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Fenômeno do impostor no esporte: por que você pode achar que não é bom o bastante

Fenômeno do impostor no esporte: por que você se sente uma fraude

Você melhora o tempo na corrida, ganha uma competição, sobe de categoria ou começa a treinar com pessoas mais experientes. Mesmo assim, em vez de pensar “eu mereço estar aqui”, surge outra sensação:

“Foi sorte.”

“Logo vão perceber que não sou tão bom.”

“Todo mundo aqui treina melhor do que eu.”

Essa experiência é conhecida como fenômeno do impostor. Popularmente chamado de “síndrome do impostor”, ele não é considerado um diagnóstico psiquiátrico. Trata-se de um padrão de percepção em que a pessoa tem dificuldade para reconhecer a própria competência e tende a atribuir conquistas a fatores externos, apesar de existirem evidências de capacidade.

No esporte, isso pode aparecer tanto no alto rendimento quanto para quem acabou de entrar em uma assessoria de corrida, uma equipe ou uma turma mais avançada. A pesquisa específica com atletas ainda é pequena, portanto não dá para afirmar que exista uma prevalência conhecida no esporte. Mas o fenômeno já é discutido na psicologia esportiva e entre atletas.


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O que é o fenômeno do impostor?

Imagine alguém que conseguiu atingir uma meta esportiva importante, mas tem dificuldade para relacionar o resultado ao próprio treinamento.

Se correu bem:

“O percurso estava fácil.”

Se foi escolhido para jogar:

“Faltava gente.”

Se ganhou:

“O adversário estava mal.”

Se recebe um elogio:

“Eles não sabem como eu realmente sou.”

O problema não está em reconhecer que sorte, contexto ou adversário também influenciam o esporte. Eles realmente influenciam. A questão é desconsiderar sistematicamente a própria preparação e capacidade, mantendo a sensação de que a qualquer momento alguém descobrirá que você não pertence àquele lugar.

Pesquisadores brasileiros que validaram a Escala Clance do Fenômeno do Impostor descrevem justamente essa experiência de dúvidas persistentes em relação às próprias conquistas e capacidades.

Por que isso pode aparecer justamente quando você melhora?

Porque subir de nível também muda sua referência.

Uma pessoa que estava entre as melhores de uma turma pode entrar em um grupo mais avançado e passar a treinar com gente mais rápida, forte ou experiente.

Ela não piorou.

O grupo de comparação mudou.

No esporte, esse efeito pode ficar ainda mais evidente porque desempenho é constantemente transformado em números: tempo, posição, carga, ranking, pontos, gols ou percentual de acerto.

Isso cria oportunidades legítimas para acompanhar a evolução, mas também pode alimentar comparações que diminuem a percepção da própria competência.

Uma pesquisa brasileira publicada pela revista Motrivivência, da Universidade Federal de Santa Catarina, investigou o autorrastreamento de exercícios e mostrou justamente essa ambivalência: dados de desempenho podem servir de motivação e acompanhamento, mas rankings e comparações também podem produzir sensação de inferioridade e outros desconfortos emocionais.

“Eu não sou atleta de verdade”

Para o praticante amador, o fenômeno pode aparecer de outra maneira.

“Corro, mas não sou corredor.”

“Faço triatlo, mas sou muito lento para dizer que sou triatleta.”

“Treino tênis, mas jogo mal demais para me considerar tenista.”

A pessoa cria uma espécie de prova imaginária de entrada.

Só poderia se considerar corredora depois de atingir determinado pace. Só seria ciclista se fizesse certa distância. Só seria realmente praticante quando competisse.

Mas participar de uma modalidade e ser atleta de alto rendimento são coisas diferentes.

Você não precisa correr os 10 km em determinado tempo para poder dizer que pratica corrida.

Ganhar pode não resolver a sensação

Esse é outro ponto curioso.

A lógica parece dizer que uma vitória, uma promoção de faixa ou um recorde pessoal deveria eliminar a insegurança.

Mas alguém com forte percepção de impostor pode interpretar justamente a nova conquista como mais uma situação que precisa explicar.

“Dei sorte de novo.”

“Foi um dia fora da curva.”

“Agora esperam ainda mais de mim.”

O fenômeno pode, portanto, coexistir com resultados objetivamente bons. A característica central não é falta de competência, mas dificuldade para internalizar as evidências dessa competência.

Como perceber que a comparação ficou injusta?

Uma pergunta simples pode ajudar:

com quem você está se comparando?

Um corredor que começou há seis meses talvez esteja usando como referência alguém que corre há dez anos.

Um faixa-branca pode olhar para movimentos de um faixa-preta.

Uma mulher de 40 anos que começou a nadar agora pode comparar seu tempo com alguém que treinou competitivamente durante toda a adolescência.

A comparação mostra uma diferença real de desempenho, mas não necessariamente diz algo útil sobre sua capacidade.

Uma referência mais informativa é comparar também aquilo que você consegue fazer hoje com aquilo que conseguia fazer alguns meses atrás.

Guarde evidências, não apenas sensações

Quando a sensação é “não sou bom o suficiente”, vale procurar informações concretas.

Você aumentou a distância?

Aprendeu uma técnica?

Conseguiu completar uma prova?

Foi promovido de faixa?

Está executando um movimento que não conseguia antes?

Recebeu determinada oportunidade porque alguém avaliou que você tinha condições para ela?

Isso não exige adotar um discurso de “sou incrível”.

É simplesmente confrontar uma percepção subjetiva com fatos.

O fenômeno do impostor envolve justamente dificuldade para reconhecer evidências de competência; por isso, olhar para resultados concretos pode ajudar a colocar a sensação em perspectiva.

Não transforme toda insegurança em uma síndrome

Também é importante não patologizar uma experiência normal.

Chegar a um grupo novo e se sentir inseguro pode acontecer com qualquer pessoa.

Sentir frio na barriga antes de competir também.

Olhar para alguém muito mais experiente e pensar “não sei se estou pronto para isso” não significa automaticamente apresentar fenômeno do impostor.

O termo faz mais sentido quando existe um padrão recorrente de desvalorizar as próprias conquistas, atribuí-las constantemente a fatores externos e temer ser revelado como alguém menos competente do que os outros acreditam.

Por isso, talvez seja mais adequado falar em “fenômeno do impostor” do que em “síndrome”. Ele não aparece como transtorno próprio nos principais sistemas diagnósticos e não deveria ser autodiagnosticado a partir de uma lista nas redes sociais.

Quando procurar ajuda?

Se a insegurança começa a causar sofrimento importante, evitar treinos, competições e oportunidades ou aparece junto com sintomas persistentes de ansiedade, vale conversar com um psicólogo.

No contexto esportivo, o profissional de psicologia do esporte pode trabalhar não apenas desempenho, mas também a relação do praticante com expectativas, pressão, confiança e participação esportiva. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia reconhece a Psicologia do Esporte como área de atuação profissional, e a produção científica brasileira aborda o esporte também pela perspectiva da saúde mental, não apenas da performance.

Talvez você não tenha enganado ninguém

Há uma ironia no fenômeno do impostor.

Quanto mais a pessoa conquista, mais material pode encontrar para pensar que agora precisa provar que merece aquilo.

Mas uma vaga no time, um recorde pessoal, uma faixa nova ou simplesmente meses de treino não precisam ser tratados como acidentes.

Você não precisa convencer a si mesmo de que é o melhor.

Talvez baste aprender a reconhecer uma coisa bem mais simples:você pode ainda ter muito a aprender e, mesmo assim, já merecer estar onde está.

Consultora de wellness do Olimpíada Todo Dia. Profissinal de educação física, fundadora do Yoga Para Atletas, co-fundadora do Rachão Basquete Feminino, criadora de conteúdo do A Quadra É Delas e personal training

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