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Crônicas Olímpicas

Rituais, tiques, toc, manias e superstições

Se tem uma coisa que une os vencedores e os perdedores é a fé, em querer vencer.

Rituais, tiques, toc, manias e superstições

Segurando a raquete com a mão esquerda, Rafael Nadal entra em quadra com o pé direito. Ao deixar as mochilas no chão, o tenista fica sempre em movimento, pulando de um lado para o outro, aquecendo. Vai até o centro da quadra para o sorteio. Depois, o espanhol corre, em arrancada, em direção ao fundo da quadra dando um salto levantando a perna esquerda.

É na hora de executar o serviço que Nadal intensifica o ritual. Com uma mão na raquete, a outra ele ajeita a manga do ombro esquerdo, depois a do direito, passa a mão no nariz, na orelha esquerda, no nariz novamente e na orelha direita. Quando tem que mudar de lado da quadra, ele evita pisar nas linhas brancas que marcam a quadra. Na hora de descanso, ele alinha simetricamente todas as garrafas de água com os rótulos virados para a quadra. Com tantos rituais, tiques, manias ou superstições, tenho certeza de que o espanhol é brasileiro.

Escrevo isso porque a superstição é um patrimônio imaterial do nosso país. Superstição é um dos assuntos que os brasileiros mais entendem. Mesmo sem querer, todo mundo tem a sua mania de estimação. Têm pessoas que evitam passar por debaixo de escadas, preferem usar a roupa da sorte, desvirar o chinelo virado com medo de atrair o mau agouro (como a morte da mãe), dar três pulinhos para São Longuinho quando perde algo que desapareceu e fazer um desejo ao cortar a primeira fatia de bolo de aniversário são coisas que algumas pessoas fazem no automático.

Entrar em campo de mãos dadas, fazer o sinal da cruz, pular três vezes com o pé direito beijando o gramado do campo, usar a cueca da sorte ou meia usada são algumas das superstições alimentadas pelos atletas. Se tem uma coisa que une os vencedores e os perdedores é a fé, em querer vencer.

Acho engraçado os atletas que fazem o sinal da cruz e rezam pedindo pela vitória, como se Deus fosse dar o sucesso para quem rezar mais e não para quem treinar mais. Se fosse assim, o time das freiras, dos padres e dos pastores ganhariam todos os títulos. Às vezes acho que muitos ultrapassam a linha tênue entre a fé e a superstição.

Mário Jorge Lobo Zagallo é o papa da superstição esportiva mundial. Dizem as más línguas que o sucesso esportivo do grande mestre foi graças ao apego ao número 13. Ele é considerado o recordista de títulos das Copas do Mundo de futebol. Foi campeão mundial como jogador, em 1958 e 1962, venceu como treinador, em 1970, e como assistente técnico, em 1994. Todas as quatro conquistas foram acompanhadas pelo número da sorte.

Até os melhores dos melhores têm as suas manias. Michael Jordan, maior nome do basquete da NBA, tinha os seus segredos. Ele usava o calção da Universidade da Carolina do Norte debaixo do calção dos Chicago Bulls. Entre 1981 e 1984, Jordan marcou 1.788 pontos e fez 181 assistências em 101 partidas pelo time universitário. Os poderes do calção levaram Michael a se tornar Air Jordan e um ícone do esporte.

Com o tempo, aprendi que não podemos subestimar a crendice alheia. Só quem tem apego as superstições que pode dizer se dá ou não certo. Afinal, todo mundo tem as suas manias.

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