — um recorde absoluto no futebol, considerando homens e mulheres.
O reconhecimento individual acompanhava o impacto coletivo: o futebol feminino passava a ter uma estrela global com origem no Brasil.
Seleção Brasileira e protagonismo histórico
Com a camisa da Seleção, Marta foi protagonista em uma das fases mais competitivas da equipe. Esteve nas campanhas que renderam medalhas de prata olímpicas em Atenas 2004 e Pequim 2008. Em 2007, liderou o Brasil até a final da Copa do Mundo, marcando um dos gols mais emblemáticos da história do torneio, contra os Estados Unidos, na semifinal.
Ao longo das Copas do Mundo, construiu outro marco histórico: tornou-se a maior artilheira da história do torneio, entre homens e mulheres, com 17 gols. Superou recordes estabelecidos em décadas de competições masculinas e femininas.
Também tornou-se a primeira atleta a marcar gols em cinco edições diferentes de Copa do Mundo — consistência que atravessou gerações.
Mais do que números
Apesar dos recordes, a trajetória de Marta não pode ser compreendida apenas por estatísticas. Sua carreira se desenvolveu em meio à falta de investimento estrutural no futebol feminino brasileiro. Enquanto atuava em alto nível no exterior, a modalidade no país ainda lutava por calendário regular, contratos estáveis e visibilidade.
Ao longo dos anos, Marta assumiu um papel que extrapolava o campo. Defendeu melhores condições para atletas, cobrou valorização da modalidade e tornou-se voz ativa em debates sobre igualdade no esporte. Em 2019, durante a Copa do Mundo da França, fez um apelo público às novas gerações, pedindo continuidade e comprometimento com o crescimento do futebol feminino.
Sua fala se tornou símbolo de transição de gerações.
Longevidade e permanência
Aos 40 anos, Marta segue em atividade no Orlando Pride, nos Estados Unidos, em uma liga que se consolidou como uma das mais fortes do mundo. A permanência em alto nível reforça outro traço marcante de sua trajetória: a longevidade.
Poucas atletas conseguem atravessar duas décadas no topo do futebol mundial. Marta fez isso mantendo protagonismo técnico, liderança e relevância internacional.
Um divisor de águas
É difícil medir o impacto exato de Marta no crescimento do futebol feminino no Brasil e no mundo. Mas é possível observar efeitos concretos: maior visibilidade midiática, ampliação de categorias de base, surgimento de novas referências brasileiras e aumento do interesse comercial pela modalidade.
Ela não surgiu em um sistema estruturado. Ela ajudou a estruturar o sistema.
Se hoje meninas encontram mais oportunidades para jogar futebol no Brasil, parte desse caminho foi aberto por ela. Se a modalidade ocupa mais espaço nas transmissões, nos patrocínios e nos debates esportivos, há uma relação direta com sua projeção global.
Aos 40 anos, Marta não é apenas uma atleta consagrada. É um marco histórico do esporte brasileiro. Sua trajetória acompanha e simboliza a transformação do futebol feminino de resistência marginal para modalidade profissional em expansão.
E essa história ainda está sendo escrita.